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Investimentos

FGC não é escudo total: 6 sinais de alerta antes de investir em CDB

Após gastar R$ 52 bi com liquidações com Master, Will Bank e o Pleno, o Fundo pode elevar contribuições dos bancos; investidores enfrentam limites de cobertura e tempo de espera para reembolso

Por Isabela Ortiz

11/03/2026 | 9:44 Atualização: 11/03/2026 | 9:46

Fundo Garantidor de Créditos antecipou contribuições de bancos para reforçar liquidez após liquidações envolvendo Banco Master, Will Bank e Banco Pleno. (Foto: Adobe Stock)
Fundo Garantidor de Créditos antecipou contribuições de bancos para reforçar liquidez após liquidações envolvendo Banco Master, Will Bank e Banco Pleno. (Foto: Adobe Stock)

Embora o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seja uma das principais redes de proteção do sistema financeiro brasileiro, especialistas alertam que ele não funciona como um escudo total para investidores em certificados de depósito bancário (CDB). A garantia tem limites (até R$ 250 mil por CPF por instituição, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos) e, quando um banco entra em liquidação, o investimento para de render imediatamente e o ressarcimento pode levar semanas ou meses.

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O alerta ganha força após uma sequência recente de liquidações bancárias que já consumiu quase R$ 52 bilhões do fundo em instituições como Banco Master, Will Bank e Banco Pleno. Diante da pressão sobre o caixa, o FGC decidiu antecipar 60 meses de contribuições dos bancos associados, medida que deve injetar R$ 32,5 bilhões já em março para reforçar a capacidade de pagamento da entidade.

Além da antecipação, o mercado também espera um aumento de cerca de 50% na contribuição mensal dos bancos ao fundo, embora a mudança ainda não tenha sido comunicada oficialmente. Analistas estimam que o impacto da recomposição de caixa do FGC pode chegar a R$ 30 bilhões distribuídos entre os cinco maiores bancos do País: Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Santander. Para suavizar esse efeito, o Banco Central liberou parte dos depósitos compulsórios, permitindo que as instituições tenham mais liquidez para absorver as contribuições extras.

Até agora, o FGC já desembolsou R$ 38,4 bilhões para credores do Banco Master, cobrindo cerca de 94% do total devido. No caso do Will Bank, o fundo iniciou pagamentos estimados em R$ 6,3 bilhões, dos quais R$ 115 milhões já foram adiantados a clientes com até R$ 1 mil em depósitos. Já no Banco Pleno, a estimativa é de 160 mil credores com cerca de R$ 4,9 bilhões em valores garantidos.

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Apesar de o mecanismo assegurar depósitos e aplicações até determinados limites por cadastro de pessoa física (CPF) e por instituição (CNPJ), especialistas destacam que o processo não é imediato e pode envolver etapas que nem sempre são claras para quem investe em produtos como CDBs de bancos menores.

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Na prática, quando uma instituição financeira é liquidada, o investimento deixa de render a partir da decretação da intervenção, e os recursos podem permanecer indisponíveis por semanas até que o FGC organize o cronograma de pagamentos. O fundo então reembolsa os investidores dentro do limite de cobertura, o de R$ 250 mil por CPF ou por instituição, com um teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos.

A garantia do FGC reduz, mas não elimina completamente o risco

O primeiro ponto de atenção envolve justamente o limite da garantia. Segundo Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, muitos investidores interpretam essa regra de forma equivocada.

“Os principais erros quanto aos R$ 250 mil é que eles são por conglomerado. Então, se um banco é do mesmo grupo que outro, eles garantem só até esse limite”, afirma.

Ela lembra ainda que o teto inclui o rendimento do título. “Não adianta investir exatamente R$ 250 mil inicialmente, porque o FGC cobre o principal mais os juros. Se passar disso, o restante fica descoberto”, explica.

Esse detalhe costuma surpreender investidores que acreditam estar totalmente protegidos. Como explica Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, quem aplica exatamente R$ 250 mil em um CDB pode acabar descoberto caso o banco quebre após algum tempo de rendimento.

“Se o investidor aplicou R$ 250 mil e o banco quebrar depois de um ano, qualquer rendimento acima disso já não estará coberto. Ele recebe os R$ 250 mil e perde toda a rentabilidade do período”, afirma.

Outro equívoco comum envolve a ideia de multiplicar o limite de proteção distribuindo recursos entre vários bancos. Na teoria, dez aplicações de R$ 250 mil pareceriam garantir R$ 2,5 milhões protegidos. Na prática, isso não ocorre.

Almeida explica que o limite global do FGC restringe esse cálculo.

“Existe um teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Quando o investidor recebe o primeiro pagamento de uma liquidação, abre-se uma janela de quatro anos. Se outros bancos quebrarem nesse intervalo, ele só recebe até completar esse limite”, alerta o especialista.

