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Investimentos

Investidores individuais vão na contramão da crise e compram ações

Pessoas físicas injetam R$ 15,5 bi na Bolsa em março

Foto: Daniel Teixeira/Estadão
  • Investidores estrangeiros vendem mais do que compram na Bolsa em março, mas pessoas físicas dão saldo positivo de R$ 15,5 bilhões
  • Nº de CPFs registrados na B3 saltou de 564 mil para 1,9 milhão em quatro anos
  • Apesar da crise, tendência é número de investidores individuais continuar subindo

O maremoto nos mercados nas últimas semanas parece não ter assustado os investidores individuais mais experientes na bolsa de valores, ao contrário do que tem acontecido com os novatos. Apesar da atual crise mundial causada pela disseminação do novo coronavírus, que derrubou o Ibovespa para a casa dos 60 mil pontos e fez o dólar romper a barreira dos R$ 5, as pessoas físicas da B3 não seguiram o fluxo de fuga da renda variável.

Ao contrário. Enquanto os estrangeiros deixaram um saldo negativo de R$ 20,4 bilhões na bolsa entre os dias 2 e 20 de março, os investidores individuais incrementaram R$ 15,5 bi no mesmo período em compra e venda de ações, de acordo com dados da B3.

Isto porque, no total, as pessoas físicas venderam R$ 75,9 bilhões e compraram R$ 91,5 bi. E, entre os investidores de fora do País, a Bolsa perdeu R$ 285,5 bi e só recebeu R$ 265,1 bi.

A participação do segmento de investidores individuais ainda é bem menor no volume total: 14,6% contra 48% de estrangeiros – o restante fica com instituições, clubes de investimentos, entre outros. Mas a fatia do grupo vem crescendo bastante nos últimos quatro anos. A quantidade de CPFs registrados na Bolsa saltou de 564 mil, em 2016, para 1,9 milhão no final de fevereiro de 2020.

O analista de mercado da Ágora Investimentos, Ricardo França, explica que a sequência de cortes da taxa Selic incentivou muitos brasileiros a trocarem a renda fixa pela variável nos últimos anos. “O novo cenário de juros baixos fez os investidores despertarem para a importância de diversificar seus investimentos”, afirma.

Porém, esse movimento não está só associado à redução da Selic, que chegou a 3,75% na última quarta-feira (18), o menor patamar da história. Segundo França, empresas de diversos setores tiveram um crescimento bem destacado nesse período, o que também seduziu os investidores individuais que buscavam aumentar a rentabilidade.

Antes da crise do coronavírus estourar, o vento era favorável aos navegantes da B3. Em 2019, as empresas de consumo e de planos de saúde, por exemplo, tiveram bom desempenho na Bolsa. Respectivamente, nesses segmentos, as que mais cresceram foram Via Varejo (154,44%) e Qualicorp (229,99%). As ações com maior alta no ano foram as do BTG Pactual, que subiram 238,53%. O Ibovespa cresceu 31,58%, fechando dezembro em 115 mil pontos.

“As pessoas físicas acabaram tendo esse impulso porque não havia atratividade na renda fixa”, ressalta o analista da Ágora. “Era um momento positivo para investir na renda variável antes do coronavírus chegar.”

O analista de mercado da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, lembra que esse momento de crise é novidade para a maioria dos investidores individuais. Até agora, boa parte só havia surfado a onda de crescimento da bolsa. “Esse período de volatilidade forte assusta, especialmente os novatos, que só viam o rendimento da B3 crescer”.

Apesar do choque com a queda repentina no valor das ações, o especialista conta que seus clientes, assim como todos os investidores individuais, se viram encurralados. “Do mesmo jeito que a bolsa traz dúvida e incerteza, a renda fixa ou a poupança também vão gerar perda de patrimônio”, diz o analista.

Segundo Arbetman, a saída é ter paciência e não fazer nenhum tipo de movimento brusco no atual cenário. “Com a atual taxa de juros, inflação estabilizada e o câmbio nesse patamar, outros investimentos deixam de ser atrativos. Isso pode ajudar a reter mais gente na bolsa”, avalia.

Para Sandra Peres, analista da Terra Investimentos, a partir de agora o investidor vai precisar analisar a fundo as empresas em que apostar. “Mesmo com a crise, os produtos de primeira necessidade e voltados para o mercado interno continuarão sendo demandados.”

Por ora, as apostas mais seguras na Bolsa são nos setores de alimentos, saneamento e os bancos. Os mais prejudicados, segundo a analista, são turismo e aviação e as gigantes Vale e Petrobras, devido à iminente queda nas exportações e à fuga do capital estrangeiro.

Como foi na crise de 2008?

Neste momento de caos nas bolsas de valores mundiais, é impossível não lembrar da crise de 2008. Se atualmente o problema foi causado por um agente externo, como é o caso da propagação do Sars-CoV-2 (nome científico do novo coronavírus), há 12 anos o colapso teve origem na bolha imobiliária, que levou diversos bancos, como o Lehman Brothers, à falência.

Naquela época, os brasileiros ainda começavam a navegar nos mares do mercado acionário. Em 2007, a quantidade de CPFs registrados na Bolsa era de cerca de 457 mil, quatro vezes menor que os atuais 1,9 milhão.

Quando a crise bateu à porta, no ano seguinte, não houve o mesmo movimento que vemos em 2020 por parte dos investidores individuais. Embora não tenha ocorrido uma fuga de capitais como se imagina, o saldo entre compras e vendas que seguia um patamar positivo ou mais próximo de zero, foi negativo no final do ano de 2008, no pior momento para a bolsa brasileira após a crise.

Em dezembro daquele ano, quando o Ibovespa teve máxima de 39,9 mil pontos no mês depois de chegar ao patamar dos 70 mil pontos em maio, o saldo entre compras e vendas de pessoas físicas foi de 1,3 bilhão negativo. Em maio, o resultado havia sido de 1,6 bilhão positivo.

O processo de retomada não demorou. A bolsa se recuperou ao longo de 2009 e chegou a 69 mil pontos em dezembro. Com isso, as pessoas físicas não deixaram de investir na renda variável. “A bolsa apresenta bons resultados desde 2007. O movimento de migração começou nessa época”, recorda Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Como estará a bolsa daqui a um ano?

A atual conjuntura, com perspectiva de juros mais baixos por um bom tempo, deve contribuir para ampliar ainda mais a participação dos investidores individuais na B3. É o que aponta França, analista da Ágora. “A tendência de longo prazo é de aumento de pessoas físicas na Bolsa”.

A manutenção da Selic em um patamar baixo para os padrões brasileiros pode deixar os investidores adaptados à volatilidade da renda variável, que, em médio e longo prazo, será mais lucrativa do que a renda fixa.

“Ainda há espaço para novos entrantes como pessoa física na Bolsa”, indica França. Ao comparar o mercado acionário do Brasil com o de países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos, ele lembra que ainda temos muito chão a percorrer. “Temos um número muito pequeno, só 2 milhões de CPFs em uma população de 210 milhões. À medida que aprimoramos as condições de mercado, mais pessoas físicas vão entrar.”

Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, concorda. O analista lembra que existe uma gama de produtos além das ações que tendem a crescer e a agradar diferentes gostos, como os fundos imobiliários, por exemplo.

O especialista não arrisca qual será a quantidade de CPFs na B3 daqui a um ano, mas acredita que será maior que a atual: “A crise vai acabar tendo um papel muito didático, mostrando como é importante buscar ser efetivo com seus investimentos.”

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