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Mercado

Varejo deve fechar 2025 com recuperação desigual e iniciar 2026 com crescimento moderado e atenção à rentabilidade

Efeito climático, inflação de alimentos e consumo mais seletivo devem pressionar o desempenho no 4T25

Por Murilo Melo

24/02/2026 | 14:10 Atualização: 24/02/2026 | 14:40

Varejo (Foto: Envato Elements)
Varejo (Foto: Envato Elements)

Os resultados do varejo no quarto trimestre de 2025 (4T25) devem repetir a dinâmica do terceiro trimestre, com crescimento mais fraco das vendas, mas sem queda da atividade, influenciado por clima desfavorável, inflação de alimentos mais baixa, crédito ainda difícil e maior competição dos marketplaces, que acabam tirando vendas das lojas.

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Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no dia 13 deste mês, mostram que as vendas em 2025 foram melhores nos itens de primeira necessidade e perderam força nos produtos que não são essenciais. A renda das famílias cresce de forma desigual, e o parcelamento segue caro. Alimentos e combustíveis continuam pesando sobre preços, margens e poder de compra, com efeito direto sobre atacarejos, supermercados e redes regionais.

Para especialistas, a Selic mantida em 15% é, hoje, a principal pedra no sapato do varejo e ajuda a explicar por que, com juros elevados e crédito mais seletivo, a receita deixa de ser o principal termômetro de desempenho, enquanto margem operacional, geração de caixa e estrutura de capital passam a concentrar a atenção dos investidores, em um momento de menor tolerância a companhias mais endividadas.

Expectativa dos analistas para cada empresa do varejo

A XP investimentos projeta, em relatório, resultados desiguais no varejo: cerca de 60% das empresas devem sentir pressão na margem bruta, por causa do mix de canais e produtos, investimentos e ajustes internos, enquanto perto de 40% tendem a registrar queda de margem no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda).

“O setor não deve apresentar um crescimento exuberante de receita, mas sim uma dispersão grande de resultados. O 4T25 deve ser marcado por uma diferenciação clara entre empresas que ajustaram estoque, controlaram despesas e preservaram balanço, e aquelas que ainda operam pressionadas financeiramente”, diz Hulisses Dias, mestre em finanças e especialista em investimentos.
  • Lojas Renner (LREN3) e Riachuelo (RIAA3):

Na análise trimestral de Dias, Lojas Renner é a empresa mais bem avaliada pelo mercado, seguida, em menor grau, pela Riachuelo. A leitura se apoia no avanço das vendas nas mesmas lojas, indicador conhecido como same store sales (SSS), na melhora da margem bruta e na redução do peso das despesas operacionais sobre o resultado.

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“São empresas que vêm demonstrando melhor gestão de estoque, menor necessidade de remarcação e evolução de margem bruta. Além disso, têm estruturas de capital mais equilibradas, o que reduz o impacto do resultado financeiro no lucro líquido”, explica.

Olhando por esse ângulo, a XP afirma que a Renner deve apresentar crescimento moderado, apoiado no controle de estoques e disciplina operacional. A demanda por vestuário, segundo os analistas da corretora, tem mostrado recuperação gradual, mesmo com margens pressionadas e consumidores seletivos.

Antonio Pavesi, economista e especialista em investimentos, projeta bom desempenho equilibrado, com atenção às vendas em mesmas lojas e ao estoque, enquanto Carol Sanchez, analista da Levante Inside Corp, afirma que a expansão de margem da Renner deve se sustentar principalmente pelo controle de despesas.

Por outro lado, Pavesi diz que a Riachuelo segue evoluindo na rentabilidade e projeta continuidade da melhora operacional. Já Maressa Campos, especialista em investimentos, indica que o modelo verticalizado da Riachuelo ajuda no controle de custos e prazos, mesmo com a demanda por produtos não essenciais limitando o crescimento.

  • C&A (CEAB3):

A varejista de moda deve enfrentar comparações mais difíceis e pressão sobre margens devido à concorrência e promoções agressivas, especialmente com o inverno prolongado, segundo a XP. Pavesi espera evolução gradual da rentabilidade, enquanto Sanchez observa que o comportamento cauteloso do consumidor limita o desempenho do trimestre. “A C&A deve ter avanços na gestão de mix de produtos, porém ainda enfrentando pressão de margem em função de promoções e competição elevada no segmento de moda”, analisa Campos.

  • Vivara (VIVA3):

Para a XP Investimentos, a rede de joalheria deve registrar avanço nas vendas, mesmo com margens mais apertadas, em um período de ajustes operacionais. O Bradesco BBI, por outro lado, alerta para o risco ligado às commodities, já que a prata, principal matéria-prima da divisão Life, subiu 139% nos últimos 12 meses, ou 8% no ano.

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Produtos em prata têm maior sensibilidade a preços do que os de ouro, porque envolvem tíquetes médios menores e decisões de compra mais rápidas. O banco afirma que a administração da Vivara tem atuado diretamente no mix e na composição dos produtos, controlando preços e alternativas que tradicionalmente ajudam a sustentar as margens.

O BTG Pactual acredita que a Vivara continua entre as empresas de varejo discricionário de maior qualidade no Brasil. Para o banco, a companhia consegue expandir margens mesmo com alta nos preços das commodities, apoiada em previsão de estoque, investimentos na fabricação e preços disciplinados.

