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Mercado

O que você precisa saber sobre o escândalo envolvendo o HSBC e outros bancos globais

Bancos processaram transações financeiras criminosas de mais de US$ 2 trilhões. Odebrecht foi beneficiada

Por E-Investidor

22/09/2020 | 8:48 Atualização: 19/10/2020 | 12:11

Mulher com máscara de proteção passa em frente ao HSBC, em Paris (Foto: Gonzalo Fuente/Reuters)
Mulher com máscara de proteção passa em frente ao HSBC, em Paris (Foto: Gonzalo Fuente/Reuters)

Um escândalo financeiro envolvendo grandes bancos multinacionais como HSBC, Deutsche Bank, Standard Chartered e JPMorgan desencadeou um movimento global de aversão ao risco nos mercados. Uma investigação conduzida por um consórcio internacional de veículos de imprensa, envolvendo cerca de 400 jornalistas de 88 países, mostra que mais de US$ 2 trilhões de origem potencialmente ilícita foram transacionados no sistema financeiro internacional por quase duas décadas.

Leia mais:
  • Os riscos e oportunidades do Open Banking: quem ganha com a regulamentação
  • Abertura de Mercado: Bolsas repercutem com cautela as notícias sobre HSBC e Standard Chartered
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Os documentos foram submetidos à Rede de Combate a Crimes Financeiros (FinCEN), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, e detalham operações supostamente ligadas a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro.

O efeito sobre o mercado financeiro foi devastador. A informação desencadeou uma onda vendedora nas bolsas de Nova York e de toda a Europa, que tombaram mais de 3%, e derrubou os juros dos Treasuries. As bolsas asiáticas também fecharam em baixa generalizada. Os papéis dos bancos envolvidos no escândalo, já batizado de “Fincen files”, também sofreram fortes correções.

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Aqui vai um apanhado do que você precisa saber para se situar sobre o assunto.

O que aconteceu?

Documentos secretos do governo americano obtidos pelo BuzzFeed News e compartilhados com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) sugerem operações suspeitas em alguns dos principais bancos do mundo, que teriam lucrado com dinheiro possivelmente originado de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e terrorismo.

O ICIJ conta que, os jornalistas de 110 veículos de imprensa ao redor do mundo analisaram os documentos durante 16 meses. O conjunto de relatórios vazados, segundo o consórcio, aponta para clientes de bancos em mais de 170 países envolvidos em potenciais transações ilegais.

A equipe teve acesso a mais de 17 mil registros judiciais e entrevistou centenas de pessoas, incluindo especialistas, policiais e até vítimas de delitos.

Os bancos envolvidos no escândalo até agora são HSBC, Deutsche Bank, Bank of New York Mellon, Standard Chartered e JPMorgan.

Os bancos foram pegos de surpresa?

O pior é que não. Segundo relatórios da Fincen – autoridade internacional que monitora movimentações atípicas, equivalente a um Coaf global -, os próprios órgãos de controle dos bancos privados tinham ciência da questão.

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Vários dos bancos envolvidos emitiram comunicados na segunda-feira (21), nos quais afirmam que os dados citados pelas reportagens são “históricos”, ou seja, já tinham conhecimento, além de ressaltar a colaboração deles com autoridades para combater esse tipo de problema.

O HSBC, por exemplo, diz que a denúncia trata de informação “histórica” e que desde 2012 vem trabalhar para lidar com a questão. Vale lembrar que o banco tem um histórico de escândalos financeiros, como o caso de lavagem de dinheiro conhecido como Swissleaks e outros relacionados a cartéis de drogas no México – e que foi tema da série ‘Na Rota do Dinheiro Sujo’, da Netflix.

Em relatório, o grupo de investimentos Shore Capital ressalta que o caso pode ser a revelação pública de assuntos particulares que já foram tratados. “Não está claro para nós se essa notícia representa um motivo novo para punir os bancos envolvidos ou se isso é alguma coisa com a qual as autoridades lidaram anteriormente, uma vez que é informação que elas já conheciam”.

O que afirmam os bancos?

O Deutsche Bank emitiu comunicado, no qual afirma que tem destinado bilhões de dólares para fortalecer seus controles e se engajar no combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. Controles mais altos “naturalmente” levariam a “níveis mais altos de detecção de problemas”, argumenta a instituição.

Na mesma linha, o Standard Chartered ressaltou seu trabalho no combate contra transações suspeitas e disse que colabora com autoridades para que esse tipo de fato seja investigado. “Nós buscamos trabalhar de modo ativo com agentes de segurança nas áreas prioritárias e em casos de maior risco restringimos ou deixamos clientes”, afirma o banco.

O escândalo é grave?

Depende do ponto de vista. A denúncia aponta que os bancos citados colocaram em risco a democracia em diversas regiões do mundo com operações – bastante lucrativas, por sinal – feitas com dinheiro proveniente de lavagem de dinheiro e até terrorismo.

