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Mercado

Copo meio cheio ou meio vazio: a Bolsa brasileira em comparação às suas pares

A turbulência é um fator mais presente na correlação entre política e bolsa de valores desde janeiro de 2011

Por Márcio Kroehn

01/06/2020 | 3:00 Atualização: 02/06/2020 | 18:38

O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto (Foto: Gabriela Bilo/Estadão Conteúdo)
O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto (Foto: Gabriela Bilo/Estadão Conteúdo)

Todo investidor sabe que a Bolsa de Valores vive de expectativas e busca antecipar cada um desses movimentos. Se a perspectiva for de crescimento da economia, com empresas e setores em expansão, é natural que as ações ganhem força antes do cenário se confirmar. Quando o presidente Jair Bolsonaro foi eleito, em 2018, a agenda liberal do ministro Paulo Guedes para a pasta da Economia, com o rígido controle de gastos públicos e a proposta de realização de Reformas em série, empurrou o Ibovespa para uma valorização, descontada a inflação, de 27,6% no primeiro ano do governo. Mas o coronavírus somado à inabilidade do presidente da República para lidar com a pandemia e a crise de confiança instalada por ele em Brasília fizeram o sinal se inverter e os ganhos do principal índice da B3 viraram uma perda de 3,53% nos 515 dias de bolsonarismo até a sexta-feira, 29 de maio.

Leia mais:
  • Como 2020 quebrou a ‘maldição de maio’ na Bolsa
  • As empresas que se fortaleceram na crise
  • ‘Não achei que passaria por um momento pior que em 2008’
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“Os números pontuam que o Brasil é muito suscetível à parte política e à diretriz da economia. Todos os países são, mas aqui parece que é potencializado”, diz Rodrigo Menon, sócio-gestor da Arbitral Gestão de Recursos “Se você pegar um governo não tão radical, seja à direita ou à esquerda, a bolsa brasileira tende a performar em linha com os países emergentes, especialmente os exportadores de commodities como minério, petróleo e, claro, agrícola.”

O primeiro mandato do presidente Lula é um ótimo exemplo. O mundo vivia um ciclo positivo com as commodities e o Ibovespa refletiu esse bom momento, com um ganho de 32,99% na mediana dos quatro anos descontada a inflação do período. Porém, quando se compara o Brasil com seus pares da América Latina, o Ibovespa foi pior que os indicadores de México, Colômbia e Peru. Já no governo Bolsonaro, apesar da queda, o indicador brasileiro está melhor – ou menos pior – que o de todas as demais bolsas latino americanas.

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Os anos para esquecer

A turbulência é um fator mais presente na correlação entre política e bolsa de valores desde janeiro de 2011, quando a presidente Dilma Rousseff assumiu pela primeira vez a Presidência. Nesses 10 anos, o País viu nascer a dicotomia entre os que estão no poder e o que estão fora dele, passou por mais um processo de impeachment e assistiu à prisão do ex-presidente Lula como consequência das investigações da Operação Lava Jato. O grande momento para o Ibovespa é, justamente, durante o período de Michel Temer, quando o índice teve um ganho mediano de 16,3% e deixou todas as bolsas do Continente para trás.

“No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso a rentabilidade da Bolsa no Brasil também foi bastante significativa”, afirma Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional e comercial da Economatica, que fez o levantamento histórico com a rentabilidade dos principais indicadores das bolsas de valores mais importantes da América Latina e dos Estados Unidos especialmente para o E-Investidor/Estadão. “Mas dentro do governo Dilma tivemos um desempenho muito pífio, mostrando uma queda bastante significativa, principalmente no primeiro mandato quando a mediana foi de -13,4%.”

Fator TEC

Um outro ponto a ser observado é o setor das empresas que compõem os índices de cada país. Durante o ciclo positivo das commodities, o Brasil surfou a onda com as ações de Petrobras e Vale, principalmente, puxando o desempenho do Ibovespa. Mas, no últimos tempos, as empresas de tecnologia são as que têm sido a força por trás dos melhores desempenhos das bolsas. E a bolsa brasileira é carente de companhias que estejam liderando as transformações digitais ou a inovação de um segmento.

“Um terço do Ibovespa é formado por ações de bancos. A nossa bolsa tem um peso relativamente grande nesse setor, que possui uma relação direta entre a disponibilidade de crédito e o desempenho do PIB”, diz Marco Saravalle, analista independente de investimentos. “O investidor tem cada vez mais valorizado empresas de growth, ou seja, que crescem muito mais rápido do que a atividade econômica, como é o caso das empresas de tecnologia.”

Esse é um dos fatores determinantes para o descolamento das bolsas americanas em comparação às demais. Nos últimos anos, as ações que formam o acrônimo FAANG (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google) têm carregado o índice S&P 500. Somente neste ano, esses cinco papéis – você encontrará nas suas pesquisas a Alphabet, que é a holding do Google – acumulavam 24% de ganhos absolutos no ano até a semana passada ante uma queda de 7% do indicador.

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Para o investidor, olhar no retrovisor e ver o que se passou é uma maneira de entender por que o mercado registrou aquele desempenho de alta ou de baixa. Mas, o mais importante é refletir como aproveitar essa informação para interpretar o momento atual, como a alta de 8,58% do Ibovespa em maio, e concluir se o copo está meio cheio ou meio vazio.

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