Vale (VALE3) adia IPO da VBM e mantém minério de ferro no centro da estratégia; o que isso significa para a ação
Segundo analistas, a mineradora quer priorizar expansão do cobre antes de levar a divisão de metais básicos à bolsa; tese da ação ainda depende do desempenho do minério de ferro
Vale prefere expandir produção de cobre antes de considerar IPO da divisão de metais básicos, enquanto minério de ferro segue como principal fonte de caixa. (Foto: Adobe Stock)
A decisão da Vale (VALE3) de adiar a oferta pública inicial (IPO) da sua divisão de metais básicos (VBM) frustrou parte das expectativas do mercado. Entretanto, esclareceu que a estratégia da mineradora é de priorizar a expansão do cobre e manter o minério de ferro como principal motor de geração e caixa. Para investidores, a valorização da unidade ainda dependerá de execução operacional, enquanto a tese da ação segue ancorada no desempenho do negócio do ferro, que responde pela maior parte do lucro da companhia.
Essa foi a principal mensagem transmitida pelo CEO Gustavo Pimenta em uma reunião na terça-feira (10) com analistas e investidores, segundo relatório da Genial Investimentos.
Nos últimos meses, o mercado vinha especulando sobre a abertura da capital Vale Base Metals (VBM), unidade que reúne ativos de cobre e níquel. No entando, a companhia tratou de esclarecer que estar “IPO-ready” (pronta para o IPO) não significa necessariamente que a listagem esteja próxima.
Segundo a administração, o termo refere-se apenas ao fato de a unidade já possuir governança, processos e estrutura de reporte adequados para uma eventual operação. Em outras palavras, a empresa estaria preparada para abrir capital caso decidisse fazê-lo, mas essa não é a estratégia atual.
A própria gestão reconheceu que o uso da expressão acabou gerando interpretações equivocadas no mercado. O foco, neste momento, não é levar a VBM à bolsa, mas expandir os ativos e aumentar a produção antes de destravar valor.
Na visão da companhia, realizar um IPO agora poderia significar “cristalizar valor cedo demais”, antes que o mercado esteja disposto a precificar adequadamente o potencial da divisão.
Cobre é a aposta de longo prazo
A decisão de adiar o IPO está diretamente ligada à estratégia de crescimento em cobre. A Vale vê o metal como um dos pilares do futuro do grupo, especialmente em um contexto de transição energética e eletrificação da economia. Hoje, a produção gira em torno de cerca de 380 mil toneladas por ano, mas o objetivo é elevar esse volume para aproximadamente 700 mil toneladas até 2035. Esse crescimento deve vir principalmente de projetos no sistema de Carajá, no Pará.
Entre eles estão o projeto Bacaba, que já possui licença de instalação e está em construção, e o projeto Alemão, com capacidade estimada superior a 60 mil toneladas por ano e que entrou recentemente na fase de licenciamento ambiental.
Sem necessidade de levantar capital
Outro fator que reduz a urgência de um IPO é a capacidade de financiamento interno. Segundo a companhia, o plano de expansão do cobre pode ser executado sem necessidade de captação no mercado.
O investimento estimado é de cerca de US$ 3,5 bilhões até 2030 e mais de US$ 5 bilhões até 2035. Ainda assim, a operação da VBM apresenta alavancagem próxima de zero e deve gerar fluxo de caixa livre suficiente para sustentar a expansão.
Diante esse cenário, a companhia avalia que não faz sentido diluir participação nos ativos neste momento apenas para captar recursos.
“A empresa está priorizando a execução em detrimento da monetização”, resume o relatório da Genial.
Níquel perde prioridade estratégica
Enquanto o cobre ganha protagonismo, o níquel passou a ser tratado como um ativo menos estratégico dentro do portfólio.
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A Vale não descarta diferentes alternativas para esse negócio, como parcerias, venda parcial de ativos ou outras formas de reduzir exposição. Um exemplo recente é a reestruturação do ativo de Thompson, no Canadá, onde a companhia optou por formar um consórcio com investidores, mantendo participação minoritária de 18,9%.
A lógica, segundo a gestão, é otimizar o portfólio sem necessariamente abandonar o setor, preservando opcionalidade caso os preços do metal voltem a níveis mais elevados.
Minério de ferro continua no centro
Apesar do foco crescente em metais para a transição energética, o minério de ferro continua sendo o principal pilar da tese de investimento da Vale.
Segundo a Genial, a divisão Iron Ore Solutions ainda responde por cerca de 80% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) consolidado da companhia. Isso significa que, mesmo com o crescimento da VBM, o desempenho da ação seguirá fortemente ligado à dinâmica desse mercado.
Nas conversas com analistas, a empresa afirmou que as condições comerciais com compradores chineses permanecem estáveis, com demanda considerada saudável e embarques ocorrendo normalmente. Outro ponto destacado foi a redução da exposição ao frete spot (transporte contratado no mercado à vista, ou seja, os custos logísticos ficaram mais previsíveis).
Mais de 90% das necessidades de transporte da Vale estão coberturas por contratos de médio e longo prazo, o que diminui a volatilidade de custos logísticos. Além disso, cerca de 75% da exposição ao combustível marítimo está protegida por hedge(proteção para tentar diminuir os efeitos da volatilidade do mercado financeiro sobre seus ativos; no caso da Vale, a empresa já travou parte do custo do combustível e a oscilação no preço do petróleo tem menos impacto no custo).
O que isso significa para a ação
Para os analistas da Genial, a decisão de adiar o IPO reforça que a valorização da divisão de metais básicos dependerá principalmente de execução operacional, e não de um evento corporativo no curto prazo. Basicamente, mercado só deve reprecificar a VBM à medida que o crescimento de produção em cobre se torne mais visível.
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Ao mesmo tempo, a tese de investimento da Vale segue ancorada no minério de ferro, que continua sendo a principal fonte de geração de caixa da companhia. Nesse contexto, o banco mantém recomendação neutra para a ação, com preço-alvo de US$ 17 para American Depositary Receipts (ADR) e R$ 90 para a VALE3, o que representa potencial de valorização de cerca de 8,8% frente aos níveis atuais.