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Mercado

De Biden a Lula: as ações que mais caíram desde o pico do Ibovespa

No dia 08 de janeiro, o Ibovespa bateu recorde com investidores otimistas com o novo presidente americano

Por Jenne Andrade

10/03/2021 | 11:13 Atualização: 10/03/2021 | 11:26

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Werther Santana/Estadão
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Werther Santana/Estadão

Na última segunda-feira (08), o inesperado aconteceu: o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, anulou todas as condenações feitas na Justiça Federal de Curitiba ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, por supostos crimes investigados na Lava Jato. Com isso, o petista torna-se elegível novamente e um candidato com capital político de peso para 2022.

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Em resposta à ‘volta’ de Lula, o Ibovespa, que já estava em território negativo, acelerou as perdas com os investidores de olho no aumento da incerteza no País. No fim da sessão, o índice bateu os 3,98% de baixa, aos 110.611,58 pontos. Exatos dois meses antes, em 8 de janeiro, outro personagem político havia movimentado a Bolsa de Valores e ajudado o índice a chegar na máxima nominal histórica, de 125.323,53 pontos.

Naquela época, houve a confirmação pelo Congresso da vitória de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, após a invasão ao Capitólio instigada por Donald Trump. Com a posse do democrata, as expectativas de maiores estímulos à economia americana aceleraram os ganhos do Ibovespa. As perspectivas de recuperação da economia com o início da vacinação no Brasil também ajudaram na alta.

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Entre o ‘efeito Biden’ e o ‘efeito Lula’, entretanto, muitas águas rolaram e afetaram os ativos da Bolsa. “Foram vários fatores, como o temor relacionado à possibilidade de interferência na Petrobras, que se espalhou para as outras estatais e gerou uma insegurança no mercado como um todo”, explica Paloma Brum, analista da Toro Investimentos. “Tivemos também cortes e até zeragens de impostos sobre combustíveis, o que é considerado uma intervenção no mercado. Nosso País passa a ter um risco maior e os ativos sofrem descontos no preço.”

Fora os sinais de intervencionismo vindos de Brasília, o risco fiscal seguiu no radar. “As discussões quanto ao auxílio emergencial também marcaram o período e os investidores ficaram receosos de que o Governo ultrapasse o teto de gastos. A alta nos juros dos títulos de longo prazo nos EUA faz com que tire recursos de mercados emergentes, como o Brasil, e levem para esses títulos, mais seguros”, afirma Brum. “Fora esses fatores, teve a lentidão na campanha de vacinação e avanço da pandemia no País que afetou a Bolsa.”

De acordo com dados da Economatica Brasil, os papéis que mais sofreram nesse intervalo pertenciam ao Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), Dommo Energia (DMMO3), Anima (ANIM3), Petrobras (PETR3 e PETR4) e Lopes Brasil (LPSB3). Veja o que aconteceu com cada ação.

Nome Código Retorno
(8/Jan/2021 e 8/Mar/2021)
1 P.Açúcar PCAR3 -63,72%
2 Dommo DMMO3 -42,22%
3 Anima ANIM3 -33,93%
4
Petrobras
PETR3 -33,52%
PETR4 -32,20%
5 Lopes Brasil LPSB3 -31,20%

Pão de Açúcar (PCAR3)

Os papéis da varejista de supermercados Grupo Pão de Açúcar (GPA) tiveram a maior queda da Bolsa, com desvalorização de 63,72% entre o pico do Ibovespa, em 08 de janeiro, até a última segunda-feira, 08 de março. “Falando de GPA como um todo, é um varejo supermercadista que integra ecommerce e lojas físicas. A empresa passou no último ano por uma aceleração forte nessa linha digital e tem conseguido performar bem, inclusive impulsionado pela pandemia, já que é considerado um serviço essencial”, explica Brum.

Entretanto, passado o pico maior da pandemia no Brasil, os investidores começaram a reavaliar o ativo. “São negócios que dependem de um grande volume de vendas, de ter muitas lojas físicas, porque o ecommerce é uma porta, mas o grande fluxo está ainda no ambiente físico. É um setor de margens apertadas, de alta competitividade. No fim das contas, o negócio acaba tendo um desconto”, afirma a especialista.

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As ações PCA3 intensificaram as quedas a partir da cisão com o Assaí, realizada no início do mês de março. De acordo com Brum, o Assaí tinha uma linha de negócios diferente das demais do GPA. “Com isso, o Pão de Açúcar perdeu esses ovos de ouro e a ação caiu, mas acreditamos que caiu demais, que não está no preço justo”, diz Brum. Por conta do grande desconto, hoje a Toro Investimentos recomenda entrada no papel, principalmente para investidores que visam o médio prazo.

Já Pedro Serra, analista da Ativa Investimentos, alerta que quem carregou os papéis PCA3 junto aos do Assaí (ASAI3), não teve prejuízo. Logo na estreia após a cisão, em 03 de março, as ações do atacadista subiram 385,73%. “A análise mais correta seria unir as duas, já que cada investidor de Pão de Açúcar recebeu uma ação do Assaí”, afirma. “No mais, foi um ajuste esperado, já que um pedaço da empresa saiu.”

Atualmente a Ativa Investimentos ainda tem recomendação de compra para PCA3. “Gostamos do case e achamos que as ações estão bem descontadas. E agora com a volta da pandemia, vemos esses varejos de supermercados menos impactados pelas restrições”, conclui Serra.

