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Mercado avalia queda na Selic. Veja a opinião de 11 analistas

Corte de 0,5 p.p surpreendeu especialistas. Agora, projeções para a taxa de juros ao fim de 2023 devem ser revisadas

(Foto: Agência Brasil)
  • O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira (2) por reduzir a taxa básica de juros do País, a Selic, em 0,5 ponto percentual
  • Depois de um ano estacionada em 13,75% a.a., agora, a taxa de juros do País passa a 13,25% ao ano
  • Decisão foi mais otimista do que o esperado e deve levar a revisão nas projeções de Selic para o fim de 2023 e a altas nos investimentos

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira (2) por reduzir a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, em 0,5 ponto percentual. Este é o primeiro corte de juros no Brasil em três anos e era amplamente esperado pelo mercado como um divisor de águas entre o fim do aperto monetário iniciado em 2021 e este novo ciclo de afrouxamento.

Depois de um ano estacionada em 13,75% ao ano, agora, a taxa de juros do País passa a 13,25% ao ano.

Apesar da queda ser unânime, a magnitude do corte foi debatida por investidores, analistas, gestores e economistas até às vésperas da reunião sem grande consenso. Como mostramos aqui, os palpites variavam entre uma redução mais contida de 0,25 p.p e um ajuste mais agressivo, de 0,5 p.p.

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Entre os membros do Copom, a decisão também foi dividida: 5 x 4 para o corte de 0,5 p.p anunciado. Chamou a atenção o fato de que o presidente do BC, Roberto Campos Neto, votou pela redução mais agressiva ao lado dos diretores Gabriel Galípolo e Ailton Aquino – ambos estreantes no comitê e indicados pelo governo Lula.

“O fato de RCN e Galipolo terem votado juntos evita problemas de conflitos internos a diretoria do BCB na condução da política monetária e alivia pressões sobre o BCB”, destaca o economista André Perfeito.

Para as próximas reuniões, o comunicado do Banco Central indicou que o ritmo de cortes deve se manter em 0,5 p.p. Com isso, alguns integrantes do mercado estão revisando suas projeções de Selic para o fim de 2023 para 11,75%, menor do que a estimativa do Boletim Focus, de 12%.

A notícia é positiva para o mercado de investimentos, especialmente aqueles ativos de risco que apanharam muito no ciclo de alta de juros. Boa parte das ações, FIIs e fundos brasileiros já vinham conseguindo se recuperar nos últimos meses à medida que investidores precificavam o corte nos juros dessa reunião de agosto. Ainda assim, especialistas veem espaço para maiores valorizações, agora que o ajuste foi confirmado.

Veja como ficam os investimentos com a Selic em 13,25% e quais as ações preferidas de 5 corretoras para lucrar com a queda dos juros.

“A decisão foi vista de forma positiva pelo mercado, com isso, principalmente aqueles ativos mais sensíveis aos juros devem sofrer um impacto muito positivo nos próximos dias”, destaca Lucas Martins, sócio e especialista da Blue3 Investimentos. “O mercado dirá nesta quinta-feira (3) se teremos uma queda ainda mais considerável nos juros futuros em comparação ao início do ano, o que deve ser muito positivo para os nossos ativos de risco da bolsa, como ações e fundos imobiliários.”

Veja como a decisão do Copom repercutiu entre fontes do mercado:

André Perfeito, economista

“O que nos interessa aqui neste momento é o comunicado e este veio com alguns pontos importantes. Apesar do placar rachado, Roberto Campos Neto e Galípolo votaram juntos pelo corte e sinalizam que a taxa deve permanecer no campo contracionista para ancorar as expectativas.

Isto sugere que o ‘tiro vai ser curto’, ou seja, que o afrouxamento final da Selic deve ser maior que o mercado espera. Fatalmente o ciclo se encerra já no começo do ano que vem quando a Selic deve estar em 10,75%, taxa que ainda deve ser considerada contracionista.

O fato de RCN e Galipolo terem votado juntos evita problemas de conflitos internos a diretoria do BCB na condução da política monetária e alivia pressões sobre o BCB.

O mercado deve revisar Selic para o fim de 2023 para 11,75% em linha com nossas projeções.”

Felipe Moura, sócio e analista da Finacap Investimentos

“O corte veio em uma magnitude maior do que a maioria do mercado considerava, que era de 0,25%. Também chama a atenção o comentário, no comunicado, de que o Banco Central antevê cortes de mesma magnitude, ou seja, define 50 pontos como o ritmo apropriado a ser utilizado para os próximos cortes.

