Bancões mudam diretorias e ajustam estratégia em cenário mais desafiador
Mudanças em Itaú, Santander e Banco do Brasil refletem ajustes estratégicos em um cenário mais desafiador, com foco em execução, rentabilidade e disciplina de capital
Mudanças na liderança refletem foco em eficiência e execução em meio a cenário mais desafiador (Foto: Adobe Stock)
A sucessão de trocas nas diretorias dos grandes bancos, iniciada pelo Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4) em março de 2025 e estendida ao Santander Brasil (SANB11) e ao Banco do Brasil (BBAS3) no último mês, vem alimentando no mercado a percepção de que março se tornou um período de reconfiguração estratégica no setor. Na prática, porém, especialistas avaliam que os movimentos indicam menos rupturas e mais ajustes finos diante de um ambiente mais desafiador.
No caso do BB, as mudanças são amplas e planejadas. A instituição promoveu uma rotação de executivos entre áreas, alinhada às diretrizes estratégicas e ao processo de transformação digital. A presidente Tarciana Medeiros afirmou que o movimento reforça o compromisso com as metas financeiras até 2026 e se apoia em um “programa robusto de formação e capacitação”, voltado a preparar líderes para diferentes frentes.
Segundo ela, a ideia é posicionar “os melhores talentos em funções estratégicas”, impulsionando eficiência, inovação e geração de valor.
Essa lógica de valorização de quadros internos também aparece em mudanças mais específicas, como a nomeação de Marcelo Henrique Gomes da Silva para a diretoria de Empreendedorismo Micro e Pequena Empresa. Com 23 anos de casa, o executivo tem formação sólida e passagem por áreas negociais, táticas e estratégicas, especialmente no segmento de pessoa jurídica.
Já no Santander Brasil, a troca no comando foi interpretada pela XP Investimentos como um sinal de continuidade. O CEO Mario Leão afirmou que a transição para Gilson Finkelsztain “não representa uma ruptura estratégica”, mas uma mudança motivada por razões pessoais, em um momento em que o banco já tem दिशा definida e passa a focar na execução. A ambição segue sendo entregar retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) sustentável acima de 20%, apoiado por disciplina de capital, foco em segmentos mais rentáveis e ganhos de eficiência.
O plano envolve crescimento seletivo, com foco em alta renda, pequenas e médias empresas (PMEs) e middle market, além da redução de exposição a segmentos menos rentáveis. A estratégia também inclui uma “agenda de jaws”, na qual as receitas crescem mais rápido que as despesas. Mesmo com pressões de margem e custo de captação, o banco busca expandir a rentabilidade no médio prazo sem alterar o payout no curto prazo.
No Itaú Unibanco, as mudanças também seguem essa linha de reorganização interna. A criação de uma diretoria de Pessoa Física Varejo, liderada por André Rodrigues, veio da fusão de áreas e está conectada ao avanço do “superapp” e à integração de plataformas, pilares do projeto One Itaú. O movimento inclui ainda o reposicionamento de lideranças e a saída de executivos-chave, como Alexandre Zancani, reforçando a busca por eficiência operacional e melhor experiência do cliente.
O objetivo em comum é a eficiência
Para especialistas, esse conjunto de movimentos reflete muito mais o ciclo econômico do que uma coincidência temporal. Pedro Galdi, analista CNPI da AGF, explica que se trata de “renovação do corpo técnico”, mais evidente no Banco do Brasil por sua natureza estatal, enquanto nos demais bancos predomina uma “renovação estratégica”.
Ele destaca que todas as instituições buscam maior eficiência, o que passa por evolução tecnológica e uso crescente de inteligência artificial. Ainda assim, ressalta que “mudanças de gestão são movimentos normais” e não devem ser vistas como disruptivas.
“Se não houver mudança de fundamentos, o investidor não deve alterar posicionamento”, afirma Galdi.
Na mesma linha, Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, avalia que essas trocas são “ajustes finos de execução diante de um ciclo mais exigente, não uma ruptura estrutural”. Segundo ele, o ambiente de juros elevados e deterioração da qualidade de crédito força bancos a priorizar eficiência, gestão de risco e alocação criteriosa de capital, o que naturalmente exige reposicionamento de lideranças. No caso do Banco do Brasil, por exemplo, a rotação está diretamente ligada à pressão recente de inadimplência e provisões, indicando uma resposta ao cenário macro adverso.
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Ele ressalta ainda que o impacto no valuation (valor do ativo) tende a ser limitado no curto prazo: o mercado “precifica menos o nome e mais a capacidade de entrega”. Assim, promoções internas e rodízios indicam continuidade, enquanto contratações externas ou mudanças em áreas críticas podem sinalizar inflexões mais relevantes.
Para o investidor, a orientação é acompanhar indicadores como ROE, custo de crédito e eficiência antes de qualquer reavaliação de tese.
Fábio Murad, da Ipê Avaliações, amplia a análise ao conectar as mudanças a uma transição global.
“Saímos de um período de juros baixos e liquidez abundante para um cenário mais difícil”, acrescenta.
Nesse contexto, os bancos deixam de priorizar crescimento agressivo e passam a focar controle de risco, eficiência e preservação de capital. Para ele, a troca de executivos, na maioria dos casos, indica continuidade com ajustes táticos, mas o ambiente exige mais disciplina.
Murad também reforça que o impacto no valuation depende menos da troca em si e mais do que ela sinaliza, “o mercado reage à expectativa de mudança na geração de lucro e no risco futuro“. Credibilidade da nova gestão, clareza estratégica e timing econômico são fatores-chave. No curto prazo, essas mudanças podem gerar volatilidade e ruído, mas a reprecificação só se sustenta com entrega consistente ao longo do tempo.
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A “profecia de março” parece menos um padrão místico e mais um reflexo de timing corporativo e macroeconômico. Para o investidor, as mudanças em diretorias são parte do jogo. O que realmente importa é se elas resultam em melhor execução, maior previsibilidade de lucros e disciplina na geração de valor.