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Mercado

Acordo Mercosul-UE pode mexer com câmbio, juros e risco Brasil: o que o investidor deve acompanhar

Avanço político reacende expectativas no mercado, mas efeitos sobre ativos dependem de ratificação, tempo de implementação e cenário fiscal doméstico

Por Isabela Ortiz

14/01/2026 | 9:34 Atualização: 14/01/2026 | 9:41

Bandeiras do Mercosul e da União Europeia: acordo comercial avança politicamente e entra no radar do mercado como possível vetor de mudança na percepção de risco do Brasil. (Foto: Adobe Stock)
Bandeiras do Mercosul e da União Europeia: acordo comercial avança politicamente e entra no radar do mercado como possível vetor de mudança na percepção de risco do Brasil. (Foto: Adobe Stock)

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia avançou para uma etapa decisiva e voltou ao radar do mercado financeiro. Mais do que efeitos pontuais sobre exportações e setores específicos, o entendimento começa a ser lido também como um possível vetor de mudança na percepção de risco do Brasil, com reflexos potenciais sobre câmbio, juros futuros e fluxo de capital. Para o investidor, o desafio é separar o que já pode entrar nos preços dos ativos do que ainda depende de etapas políticas e de tempo.

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Na sexta-feira (9), a União Europeia concedeu aprovação política ao acordo UE-Mercosul. A expectativa é de que ele seja assinado em 17 de janeiro, mas ainda precisará passar pela ratificação do Parlamento Europeu. Somente depois disso as regras começam, de fato, a valer. Segundo relatório do BTG Pactual, uma vez implementado, o acordo prevê a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 91% do comércio bilateral, ampliando o acesso de produtos do Mercosul ao mercado europeu, especialmente no agronegócio.

O banco destaca que estão previstas cotas tarifárias para aves, carne bovina, carne suína, etanol, milho e arroz, além da eliminação de tarifas sobre a atual cota de importação de açúcar, de 180 mil toneladas.

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A União Europeia, vale lembrar, já é um parceiro relevante do Brasil: respondeu por aproximadamente 15% das exportações agrícolas brasileiras em 2025, mesmo sem um acordo formal. Embora a China tenha ganhado peso nos últimos anos, a UE continua sendo um destino estratégico.

Ainda assim, o BTG faz questão de temperar o otimismo. Em sua avaliação, os segmentos com maior potencial de mudança positiva no longo prazo são café, aves, etanol e açúcar, mas os efeitos não serão nem automáticos nem imediatos. Isso porque o acordo ainda enfrenta três camadas de incerteza importantes.

  • A primeira é política: a ratificação no Parlamento Europeu pode trazer ajustes regulatórios;
  • A segunda é operacional: a divisão das cotas entre os países do Mercosul só será definida após essa ratificação, o que reduz a visibilidade sobre o impacto específico para o Brasil;
  • A terceira é temporal: a maior parte das reduções tarifárias será implementada de forma gradual ao longo de vários anos, o que dilui impactos no curto prazo.

Há ainda um ponto sensível para investidores acompanharem de perto. O acordo inclui um mecanismo bilateral de salvaguarda para produtos agrícolas, permitindo que a União Europeia suspenda temporariamente tarifas preferenciais caso avalie que as importações estejam prejudicando produtores domésticos.

Para o BTG, esse dispositivo é “particularmente intrigante” e lembra discussões recentes envolvendo salvaguardas impostas pela China sobre a carne bovina. Ou seja, mesmo com o acordo em vigor, o risco de medidas defensivas não desaparece.

Do ponto de vista microeconômico, o banco avalia que diversas empresas sob sua cobertura podem se beneficiar ao longo do tempo, ainda que de forma modesta e gradual, à medida que o acordo melhora condições de preço e amplia, marginalmente, os mercados endereçáveis de exportação. Mas o impacto mais imediato tende a ser macroeconômico, e é aí que entram câmbio, juros e risco no Brasil.

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Para Mauriciano Cavalcante, economista da Ourominas, o acordo tem potencial de influenciar o comportamento do real no médio e longo prazo.

“Há uma tendência de sustentação do real, considerando o potencial do acordo comercial Mercosul-UE para ampliar comércio e investimentos”, afirma.

Segundo ele, não se trata apenas do efeito direto sobre a balança comercial, mas também da sinalização institucional embutida no acordo.

Na leitura do economista, avanços desse tipo costumam ser bem recebidos pelos mercados porque reforçam previsibilidade e integração econômica. “Melhoras institucionais tendem a contribuir para a valorização do real e podem ajudar a amortecer parte da volatilidade em cenários de maior aversão ao risco”, diz. Em outras palavras, o acordo funciona como um colchão parcial contra choques externos, ainda que não elimine a volatilidade típica de mercados emergentes.

