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Mercado

Crise na AgroGalaxy (AGXY3) faz ação cair 25% e abala mercado de Fiagros

Empresa entrou com pedido de recuperação judicial e enfrentou debandada de conselheiros

Por Jenne Andrade

19/09/2024 | 18:10 Atualização: 20/09/2024 | 14:01

Fiagros com CRAs da AgroGalaxy desabam no dia (Foto: Envato Elements)
Fiagros com CRAs da AgroGalaxy desabam no dia (Foto: Envato Elements)

A AgroGalaxy (AGXY3) surpreendeu os investidores na última quarta-feira (18), quando publicou dois fatos relevantes “sensíveis” em sequência. O primeiro anunciava a debandada na administração – pelo menos cinco conselheiros renunciaram, assim como o então CEO, Axel Jorge Labourt. Agora, o diretor-financeiro Eron Martins acumulará também o cargo de diretor-presidente.

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Já o segundo comunicado apontava que a empresa havia ajuizado, em caráter de urgência e em segredo de justiça, um pedido de recuperação judicial. Por trás da “RJ” emergencial, a companhia de insumos agrícolas apontou “desafios significativos”, advindos de “eventos climáticos adversos” e da deterioração das condições no mercado brasileiro e internacional. No último resultado financeiro, do 2º trimestre de 2024, a AgroGalaxy reportou um prejuízo de R$ 362,4 milhões, 40% pior do que no mesmo período do ano passado.

“O AgroGalaxy tentou, de todas as formas, evitar recorrer à Justiça, mas a medida é necessária para proteger o negócio e, mais importante, permitir que a empresa siga trabalhando lado a lado com os agricultores”, comenta Eron Martins, novo CEO do AgroGalaxy, em nota enviada à imprensa.

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A empresa reforça que o pedido de RJ foi feito em função de vencimento antecipado de “certas operações financeiras” e que vai adotar medidas para reduzir custos. No fechamento, as ações AGXY3 despencaram 25,51%, atingindo a cotação de R$ 0,73.

“Certas operações financeiras” – os CRAs dos Fiagros

Uma das obrigações financeiras da AgroGalaxy é com o pagamento de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), instrumentos financeiros utilizados por empresas do setor agro para levantar recursos. De acordo com levantamento na plataforma CR Data, do Clube FII, a companhia emitiu pelo menos três CRAs desde 2022, que movimentaram um volume financeiro de R$ 1,3 bilhão até hoje.

A data de 2022 é significativa e explica parte da crise recente na empresa. Odilon Costa, estrategista de renda fixa e crédito privado do Grupo SWM, afirma que o setor agro atravessa um momento turbulento, iniciado com a guerra entre Rússia e Ucrânia em fevereiro daquele ano.

O conflito entre dois grandes produtores de insumos agrícolas provocou volatilidade nos preços das commodities. No início, houve um “boom” das matérias-primas, já que era esperada uma restrição de oferta. Contudo, logo na sequência ocorreu uma queda abrupta dos preços, quando o abastecimento global se normalizou.

Revendedoras de insumos, como a AgroGalaxy, sofreram com essa montanha-russa, já que haviam estocado materiais a preços mais caros para logo em seguida ter que revendê-los a preços mais baixos. O resultado foi que a companhia, que tinha acessado bastante o mercado de capitais para levantar recursos por meio da emissão de CRAs na época do “boom das commodities”, passou a ter dificuldades para continuar rolando os passivos.

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“No último dia 17, a AgroGalaxy tinha que ter pago a amortização dos CRAs, mas não houve esse pagamento. Consequentemente, o default engatilhou a aceleração automática da dívida, o que resultou nesse pedido de RJ”, diz Costa.

Mais um golpe nos Fiagros

Pelo menos seis fundos de investimento nas cadeias produtivas agroindustriais (Fiagros) possuem exposição relevante ao ativo.

A aplicação mais exposta é a Kijani Asatala Fiagro (KJNT11), cuja alocação representa 8,24% do patrimônio líquido do fundo. Na sequência das maiores exposições estão os fiagros JGP Crédito Fiagro Imobiliário (JGPX11) e o XP Crédito Agrícola (XPCA11), com 8% e 7,95% do PL aplicado nesses CRAs. Na sessão, essas duas aplicações apresentavam quedas de 6,11% e 8,06%. Já as cotas do KJNT11 não possuem dados disponíveis.

O caso da possível inadimplência na AgroGalaxy é mais um golpe no mercado de fiagros. Esses produtos vivem uma série de calotes vinculados a produtores rurais. Charo Alves, especialista da Valor Investimentos, lembra que o investidor deve ficar longe destas aplicações.

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“Estamos fazendo esse alerta de que os fiagros são um segmento enfraquecido há quase um ano”, afirma Alves. “Nos fundos imobiliários, no mercado de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), há uma assimetria mais favorável. Até porque a execução de garantias do setor imobiliário é mais simples do que no segmento agro. Orientamos os clientes a sair de fiagros e ir para fundos de CRIs, portfólios mais seguros.”

  • Leia também: Calote em títulos do agro ligam sinal de alerta nos fundos do setor

Alves aponta que, para quem tem esse CRA na carteira, não há muito a ser feito. “Basicamente é acompanhar o movimento, porque a marcação do título fica negativa”, ressalta o especialista. “Acredito que tenha um problema estrutural nos Fiagros, e não será raro ver casos de default (calote). O setor não vai bem, e o produto precisa amadurecer para que as complexidades do exercício das garantias sejam mais eficientes.”

Amadurecimento dos Fiagros ou dos gestores?

Já para Costa, estrategista de renda fixa e crédito privado do Grupo SWM, o problema não é a estrutura do “produto Fiagro”, mas as escolhas dos gestores dessas aplicações.

“Por exemplo, a AgroGalaxy era um nome que já estava no radar de todo mundo, mas existiam casas que tinham uma exposição de mais de 5% das suas carteiras num papel como esse”, afirma. “Então, eu acho que o que tivemos foram erros, com alguns fundos bastante concentrados em poucos ativos, mas a indústria é positiva. É um ‘bolso’ importante para financiar o agronegócio.”

A lição que fica para os investidores, após o caso da AgroGalaxy, é ficar atento ao portfólio dos Fiagros em que está investindo. “Eu tenho que olhar qual é o indexador (do CRA), quem é a gestora, qual o histórico da gestão, quais são os ativos que o fundo carrega, qual é a duration desses ativos. Não adianta só olhar o dividend yield (percentual pago em dividendos)”, diz Costa.

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