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Investimentos

‘O dólar pode, sim, ser cotado a R$ 7 em poucos meses’, diz Victor Hugo Cotoski

Segundo o especialista em moedas, há 70% de chance de o real se desvalorizar ainda mais no curto prazo

Por Luiz Felipe Simões

15/03/2021 | 19:02 Atualização: 16/03/2021 | 9:14

Victor Hugo Cotoski, responsável por novos negócios da divisão de trading na Infinox. Foto: Divulgação/ Infinox Capital
Victor Hugo Cotoski, responsável por novos negócios da divisão de trading na Infinox. Foto: Divulgação/ Infinox Capital

Se você estava planejando viajar para a Disney após a imunização contra a covid-19, é melhor rever essa agenda. No acumulado de 2021, o dólar acumula alta de 8,69% frente ao real, o que deixa a moeda brasileira numa situação complicada. No ano passado, a divisa brasileira foi a que mais se desvalorizou frente à moeda norte-americana. Numa lista de 30 países, o Brasil viu sua moeda ficar 40% mais fraca, segundo dados da Reuters.

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Se por um lado o dólar fraco ajuda os exportadores e torna os preços dos produtos “made in Brazil” mais competitivos no mercado internacional, por outro encarece produtos e insumos importados – as commodities têm pressionado bastante os preços locais.

Para o especialista em moedas Victor Hugo Cotoski, responsável por novos negócios da divisão de trading na Infinox, há fatores que serão determinantes para a valorização ou desvalorização da moeda brasileira em 2021: política, calendário fiscal e reformas. Se esses três pilares estiverem sob controle, o real tem tudo para se valorizar. “Mas se isso virar uma bagunça, pode ter certeza que a tendência vai continuar de alta para mais alta ainda”, diz Cotoski, que conversou com o E-Investidor diretamente de Londres.

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Veja os principais trechos da entrevista:

“O que vai pesar no real no âmbito nacional são medidas de populismo no governo.

E-Investidor – Qual é a sua estimativa para o dólar nos próximos meses ?

Victor Hugo Cotoski – Quando começamos a falar da nossa moeda, o ponto que mais chama a atenção é a correlação do real, no âmbito global, com as commodities. Por quê? Pois temos um mundo que saiu de uma crise, com preços de petróleo, por exemplo, chegando a zero e até negativos e, depois, uma recuperação de consumo no mundo inteiro, principalmente nos EUA e na Ásia.

Depois, temos o preço da commodity se recuperando, chegando a passar de US$ 60 o barril, e todas aquelas moedas que são atreladas ao petróleo, que tem um peso do PIB em commodities, seguiram a tendência.

Olhamos para o dólar australiano, que se valorizou cerca de 30%, para a coroa norueguesa e a coroa sueca, que também se valorizaram e entendemos que o real deveria estar acompanhando essa curva, mas isso não aconteceu.

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O dólar, no pior cenário, poderia ser cotado a R$ 7 em um período de seis até 12 meses. Uma situação fiscal delicada no País somada a um risco político elevado e a um dólar forte no mundo podem ser os estopins.

E-Investidor – Quais pontos sustentam sua projeção?

Cotoski – Temos a taxa de juros nos EUA subindo, a inflação acontecendo no mundo, um Brasil com fiscal sombrio, sem transparência, incerteza de agenda de reforma política no país, dúvida política muito grande, estrangeiro com medo de aumentar a posição no Brasil…

Nós não sabemos se o governo, daqui para frente, vai tomar atitudes de populismo ou o que vai fazer depois de controlar a pandemia – que não está controlada.

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Acreditamos que vai levar mais tempo do que o esperado para a população ser vacinada, principalmente a de risco.

Então, por mais que façamos exercícios diários para tentar achar fundamentos para sermos mais otimistas com o real em curto e médio prazos, acabamos não encontrando. Temos que abrir o leque de opções e entender que, hoje, temos cerca de 70% de chance do real se desvalorizar no curto prazo.

Ter política, calendário fiscal e reformas sob controle será positivo e determinante para o real seguir com valorização no ano

E-Investidor – Qual é a sua opinião sobre a nova lei cambial, que permitirá ter contas em dólar no Brasil? Isso seria bom ou ruim para a moeda brasileira?

Cotoski – Esse é um tema novo. Ter multimoedas é uma coisa comum na Europa, EUA e Ásia. Quando você abre a possibilidade para o brasileiro ter uma conta em dólar, a tendência do brasileiro querer comprar dólares é muito alta, tanto para proteção como para investimentos e outros fatores, principalmente para quem trabalha com importação e exportação.