Isso foi muito positivo e o mercado deve continuar reagindo bem, pois a Bolsa já vem se sustentando acima de 120 mil pontos há mais de um mês. Embora o mercado já precificasse um pouco disso, o efeito deve contribuir na margem positivamente ainda para as ações. Outro destaque é que oficialmente nós temos o início do ciclo de corte de juros no Brasil. Historicamente, quando a gente pega outros ciclos de afrouxamento monetário, vemos que o Ibovespa, na média, tem um desempenho positivo do começo ao final dos cortes.”

Ricardo Jorge, especialista em renda fixa e sócio da Quantzed

“Entre os pontos mais importantes, temos que o comitê ressalta que há uma conjuntura deflacionária e esse é um dos motivos pelos quais eles decidiram tomar a decisão. A gente tem uma desinflação na margem, mas ainda assim em alguns pontos eles ressaltam que o Banco Central ainda vai seguir com o compromisso de trazer a inflação ao redor da meta e ele deixa um sinal a respeito de uma política contracionista ainda por um período mais elevado. Essa fala dá a impressão de que não há espaço nesse momento para acelerar ainda mais a queda, ou seja, muito provavelmente vai continuar nesse passe de 0.50.

Eu acho que uma mensagem importante foi que ele tirou o trecho que fala sobre o risco fiscal e o risco de desancoragem das expectativas. Essa é uma mensagem importante e, inclusive, é uma mensagem um tanto quanto controversa porque o Banco Central deixa de considerar os riscos fiscais em um cenário no qual a gente ainda tem todas as pautas dentro do Congresso para serem encaminhadas.”

João Savignon, head de pesquisa Macroeconomica da Kínitro

“A despeito da decisão mais dovish que a esperada, vale destacar que a decisão foi dividida, com 5×4 para o corte de 0,5 ponto porcentual. Os novos diretores votaram pelo corte mais intenso, como esperado, e foram seguidos pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos, e mais dois diretores, Carolina Barros e Otávio Damasio.

Nossa visão é que o Copom mantenha esse ritmo de cortes de juros nas próximas reuniões, mas não descartamos que possa intensificá-lo, caso o cenário evolua favoravelmente. Isto é, se houver uma continuidade desse ambiente de menor risco doméstico, com o avanço das pautas econômicas na volta do recesso parlamentar, novas indicações de elevação do rating soberano, com consequente apreciação do câmbio, ou novos recuos das expectativas de inflação e das medidas de inflação mais sensíveis ao ciclo econômico.”

Raphael Vieira, co-head de Investimentos da Arton Advisors

“O Copom manteve seu discurso de atuação da política monetária contracionista e de vigilância dos dados que impactam inflação e atividade na condução da política monetária. Apesar de ter iniciado o corte em 0.50 em decisão não unânime, o comitê ressaltou que pode rever a magnitude nas próximas reuniões caso o cenário inflacionário se deteriore.

O mercado estava um tanto dividido sobre o corte ser de 0,25 p.p. ou 0,50 p.p. com uma probabilidade maior precificada hoje na curva de juros de 0,25 p.p.. Vindo a 0,50 p.p., a curva deve ser reprecificada pelo mercado e as expectativas ajustadas para o tom do comunicado.”

Bruno Monsanto, assessor de investimentos e sócio na RJ+ Investimentos

“Um corte de 50 pontos-base era esperado por uma menor parcela do mercado, não era um consenso, então surpreendeu positivamente. Com isso, os ativos de risco devem ganhar uma boa tração, os ativos de renda fixa vão ter um impacto ainda maior nas taxas ofertadas já a partir de amanhã, em relação ao que era disponibilizado até hoje. A gente vai ter algum alívio inclusive no mercado de crédito privado. Com isso deve acontecer menos ruído político, menos declarações e críticas do governo contra o Banco Central e um clima mais harmonioso entre Bacen e governo”

André Meirelles, diretor de Alocação e Distribuição da InvestSmart XP

“O Copom decidiu reduzir a taxa Selic em 0,5%. A queda foi maior do que a esperada pelos economistas, mas em linha com a expectativa do mercado, quando consideramos a curva a termo dos juros.

Em seu comunicado, o Copom anteviu mais uma queda de 0,5% para próxima reunião. Um detalhe importante foi que o presidente do Bacen, Roberto Campos Neto, votou em harmonia com os novos membros do COPOM, Gabriel Galípolo e Ailton de Aquino Santos, os únicos indicados pelo novo Governo.

Para as próximas decisões, o Copom deve considerar os pontos que foram elencados em seu balanço de risco: Persistência da inflação global e na inflação doméstica de serviços poderiam levar o comitê a ponderar uma queda menor e desaceleração da atividade global mais acentuada e surpresas baixistas na trajetória de inflação poderiam levar o comitê a pensar em acelerar a queda, para 0,75%.

