Selic a 15%: como investir em juros altos sem travar a carteira no curto prazo
Juros elevados favorecem a renda fixa, mas especialistas alertam para erros comuns e defendem diversificação entre pós-fixados, prefixados, IPCA+ e bolsa
Manutenção da Selic em 15% reforça cenário de juros altos e exige mais estratégia na alocação dos investimentos. (Foto: Adobe Stock)
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a Selic em 15% ao ano reforça um cenário de juros elevados por mais tempo no Brasil. Para o investidor, isso significa conviver com retornos elevados na renda fixa, mas também com o risco de decisões excessivamente concentradas no curto prazo. Na avaliação de especialistas, o momento pede menos preocupação com o noticiário e mais organização da carteira de acordo com prazo, objetivos e perfil de risco.
No horizonte mais curto, a Selic elevada torna os investimentos pós-fixados praticamente imbatíveis em termos de risco e retorno. Segundo o economista Cristian Pelizza, “é difícil bater 100% do CDI” quando se trata de aplicações de baixo risco. Títulos públicos e Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pós-fixados acompanham diretamente a taxa básica de juros e oferecem previsibilidade, liquidez e segurança.
Essa característica faz com que o pós-fixado seja a base natural da carteira, especialmente para reserva de emergência e objetivos de curto prazo. No entanto, os especialistas alertam que concentrar todos os recursos nesse tipo de ativo pode limitar o potencial de ganhos ao longo do ciclo econômico.
Prefixados e IPCA+: como entram as oportunidades de longo prazo
Quando o horizonte de investimento se alonga, a dinâmica muda. Pelizza explica que, em prazos maiores, ativos prefixados e títulos atrelados à inflação passam a ganhar relevância, sobretudo porque carregam prêmios elevados. “A taxa real de juros está muito alta no Brasil”, afirma, destacando a existência de papéis IPCA+ com spreads (diferença entre dois preços) próximos de 7% ao ano, nível pouco comum nos últimos 10 a 15 anos.
Na prática, esses títulos permitem ao investidor travar taxas elevadas por períodos mais longos, o que pode gerar ganhos relevantes caso o ciclo de juros comece a se inverter nos próximos anos. Ainda assim, a recomendação é cautela: a entrada deve ser gradual, respeitando o fluxo de caixa e evitando a perda de liquidez.
Como ler Tesouro Selic, CDBs, prefixados e IPCA+ no ciclo atual
Para a gerente da Daycoval Investe, Priscilla Cacavalho, cada produto de renda fixa cumpre uma função específica dentro da carteira. Tesouro Selic e CDBs pós-fixados, por exemplo, funcionam como base de liquidez, especialmente para objetivos de curto prazo. Apesar da liquidez diária, ela chama atenção para o fato de que o Tesouro Selic sofre marcação a mercado, o que pode gerar perdas em resgates antecipados. Nesse sentido, CDBs pós-fixados de bancos sólidos tendem a ser mais adequados para liquidez imediata.
Já os títulos prefixados seguem oferecendo taxas atrativas, sobretudo em prazos entre seis meses e um ano, período em que a curva de juros ainda paga prêmios elevados. “Não é tarde demais para investir em prefixados”, afirma Cacavalho, ao explicar que a curva futura já embute expectativa de queda da Selic, o que reduz a atratividade dos vencimentos mais longos.
Os títulos atrelados ao IPCA, por sua vez, continuam sendo essenciais para proteger o poder de compra no médio e longo prazo. Além disso, cumprem papel importante em estratégias de aposentadoria e formação patrimonial.
Juros altos não eliminam a bolsa, mas exigem seletividade
Apesar do custo de oportunidade imposto pela Selic a 15%, a renda variável não sai do radar. Pelizza lembra que a Selic é um juro de curto prazo, enquanto o investimento em ações deve ser avaliado com base na curva de juros mais longa. Para ele, a bolsa brasileira ficou barata ao longo do tempo, o que já atraiu fluxo de investidores estrangeiros.
Priscilla reforça esse ponto ao destacar que, mesmo em um ambiente de juros elevados, o Ibovespa acumulou alta de 34% em 2025, com dezenas de recordes de fechamento. Esse desempenho mostra que juros altos não impedem a geração de valor, mas tornam o mercado mais seletivo. A preferência deve recair sobre empresas com balanços sólidos, baixa alavancagem, forte geração de caixa e, em muitos casos, exposição a exportações e commodities.
Dólar na carteira: proteção, não aposta
Com juros elevados no Brasil, o diferencial em relação aos Estados Unidos segue alto, favorecendo o ingresso de capital estrangeiro e reduzindo a pressão sobre o dólar no curto prazo. Ainda assim, os especialistas defendem que o investidor pessoa física mantenha uma parcela da carteira dolarizada.
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Para Pelizza, o dólar funciona como instrumento de proteção.
“Se as coisas andam mal no Brasil, isso tende a aparecer na taxa de câmbio”, afirma.
Priscilla Cacavalho complementa que a exposição cambial não deve ser vista como aposta direcional, mas como estratégia de diversificação. Fundos internacionais, Exchange Traded Funds (ETFs), BDRs e fundos cambiais permitem acesso ao mercado externo sem a necessidade de enviar recursos para fora do País.
O erro mais comum em ciclos de juros elevados
Na avaliação do planejador financeiro Diego Endrigo, o principal erro do investidor em ambientes como o atual é confundir juros altos com ausência de risco. “Muitos se acomodam no Certificado de Depósito Interbancário (CDI) e deixam de pensar em diversificação, prazo e objetivos”, afirma. Outro equívoco frequente é tentar antecipar o momento exato dos cortes da Selic, entrando e saindo de ativos com base em expectativas que podem mudar.
Para ele, o mais eficiente é estruturar a carteira em camadas: liquidez bem remunerada no pós-fixado, proteção inflacionária via IPCA+ e, gradualmente, exposição a prazos mais longos e a ativos de risco. “O maior risco não é travar uma taxa hoje; é não ter nenhum ativo que se beneficie quando o ciclo virar”, diz.
O pano de fundo macro para 2026
O cenário projetado pelo mercado reforça essa visão de médio e longo prazo. Segundo o Boletim Focus, a Selic deve recuar para 12,25% até o fim de 2026 – ainda elevada, mas abaixo do nível atual. Para Gabriel Sousa, cofundador e CEO da M3 Lending, a economia brasileira apresenta maior resiliência, com inflação em torno de 4% e fatores adicionais que podem estimular a atividade, como a Copa do Mundo e o início da vigência da reforma tributária.
O consenso entre os especialistas é de que a Selic elevada cria um ambiente favorável, mas exige planejamento. A renda fixa segue central, mas não deve ser tratada como solução única. Diversificação entre prazos, indexadores e classes de ativos, aliada a uma visão de longo prazo, aparece como o caminho mais sólido para atravessar um ciclo de juros altos sem abrir mão de oportunidades futuras.
A pedido do E-Investidor, o colunista do Estadão e professor de finanças na Fundação Getúlio Vargas (FGV) comparou quanto diferentes valores de investimento rendem em um cenário de Selic a 15% ao ano, já considerando o desconto da inflação (IPCA de 4%), o que permite ao investidor visualizar o ganho real do dinheiro. Ao reunir aplicações como renda fixa atrelada à Selic e a poupança, para aportes de R$ 1 mil, R$ 5 mil e R$ 10 mil, o material deixa claro como o patamar elevado dos juros favorece investimentos conservadores fora da poupança, que segue com rendimento bem inferior mesmo em um ciclo monetário restritivo.