Banco Central inicia ciclo de queda da Selic, mas mantém postura cautelosa diante de riscos inflacionários e cenário externo adverso (Foto: Adobe Stock)
O corte da Selic de 0,25 ponto porcentual que levou a taxa básica de juros de 15% para 14,75% ao ano marcou o início de um ciclo de queda na política monetária no Brasil, ainda que cercado por incertezas. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), anunciada após o fechamento do mercado na quarta-feira (18), veio em linha com as expectativas, mas o tom do comunicado deixou claro que os próximos passos serão cautelosos e altamente dependentes do cenário global.
Na leitura de Thiago Aor, CFO da Cora, o movimento inaugura a flexibilização, mas longe de indicar um ciclo acelerado. Ele destaca que fatores como a alta do petróleoe riscos domésticos – pressões sobre combustíveis e até a possibilidade de paralisação de caminhoneiros – limitam o espaço para reduções mais agressivas. Nesse contexto, o Banco Central (BC) segue dando prioridade à ancoragem das expectativas de inflação, mesmo diante de sinais de desaceleração da atividade econômica.
Essa combinação de início de ciclo de queda de juros com prudência também aparece na avaliação de Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Segundo ele, a decisão envia um recado direto ao mercado financeiro.
O processo de corte começou, mas sem compromisso com um ritmo definido. Em sua análise, o BC reconhece que a política monetária já começa a surtir efeito, com desaceleração da atividade econômica do Páis e alívio inflacionário, mas ainda há um caminho relevante a percorrer.
“É um BC que corta juros, mas mantém o pé no freio”, resume.
O pano de fundo global
A escalada da guerra no Oriente Médio e a consequente alta das commodities, especialmente o petróleo – veja mais aqui –, aumentaram a incerteza e apertaram as condições financeiras globais. Para países emergentes como o Brasil, isso tende a exigir mais cautela na condução dos juros, sob risco de pressionar câmbio e inflação.
Lucas Constantino, estrategista-chefe da GCB Investimentos, reforça que a decisão do Copom já era esperada, mas destaca a mudança no balanço de riscos desde a última reunião, de 27 e 28 de janeiro. Ele observa que o comunicado de ontem da autoridade monetária manteve um tom prudente e condicionou os próximos passos à evolução dos dados. Em especial, chama atenção para a inflação recente, que veio mais pressionada.
“A inflação de fevereiro, medida pelo IPCA [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo], apresentou leve piora, com aceleração dos núcleos e da inflação de serviços”, afirma. Além disso, as expectativas seguem acima da meta, enquanto o choque recente do petróleo ainda não foi totalmente incorporado aos indicadores.
Do lado da atividade econômica, no entanto, já há sinais mais claros de desaceleração, reflexo dos efeitos defasados dos juros elevados. Setores mais sensíveis ao crédito seguem pressionados, embora o mercado de trabalho ainda sustente parte da demanda no curto prazo. Para Constantino, o ciclo de cortes deve continuar ao longo de 2026, mas de forma “bem gradual” e dependente tanto do cenário inflacionário quanto dos desdobramentos globais e domésticos, incluindo riscos fiscais e políticos.
A avaliação de José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, segue linha semelhante. Ele ressalta que a decisão foi amplamente antecipada, sem surpresas. Ao mesmo tempo, o comunicado reforça preocupações importantes, como o impacto da guerra e da alta das commoditiessobre a inflação.
“As projeções de inflação continuam bastante elevadas, e é necessário serenidade e cautela nas próximas decisões”, afirma.
Para ele, a condução do Copom foi essencial para preservar a credibilidade da autoridade monetária.
Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset Management, também destaca o caráter conservador do Banco Central neste início de ciclo. Em sua avaliação, o ritmo de cortes deve ser mais lento do que o mercado projetava inicialmente, justamente por conta dos riscos externos — especialmente ligados ao petróleo. Ainda assim, ele aponta que esse ritmo pode ganhar tração caso o ambiente geopolítico se torne mais favorável.
Alguns especialistas são mais otimistas
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, avalia que o texto trouxe sinais levemente mais suaves (“dovish“), especialmente ao projetar uma inflação de 3,3%. Segundo ela, o impacto do choque recente de petróleo nas projeções foi limitado, o que surpreendeu. “A comunicação de hoje [quarta-feira] foi mais suave e pode estimular o mercado a discutir uma aceleração do ciclo”, afirma, acrescentando que a casa mantém a expectativa de um corte de 0,50 ponto já na próxima reunião.
Na mesma linha, Cristiano Oliveira, diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, chama atenção para o simbolismo da decisão: o Copom iniciou a flexibilização mesmo diante de um choque geopolítico relevante. Para ele, isso reforça tanto a resiliência da economia brasileira quanto a credibilidade do Banco Central. Ainda assim, o cenário segue desafiador.
“O ciclo de flexibilização deve prosseguir de forma gradual, com cortes de 0,25 ponto porcentual, refletindo o elevado grau de incerteza”, afirma.
Um ritmo mais acelerado, segundo ele, dependeria de melhora no ambiente externo e de avanços na trajetória das expectativas de inflação.
O ciclo de corte da Selic começou, mas não será linear nem rápido. Entre pressões inflacionárias ainda persistentes, incertezas externas e um cenário doméstico que mistura desaceleração com resiliência, o Banco Central tende a avançar com cautela, calibrando cada passo conforme os dados e os riscos no horizonte.