Até então, espera-se que o Copom mantenha o ritmo. Para os ativos de risco, essa decisão do Copom pode ser lida como positiva.”

Lucas Martins, sócio e especialista da Blue3 Investimentos

“O corte de 0,5 p.p. era esperado por parte do mercado, embora a grande maioria acreditasse em uma postura mais conservadora por parte do Banco Central nesse primeiro corte. No comunicado oficial, o Comitê destacou que, apesar do arrefecimento inflacionário recente, as projeções de inflação se mantêm. Dada a avaliação de riscos inflacionários e considerando também uma melhora recente do quadro inflacionário doméstico e de outros indicadores econômicos representados no primeiro semestre, o Copom decidiu por cinco votos a quatro dar início a um ciclo gradual de flexibilização monetária.

A decisão foi vista de forma positiva pelo mercado, que espera, inclusive, o mesmo corte na última reunião do ano, fechando 2023 com a Selic a 12%. Com isso, principalmente aqueles ativos mais sensíveis aos juros devem sofrer um impacto muito positivo nos próximos dias. O mercado dirá nesta quinta-feira se teremos uma queda ainda mais considerável nos juros futuros em comparação ao início do ano, o que deve ser muito positivo para os nossos ativos de risco da bolsa, como ações e fundos imobiliários.”

Adriana Dupita, economista sênior para Brasil e Argentina na Bloomberg Economics

“A inflação subjacente e abaixo do esperado, somado a menos incerteza política, levaram o Banco Central do Brasil a começar a relaxar sua política monetária super apertada. Como esperávamos, a decisão não foi unânime e os formuladores de políticas elaboraram uma linguagem para conter as apostas em cortes maiores em reuniões futuras. Revisamos nossa projeção de taxa de final de ano ligeiramente para 11,75%.

O movimento elevou a taxa real ex-ante — descontada pela inflação esperada em 12 meses — para 8,8%. Isso ainda é consideravelmente mais alto do que a suposição do banco central de 4,5% para a taxa neutra, o que significa que a política monetária continua muito rígida.

Esperamos cortes de meio ponto em cada um dos três encontros restantes este ano.”

Daniel Wainstein, sócio sênior da Seneca Evercore e ex-Goldman Sachs no Brasil

“O corte foi um pouco acima do que o mercado esperava, mas muito em linha com o que temos falado. O risco Brasil caiu acentuadamente, hoje literalmente metade do que tínhamos em 31 de outubro de 2022, em meio às eleições. Não há uma clara pressão inflacionária e os juros reais de 10% sobre inflação esperada é, claro, demasiado.

E qual o reflexo disso na economia real? Os bancos poderão captar dinheiro a uma taxa mais baixa, mas se não diminuir o spread (diferença entre taxa que empresta a clientes e taxa que paga pelos seus recursos), de nada adiantará para o consumidor ou para nossos clientes, os empresários brasileiros.

Uma taxa básica mais baixa, aliada a um retorno esperado pelo investidor (prêmio exigido para investidor para comprar ações de uma empresa brasileira diminui à medida que o risco Brasil diminui), deveria levar a um aumento no valor das empresas brasileiras. Em parte, o aumento da Bovespa nos últimos meses também representa que investidor já acreditava que reduções estavam por vir.  Sem dúvida, temos ainda muito espaço para novas reduções significativas em futuro próximo.”

Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura

“O Copom caracterizou o ambiente externo como incerto, destacando que a desinflação continua, mas que os núcleos de inflação seguem altos e que há resiliência no mercado de trabalho de vários países, indicando uma perspectiva menos benigna para a desinflação global, apesar de reconhecer o compromisso dos Bancos Centrais em levar a inflação para a meta. No cenário local, o Copom não mudou a visão de desaceleração da economia e reconheceu a queda nas partes subjacentes da inflação, apesar do nível alto.

Em nossa visão, a decisão do Copom tem por objetivo readequar o grau de restrição da política monetária, após a queda recente da inflação amplificar o efeito contracionista das elevadas altas de juros domésticas. No entanto, a afirmação de que 0,5% é o ritmo apropriado, mas que a decisão de set/23 dependerá dos próximos dados, nos fazem crer que um corte de 0,75% é provável. De forma preliminar, mantivemos nossas projeções de 3 cortes de 0,50% até dez/23, com a taxa Selic fechando o ano em 11,75%, mas reconhecemos que há um viés de baixa.

Mais do que isso, a opção do Copom de deixar em aberto a magnitude do ciclo de cortes nos faz crer que o mercado pode testar uma taxa Selic terminal abaixo de 9,0% nos próximos dias, apesar de não ser nosso cenário base.”