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Mercado

Como a China regula o seu mercado de ações e os impactos para os investidores

Suspensão do IPO do Ant Group prova que ninguém está livre dos entraves provocados pelo partido comunista

Por Luiz Felipe Simões

23/11/2020 | 11:20 Atualização: 23/11/2020 | 12:50

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Nas últimas semanas, o mundo abriu os olhos para os riscos regulatórios do mercado chinês. De uma hora para outra, a maior oferta pública inicial da história, o IPO do Ant Group, foi suspensa pelas autoridades locais. Isso mostra que nem mesmo Jack Ma, o homem mais rico da China, co-fundador do Alibaba, está livre dos entraves provocados pelo partido comunista – que, a mando de  Xi Jinping, vem recheando de imposições a segunda maior economia do mundo.

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Para Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo, investir na China sempre será uma relação de risco e retorno. “Quando você tem uma visão mais de curto prazo, toda a vez que o governo anuncia alguma medida vai afetar diretamente o preço do ativos e causar volatilidade”, diz ele, garantindo que isso faz parte do jogo no longo prazo. “Se estou tentando obter altos retornos no país, vou ter que atravessar períodos de volatilidade causados por esse tipo de governo”.

Entendendo o caso

Três dias antes do IPO, marcado para o último dia 5, Jack Ma e outros executivos foram convocados para uma reunião com reguladores chineses, para prestar esclarecimentos sobre a oferta pública do Ant Group.

A Comissão Reguladora de Valores Mobiliários (CSRC, na sigla em inglês) disse que a empresa precisaria de mais capital e novas licenças para se adequar às regras atuais aplicadas a conglomerados financeiros. Ainda não há previsão para a retomada do IPO.

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O incidente fez as ações do grupo Alibaba (dono de um terço do Ant Group) despencarem 14% nos últimos dias. O recuo nos papéis do grupo reduziu nada menos que US$ 3 bilhões na fortuna de Jack Ma.

Para  Knudsen, o IPO do Ant Group deve ser retomado em alguns meses, mas possivelmente não com o mesmo valor. “A China não leva vantagem em impedir a entrada de capital estrangeiro. No IPO do Ant Group, estava o mundo inteiro de olho. Era a primeira oferta pública feita exclusivamente na China, em Xangai e Hong Kong, por isso eles queriam fazer tudo certo.”

Para entender melhor quais os riscos regulatórios que as autoridades locais impõem aos investidores estrangeiros, é preciso saber mais sobre o mercado de ações chinês.

Três bolsas chinesas

A China possui três bolsas de valores, duas na parte continental: Shanghai Stock Exchange (SSE) e Shenzhen Stock Exchange (SZSE), cada uma com valor de mercado de US$ 6 trilhões e US$ 4,5 trilhões, respectivamente. Fora do continente, a Hong Kong Stock Exchange (SEHK) conta com uma capitalização de mercado superior a US$ 4,5 trilhões.

Cada uma delas possui seus próprios índices que, mesmo com a pandemia e a crise global, vêm registrando alta ao longo do ano. O SSE 180 (Xangai) e o SZSE Component (Shenzhen) marcaram 11% e 29%, respectivamente. Em contrapartida, o principal índice de Hong Kong, o Hang Seng, registra baixa de 8%.

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Apesar dos altos valores negociados, o  mercado chinês é extremamente limitado. Apenas 5,4% das ações negociadas em Xangai e Shenzhen são de investidores estrangeiros.

As ações chinesas podem ser divididas em três categorias distintas. Dependendo de onde estão listados, os papéis podem ser negociados em diferentes moedas:

  • Classe A – Esse tipo ação é denominada em Yuan e negociada nas duas bolsas continentais, Xangai e Shenzhen. São transacionadas principalmente por investidores locais. Contudo, investidores institucionais estrangeiros qualificados (QFII) podem operar por conta de uma permissão especial; 
  • Classe B – As ações desse tipo são negociadas principalmente por estrangeiros, mas também estão disponíveis para investidores locais que possuem contas em moeda estrangeira. Dependendo de onde estão listadas, são negociadas em diferentes moedas. Na bolsa de Xangai, por exemplo, são denominadas em dólares americanos; já em Shenzhen, em dólares de Hong Kong;
  • Classe H – Esse tipo de ação não possui restrição sobre quem pode negociá-la e está aberta a todo tipo de investidor. A classe representa empresas da China continental listadas na bolsa de valores da ilha. São negociadas em dólares de Hong Kong.

O E-Investidor ouviu especialistas no assunto para entender melhor como o governo chinês regula o mercado e como isso impacta os investidores estrangeiros.

A mão do governo sobre o mercado

A China possui o seu próprio órgão regulador. Se o Brasil tem a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os chineses contam com a China Securities Regulatory Commission (CSRC), responsável por fiscalizar e regularizar as duas bolsas continentais.

Knudsen explica que as ações dos órgãos regulatórios chineses impactam diretamente no

preço dos ativos. “Em termos de investimento, existe a relação entre risco e retorno. Tem muito retorno a ser retirado da China, mas também tem um risco enorme de investir em um lugar no qual o governo controla diversos aspectos da sociedade”, diz. “É preciso olhar o contexto antes de investir”.

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Para ele, apesar de ser um mercado controlado, o segredo é a diversificação. “Ter uma carteira diversificada sempre diminui os riscos dos investimentos. Não faça uma alocação muito grande na China e, mesmo dentro do país, não invista em uma empresa só”,  diz.

Na opinião do gestor, a tendência é que a economia chinesa avance muito. “Mas ela vai crescer sempre com as rédeas do governo, seguindo os interesses das autoridades chinesas”, lembra. “Essas barreiras, porém, não podem ser tão grandes a ponto de impactar o crescimento”, diz Knudsen.

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