  • Azzas 2154 (AZZA3)

O mercado acompanha a Azzas 2154, empresa dona de marcas como Arezzo, Farm, Animale e Reserva, com atenção à integração logística, à racionalização de custos e à governança da nova estrutura. Analistas do Bradesco BBI também observam a geração de caixa, a normalização dos estoques nas unidades de negócio e a captura inicial de sinergias da integração. Além disso, há expectativa sobre a unificação das linhas feminina e masculina e a estratégia de “volta ao básico” em Calçados & Bolsas e na Hering (hub de Blumenau), que podem ajudar a acelerar o crescimento e sustentar a margem. Para a XP, a rede vai, mais uma vez, enfrentar um trimestre fraco.

  • Assaí Atacadista (ASAI3)

A rede de supermercados deve manter crescimento sustentado pela expansão de lojas, execução regional e disciplina operacional. Campos indica que a companhia fechou 2025 com faturamento de R$ 84,7 bilhões e geração de caixa livre de R$ 2,8 bilhões, reduzindo a dívida líquida e encerrando o ano com alavancagem menor que a projetada, mostrando ganhos de escala e menor dependência de crédito ao consumidor.

“A empresa deve manter crescimento resiliente, dada a natureza mais defensiva do atacarejo. No entanto, o foco estará em geração de caixa e desalavancagem, mais do que em expansão agressiva”, aponta Dias.

  • Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3)

A Magalu deve apresentar alguma evolução operacional, mas ainda deve sentir forte pressão no e-commerce, analisa a XP. Campos e Sanchez afirmam que o desempenho depende da disciplina financeira, enquanto o consumo de bens duráveis permanece sensível ao crédito. No outro extremo da análise aparece a Casas Bahia, apontada por Dias como o nome mais frágil do grupo. Mesmo com alguma melhora na operação ao longo do trimestre, o especialista avalia que o peso do resultado financeiro e o alto nível de endividamento devem seguir pressionando o lucro líquido.

“Em um ambiente de juros altos, empresas com dívida relevante sofrem duplamente: têm maior custo financeiro e menor flexibilidade para investir e competir. Os indicadores críticos aqui são dívida líquida/Ebitda, resultado financeiro e geração de caixa”, afirma.

  • Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) e Grupo Mateus (GMAT3)

Especialistas afirmam que o Pão de Açúcar deve ainda reportar margens pressionadas devido a ajustes estratégicos e esforços de desalavancagem, enquanto o Grupo Mateus (GMAT3) deve ter um desempenho defensivo, apoiado na forte presença regional, consumo básico e eficiência logística.

  • Petz (AUAU3)

A rede de petshop deve manter crescimento do mercado pet, com foco em rentabilidade e eficiência de capital. Campos aponta que a expansão física é cautelosa e a integração com a Cobasi exige disciplina financeira.

Recomendações e expectativas para o varejo no 1T26

Neste momento do ciclo econômico, segundo Pavesi, a qualidade das empresas pesa mais que o beta, indicador que mede a sensibilidade de uma ação às variações do mercado. Ele argumenta que companhias com balanço ajustado, geração de caixa previsível, menor dependência de crédito próprio e execução comprovada tendem a oferecer melhor relação risco-retorno.

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O especialista em investimentos aponta Lojas Renner e Assaí como escolhas mais defensivas, enquanto Magazine Luiza e Casas Bahia aparecem como apostas táticas, sujeitas a maior volatilidade caso haja cortes de juros.

Dias, por outro lado, explica que o varejo é um setor volátil, em que não basta escolher a empresa certa, mas também é preciso tempo de entrada e saída e análise de variáveis macroeconômicas. Ele recomenda concentrar a exposição em Lojas Renner, Riachuelo, Assaí e Grupo Mateus por apresentarem execução mais previsível, operações com menos riscos e balanços administráveis.

Dias acrescenta que varejo de vestuário bem gerido e atacarejo alimentar tende a atravessar ciclos mais adversos sem gerar grande perda de valor, ao contrário de empresas mais dependentes de crédito.

Para o primeiro trimestre deste ano (1T26), o mercado espera crescimento moderado no varejo, com foco em rentabilidade em vez de expansão acelerada, segundo Campos. A análise tende a separar empresas com modelos mais defensivos daquelas de consumo discricionário, avaliando cada companhia de forma individual.

“O setor entra em 2026 mais dependente de fundamentos operacionais, eficiência e qualidade de balanço do que de fatores macrogeneralizados”, diz a especialista.

Ulysses Reis, professor da SBS Strong Business School, aponta que empresas que investem em inteligência artificial e na integração dos canais de venda tendem a registrar melhor produtividade e resultados financeiros mais estáveis. A IA aplicada à gestão e ao controle operacional permite decisões mais rápidas e eficientes.

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No caso das redes brasileiras, afirma ele, a adoção ainda é limitada, o que pode gerar defasagem em relação aos padrões globais. A integração de múltiplos canais de vendas (incluindo lojas físicas, comércio eletrônico, aplicativos e vendas entre empresas) aparece como outro fator relevante.

“Poucos varejistas nacionais conseguem fazer com que todos os canais se apoiem mutuamente para atender melhor o cliente, evitando que a operação física e digital entrem em conflito. A eficiência nessa integração pode acelerar o giro de estoque, melhorar a experiência do consumidor e gerar fluxo de caixa positivo, atributos que passam a ser cada vez mais valorizados no início de 2026”, afirma.

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