Há ainda situações em que o investidor ultrapassa o limite sem perceber, especialmente quando aplica em instituições do mesmo grupo financeiro.

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Após os problemas envolvendo o Banco Master, alguns investidores descobriram que tinham recursos espalhados em bancos que pertenciam ao mesmo conglomerado, como o Letsbank e o Will Bank, o que reduziu a cobertura efetiva do FGC.

O custo invisível: dinheiro parado

Mesmo quando o valor está integralmente dentro do limite da garantia, há outro fator frequentemente ignorado: o tempo de espera pelo pagamento. Quando o BC decreta a liquidação de uma instituição, o CDB para de render imediatamente, e o investidor precisa aguardar o processo do FGC para receber o dinheiro.

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Nas liquidações ocorridas desde 2015 o prazo médio de pagamento da garantia (somando desde o processo de liquidação, entrega da lista de credores e devolução do dinheiro ao investidor) gira em torno de 29 a 30 dias. No caso do Banco Master, porém, o prazo foi maior devido ao volume de recursos envolvidos.

“Foram mais de R$ 40 bilhões em valores e o pagamento levou cerca de 60 dias, praticamente o dobro da média histórica”, explica Almeida.

O impacto desse período pode ser relevante para a rentabilidade final.

“Se o investidor comprou um CDB a 140% do CDI [certificado de depósito interbancário] e ficou dois meses sem remuneração após a liquidação, o retorno efetivo acaba ficando muito mais próximo de 100% do CDI”, diz.

Para Marília Fontes, o efeito depende do momento do investimento. “Se a pessoa comprou o CDB há bastante tempo, um mês parado não faz tanta diferença. Mas, se acabou de comprar, o impacto na rentabilidade pode ser significativo”, alerta.

Além disso, o dinheiro fica temporariamente indisponível. Mario Leonetti, sócio-fundador da Private Investimentos, lembra que o processo pode levar semanas ou até meses. “No caso do Banco Pleno, o FGC ainda aguarda informações do liquidante para iniciar os pagamentos”, afirma.

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Segundo ele, isso significa que o investidor pode ficar um período considerável sem acesso ao capital. “O dinheiro pode ficar indisponível por semanas ou meses, e esse risco de capital travado também precisa entrar na análise, principalmente quando se busca taxas muito acima do CDI”, reitera Leonetti.

Quando a taxa alta é um sinal de alerta

Se existe um consenso entre especialistas, é de que juros muito acima da média quase sempre indicam um risco maior. No mercado financeiro, taxas mais altas refletem justamente o prêmio exigido pelos investidores para assumir esse risco adicional.

Para Marília Fontes, essa relação é direta.

“O juro mais alto sempre significa um risco mais elevado. Não tem como uma empresa mais segura pagar um juro mais alto. Isso não acontece no mercado”, defende ela.

Segundo ela, ao encontrar um CDB com remuneração muito superior à média, o investidor precisa olhar além da taxa. É preciso analisar a carteira de crédito do banco, o nível de inadimplência, a alavancagem, o índice de Basileia e a rentabilidade sobre o patrimônio. “Tudo isso entra em uma análise de crédito”, aconselha Fontes.

Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, reforça que essas taxas muito agressivas costumam indicar problemas de funding (processo de captação de recursos financeiros de terceiros). “Em um mercado em que grandes bancos pagam em torno de 100% do CDI, ofertas de 140% ou 160% gritam risco embutido“, afirma. Segundo ele, muitas vezes isso sinaliza instituições com custo elevado de captação ou perda de confiança no mercado interbancário.

“Bancos nessas condições acabam recorrendo ao varejo para captar recursos via CDB com taxas altas”, explica.

O checklist de risco antes de comprar um CDB

Diante desse cenário, especialistas sugerem alguns critérios práticos antes de investir:

  • Limitar a exposição a cerca de R$ 200 mil por instituição para evitar ultrapassar o limite do FGC com os juros;
  • Comparar a taxa do CDB com a média de mercado para bancos do mesmo porte;
  • Verificar o índice de Basileia e a capitalização da instituição;
  • Avaliar se o banco apresenta lucro recorrente ao longo dos anos;
  • Observar a qualidade da carteira de crédito e o nível de inadimplência;
  • Checar notícias recentes, mudanças de auditoria ou investigações envolvendo o banco.

Nenhum banco é totalmente livre de risco.

“Toda instituição financeira apresenta algum grau de risco. O investidor precisa fazer sua própria análise e não contar apenas com a figura do FGC”, orienta Almeida.

O FGC continua sendo uma importante camada de proteção para o sistema financeiro, mas não elimina o risco de crédito nem substitui uma análise cuidadosa antes de investir.

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