A reflexão é: uma vez que nós temos diversos compradores de dólar, o preço dele tende a subir. Mas não é porque eu estarei comprando dólar e o real estará se valorizando, que eu estarei tirando do real para colocar no dólar.

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Teremos mais procura, embora nós não tenhamos uma opinião jurídica por trás da logística e do tempo que isso vai acontecer, eu posso assegurar que isso tende a fazer com que o real se desvalorize.

E-Investidor – Por que é tão difícil acertar as previsões do dólar?

Cotoski – Na verdade, a resposta é muito simples, e vou dar um exemplo. Para fazer o valuation, ou seja, definir o valor de uma empresa, que vale cerca de R$ 20 milhões, a probabilidade de acertar é um pouco mais alta do que definir o valuation de um país.

Pense em uma empresa que vale R$ 20 milhões, possui cerca de 10 funcionários, tem um quadro contábil bem definido, com margens de erro próximas a zero. Você consegue entender, fazendo outras pesquisas de gestão, um pouco mais sobre o preço que ela vale, além de definir uma taxa referencial e o preço deste ativo.

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Agora, quando você fala de um país, está falando de um leque, uma equação muito complexa, em que várias variáveis podem interferir no câmbio. Estamos falando de macro, não de um investimento singular em uma ação. Enfim, a equação é muito maior, a probabilidade de você acertar é muito menor.

Falar de dólar é deixar bem claro que a previsão tem uma probabilidade de acontecer, mas que eventos podem mudar do dia para noite e, consequentemente, o valor da moeda.

E-Investidor – Quais eventos podem fazer sua previsão se concretizar e quais podem inviabilizá-la?

Cotoski – O que vai pesar no real no âmbito nacional são medidas de populismo no governo. Reformas barradas, privatizações não estão andando e a extensão da pandemia possivelmente até setembro ou novembro.

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O Brasil está com pouco mais de 9 milhões de pessoas vacinadas. Quanto tempo vai demorar para cobrir a zona de risco e seus 30 ou 40 milhões de pessoas? A nova cepa já apresenta risco para a pessoa entre 40 e 50 anos.

Temos que estar antenados a essas situações de âmbito nacional porque é isso que pode fazer com que o real se deprecie fortemente.

Do lado internacional e macro, o que poderia nos impactar é uma puxada e uma recuperação na economia dos EUA, juntamente com uma alta de juros.

Vamos supor que os juros se mantivessem em torno de 2% a 2,5% por lá. Isso faria o resgate de capital estrangeiro no país se intensificar. Esse conjunto de coisas culminaria em uma depreciação de, pelo menos, mais 20% da moeda, que eu acredito que passaria de R$ 6 facilmente.

O que poderia nos surpreender é um governo superativo daqui para frente, que conseguisse, de forma clara, emplacar as reformas e as coisas começassem a sair do papel. Se a pandemia tivesse um certo controle, principalmente, e as fronteiras do país abertas, seria muito importante, e não existe previsão nenhuma dos países como EUA e Europa em estar abrindo fronteira com o Brasil.

Isso atrapalha muito, principalmente, na questão de confiança. O estrangeiro está muito desconfortável, porque coloca o capital dele no Brasil, mas a moeda desvaloriza 10%, 5% em três dias, para cima ou para baixo, e ele não consegue ver melhorias na agenda econômica, que são, principalmente, as reformas.

“Falar de dólar é deixar bem claro que a previsão tem uma probabilidade de acontecer, mas que eventos podem mudar do dia para noite e, consequentemente, o valor da moeda.

E-Investidor – Para finalizar, quais fatores serão determinantes para o real em 2021?

Cotoski – Reformas fiscais e políticas. Estes serão os principais fatores no Brasil. Obviamente, um dólar global pesa; mas, hoje, no Brasil, se você alinhar isso com a relação dos emergentes, onde as moedas se valorizaram mais de 20 a 30 % contra o dólar, e o real ainda não, nós temos muito espaço para ganhar forças novamente, porém, isso depende muito da política interna.

Ter política, calendário fiscal e reformas sob controle será positivo e determinante para o real seguir com valorização no ano. Se tivemos divergências sem clareza, a tendência vai continuar de alta para mais alta ainda, e aí valores acima de R$ 6 e R$ 6,20 em diante são a previsão mais pessimista.

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