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Para o ICIJ, os documentos oferecem uma visão sem precedentes de um universo secreto de bancos internacionais, clientes anônimos e, em muitos casos, crimes financeiros, que podem ter contribuído para a promoção da desigualdade social e uma série de atividades criminosas ao redor do mundo.

Por outro lado, não há nada nessa megainvestigação que envolva o setor bancário brasileiro. As dúvidas devem levar a uma queda em massa das ações do setor globalmente. Mas, nos bastidores, a leitura é de zero impacto no setor no Brasil.

Quem são os beneficiários dessas transações criminosas?

Um dos clientes que realizaram as transações identificadas pelo ICIJ é o o lobista norte-americano Paul Manafort, que comandou a campanha do presidente Donald Trump em 2016 e foi condenado por fraude bancária em agosto de 2018.

A lista tem ainda vários outros criminosos financeiros, narcotraficantes e governantes acusados de corrupção ao redor do mundo. Eles estão concentrados, principalmente, em países do leste europeu, da África, da América Latina e do Oriente Médio. A única companhia brasileira citada nos documentos é a empreiteira Odebrecht, que passa por recuperação judicial.

A Odebrecht está envolvida nessa também?

Sim! A documentação que veio à tona mostrou que o Standard Chartered Bank relatou pagamentos suspeitos de mais de US$ 187 milhões feitos de contas no Meinl Bank Antigua, com sede em Antígua e Barbuda. A filial do banco foi adquirida em 2010 por executivos da unidade de suborno da Odebrecht “exclusivamente para lavagem de fundos”. Essa informação foi prestada pelo Standard Chartered, a partir de depoimento prestado por um ex-funcionário da Odebrecht a promotores brasileiros.

Ainda de acordo com a investigação, o Deutsche Bank foi intermediário de movimentações de mais de US$ 560 milhões para a empresa entre 2010 e 2016. Para a Odebrecht, não há novidade em seu envolvimento nas denúncias. A leitura, dentro do grupo, é que as informações não trazem efeito algum para a recuperação judicial em andamento.

Será que irregularidades desse tipo também acontecem aqui?

É pouco provável. Por estas bandas, os bancos brasileiros têm a favor o fato da forte regulação de suas atividades pelo Banco Central (BC), que acompanha com “mão de ferro” o vaivém do dinheiro em todo o sistema bancário.

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Em nota enviada ao Broadcast, a Federação Brasileiros das Bancos (Febraban) disse que os bancos brasileiros estão comprometidos em aperfeiçoar seus controles internos de prevenção à lavagem de dinheiro e ao ao financiamento do terrorismo. O presidente da entidade, Isaac Sidney, ressalta que os bancos são os maiores responsáveis pelas comunicações das operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

“Em 2019, foram feitas 118,5 mil comunicações de operações suspeitas, além de 2,919 milhões de operações em espécie de valores igual ou superior a R$ 50 mil. Com o apoio dessas comunicações, em 2019, o Coaf produziu 6.272 Relatórios de Inteligência Financeira”, disse.

A legislação brasileira sobre lavagem de dinheiro é bastante severa. A regulamentação foi aperfeiçoada nos últimos anos e terá novo reforço com uma circular do BC que será publicada em 1º de outubro, mas ganhou maior tração após a Operação Lava Jato. A investigação colocou na berlinda importantes conglomerados econômicos do País, como a própria Odebrecht, a única empresa brasileira citada hoje.

Podemos esperar novos desdobramentos?

Sim. Basta recordar o que aconteceu com os Panamá Papers, investigação que apurou empresas de fachada em paraísos fiscais em 2016 e publicou outras reportagens nos anos seguintes. Ou seja: mais bancos e empresas podem ser citados.

Além disso, as cinco instituições citadas agora – JPMorgan, Deutsche Bank, Bank of New York Mellon, Standard Chartered Bank e o HSBC – têm ou tiveram operações no Brasil.

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Em 2015, durante investigações de lavagem de dinheiro, caso chamado de Swiss Leaks e reveladas também pelo ICIJ, o HSBC Brasil foi convocado para prestar esclarecimentos em Comissão Parlamentar de Inquérito a respeito de mais de 8 mil contas de brasileiros mantidas na Suíça. A CPI do HSBC foi concluída, entretanto, sem propor nenhum indiciamento.

Para um analista estrangeiro especializado em bancos, pode ser que, nos desdobramentos futuros da investigação, apareça algum banco brasileiro, mas ele considera, a princípio, improvável. “A dificuldade de mexer com esse tipo de coisa é altíssima no Brasil. Os bancos acabam preferindo perder a transação a ter o risco. Se aparecer, imagino que seria no mundo de private, que é onde as engrenagens tendem a ser mais azeitáveis”, opina. “Mas continuo achando improvável”, diz.

O mais plausível é que os efeitos atinjam o Brasil apenas de forma indireta, pelas mãos do mercado. Afinal, o aumento da volatilidade nos mercados globais também altera os preços dos ativos e os fluxos por aqui.

Com Estadão Conteúdo

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