Como o acordo afeta o preço de ativos

Esse efeito de antecipação também é relevante para entender o comportamento dos preços dos ativos. Cavalcante lembra que o mercado financeiro raramente espera a implementação completa para reagir.

“O mercado costuma, sim, precificar antecipadamente expectativas de valorização quando há perspectiva concreta de avanço em acordos dessa natureza”, afirma. Isso ajuda a explicar movimentos no câmbio e nos juros futuros mesmo antes de qualquer impacto real sobre exportações ou crescimento.

Na avaliação do economista, dois vetores atuam de forma conjunta: o conteúdo econômico do acordo e a mensagem simbólica que ele carrega. “Ambos os fatores têm peso relevante e atuam positivamente: tanto o conteúdo econômico do acordo quanto a mensagem de integração e previsibilidade institucional”, resume.

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Para o investidor, isso significa que o acordo pode influenciar a percepção de risco país, afetando o prêmio exigido nos juros e a atratividade do Brasil para o capital estrangeiro.

O ganho não é homogêneo

Mas esse ganho não é homogêneo. Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, chama atenção para um ponto pouco discutido no debate público: o efeito assimétrico entre setores.

Na avaliação dele, enquanto o agronegócio tende a sair fortalecido, a indústria brasileira pode enfrentar mais concorrência.

“Você vai impactar positivamente o agronegócio, mas provavelmente vai afetar negativamente a indústria brasileira. Isso não está sendo discutido”, diz.

Segundo o pesquisador, essa vulnerabilidade está ligada à ausência de uma política industrial consistente no País, em contraste com o forte apoio dado historicamente ao setor agrícola.

Essa distinção é importante para entender por que o acordo, por si só, não resolve a questão do risco Brasil. Paz argumenta que o risco-país tem uma dimensão diferente da expansão do comércio.

“A questão de risco do país envolve a dívida, a capacidade de pagar seus gastos, reduzir sua dívida e criar mecanismos de sustentabilidade fiscal”, afirma. Uma economia mais dinâmica ajuda, mas não substitui o papel central das contas públicas na formação do prêmio de risco exigido pelos investidores.

Ambiente institucional aparece como uma variável-chave

Para o pesquisador da FGV, mais do que o volume de comércio, o mercado financeiro reage à previsibilidade. Regras claras, políticas consistentes e estabilidade regulatória aumentam a confiança tanto do investidor estrangeiro quanto do doméstico. “Esse ambiente institucional impacta diretamente a confiança do investidor“, diz, ressaltando que previsibilidade é essencial para decisões de longo prazo.

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Por outro lado, Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, vê o acordo como uma força positiva para os ativos brasileiros, ainda que condicionada a outros fatores.

Para ele, o canal mais direto é o comércio exterior. “É uma força para o mercado brasileiro, que vai refletir com o aumento de exportações”, afirma, lembrando que o País já vem batendo recordes mesmo em um ambiente global mais hostil.

Na visão de Praça, o acesso ampliado ao mercado europeu tende a reduzir o prêmio de risco do Brasil e do real, ainda que de forma gradual.

“O mercado antecipa, mas conforme o benefício efetivo vai tomando forma”, diz. Resistências políticas em países como França e Irlanda limitam uma precificação mais agressiva no curto prazo, mas setores específicos podem sentir efeitos antes, à medida que as exportações e os investimentos avancem.

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Segundo ele, a sequência de transmissão para os ativos costuma seguir uma lógica relativamente clara.

“O primeiro impacto é no câmbio, pela expectativa de fluxo de capital. Em seguida, os juros futuros reagem conforme os acordos tomam forma e mudam a leitura de produtividade. E, por último, o investimento estrangeiro direto, após maior segurança jurídica e previsibilidade”, afirma.

Ainda assim, Praça reforça que o acordo não atua no vácuo. Risco fiscal, inflação, arcabouço regulatório e a atuação do Banco Central seguem determinantes.

“Os fatores domésticos pesam mais na tomada de decisão do investidor”, diz. Na prática, o acordo ajuda, desde que esses outros elementos não caminhem na direção oposta.

O acordo Mercosul-UE pode, sim, influenciar câmbio, juros e risco, mas de forma gradual e condicionada. Para o investidor, o ponto central não é esperar um efeito imediato, e sim acompanhar a combinação entre avanço institucional, disciplina fiscal, implementação efetiva do acordo e o cenário global. É dessa interação, e não apenas da assinatura em si, que virá o impacto real sobre os ativos brasileiros.

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