Anima (ANIM3)

As ações da Anima, do setor educacional, tiveram a terceira maior queda no período, de 33,93%. É importante lembrar que em 2020, a companhia se destacou como única do segmento a ter valorização. “ANIM3 subiu mais de 20%, enquanto as demais do setor caíram cerca de 40%”, destaca Brum. “Ela se diferenciou justamente pelo modelo híbrido, com educação online e presencial. Então quando a pandemia chegou, a Anima estava melhor preparada.”

Contudo, em 2021, com a persistência da pandemia e a lentidão na vacinação, o futuro do setor de educação segue nebuloso, com queda no nível de renda devido à crise, mas sem ainda o auxílio emergencial.

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Essa conjuntura, então, impacta diretamente as companhias do segmento educacional, em três métricas importantes: captação de alunos, evasão e nível de inadimplência esperado. “Agora a Anima cai mais que os pares do setor porque foi a que subiu mais no ano passado. As outras empresas já estavam muito descontadas, ainda assim caem cerca de 20%”, afirma Brum.

No segmento de educação, a Toro Investimentos não tem recomendação para Anima. “Preferimos Yduqs, está extremamente subavaliada”, diz Brum. A Yduqs caiu 21,80% entre 08 de janeiro e 08 de março. Em 2020, os papéis da empresa já haviam cedido 29,39%.

A Ativa Investimentos, por sua vez, tem recomendação de compra para todo o setor de educação, com exceção da empresa Cogna. “É a que menos gosta porque a companhia ainda tem desafios a serem vencidos, como um nível de alavancagem maior, além de menor potencial para fazer novas aquisições no setor”, afirma Serra.

Petrobras (PETR4 e PETR3)

Com desvalorizações de 32,20% e 33,52%, os ativos PETR4 e PETR3, entraram na lista das maiores quedas desde o pico do Ibovespa, a partir do momento em que começaram a acontecer sinalizações de interferência do Governo na estatal.

No final de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro começou a demonstrar descontentamento com a política de preços da Petrobras após as altas dos combustíveis. Pelas redes sociais, o chefe do executivo anunciou a demissão do CEO da petroleira, Roberto Castello Branco, e indicação do general Luna e Silva para o posto.

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Em meio à polêmica, as ações PETR caíram 20% só no pregão de 22 de fevereiro. “Ainda não houve interferência concreta, isso tem que ser ressaltado. Mas como no passado recente a Petrobras sofreu ingerência no Governo Dilma, os investidores acabam ficando receosos e com expectativas negativas, mas ainda não há nada de concreto”, explica Brum.

Outro fator que está puxando os ativos para baixo seria a aversão global ao risco, frente a alta dos juros dos títulos americanos de longo prazo, que ultrapassam os 1,6% ao ano. “Passa a ver um deslocamento de capital, de economias emergentes, para ativos de maior segurança, ou seja, para esses títulos que estão com retornos maiores.”

Na visão de Brum, apesar das intercorrências recentes com a companhia, os papéis da Petrobras seguem como recomendação de compra. “Acreditamos que o desconto no preço das ações da Petrobras foi muito forte, principalmente por não ter tido uma interferência consumada na companhia”, afirma. “E mesmo que haja alguma mudança na política de preços no intuito de controlar a alta dos combustíveis, por se tratar de uma monopolista do petróleo, tanto na exploração quanto no refino, a empresa deverá conseguir ter bons resultados.”

A opinião não é unânime. A Ativa Investimentos possui recomendação de venda para o papel. “Viramos a mão quando saiu o anúncio da troca do CEO. Claro, o presidente da república tem todo direito de mexer na diretoria, mas a sinalização foi ruim, já que o descontentamento veio da política de preços, que é o quesito que protege o caixa da companhia.”

Dommo Energia (DMMO3) e Lopes Brasil (LPSB3)

A ex-OGX, empresa de Eike Batista, os papéis da Dommo Energia estão entre as maiores quedas nos últimos dois meses. “Vemos outras empresas privadas de exploração de petróleo, com exceção da Petrobras, subindo desde o começo do ano: PRIO e ENAT têm altas de 40% e 35%, respectivamente. Então não se pode dizer que é um problema de setor”, afirma Mario Goulart, analista CNPI da O2 Research.

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Em fevereiro, por exemplo, a produção de petróleo da Dommo Energia caiu 20%, para 41.535 barris. No mês anterior, a produção tinha sido de 51.934 barris. “Patrimônio líquido negativo em 867,6 milhões, e afundando cada vez mais, prejuízos enormes e todos os problemas que já conhecemos”, conclui Goulart.

Já a Lopes Brasil, do ramo imobiliário, tem um panorama mais positivo. No 3º trimestre de 2020, a companhia teve lucro líquido de R$ 4,8 milhões, ante R$ 3,6 milhões obtidos no mesmo período de 2019. A empresa também participou do lançamento de 42 projetos entre julho e setembro do ano passado, que totalizaram um montante de R$ 3,0 bilhões. Contudo o segmento passa por dificuldades.

“Os custos de material subiram bastante (aço principalmente) e houve também um excesso de IPOs de construtoras em 2021, que elevou a disputa por terrenos porque as empresas estão capitalizadas”, afirma Goulart. “O investidor que for se aventurar nas construtoras precisa conhecer bem as finanças da empresa onde for investir.”

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