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Mercado

Estagflação: Por que elevar a Selic não vai resolver o problema

Alberto Ajzental, professor de economia, vê ‘pior cenário’ se desenhando. Analistas discutem conjuntura

Foto: Envato Elements
  • Para Alberto Ajzental, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o País corre sério risco de entrar em estagflação
  • João Beck, economista e sócio da BRA, também vê esse risco, mas como consequência de um possível agravamento da crise hídrica
  • “Os lucros trimestrais vão cair e a Bolsa valerá menos. O potencial do Ibovespa cai e ficaremos rodando em cima de uma economia estagnada”, explica Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos

Nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne pela quinta vez no ano. Para o encontro é esperado mais um aumento de pelo menos 1 ponto percentual para a taxa Selic. Com a inflação se mostrando mais persistente do que o esperado, o Banco Central já sinalizou que pode subir os juros para um patamar acima do neutro até o fim do ano, ou seja, para um nível em que os preços serão pressionados para baixo ao custo de contrair a economia.

Entretanto, os esforços do BC podem ser insuficientes caso o País caminhe para o pior dos cenários: uma situação de estagflação. A palavra é a junção de dois monstros econômicos, a estagnação e a inflação, e acontece quando mesmo com a economia parada, os preços não param de subir. Para Alberto Ajzental, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), essa conjuntura negativa se torna, a cada dia, mais factível.

O especialista explica que a alta dos juros não age sobre os principais fatores que estão levando à alta generalizada dos preços no Brasil. “A inflação interna subiu porque as commodities subiram em dólar e porque o País é uma bagunça. Em nenhuma dessas duas situações subir a Selic vai resolver. Subir os juros não vai fazer o barril de petróleo cair lá fora e não vai fazer o dólar cair tanto (perante o real)”, explica.

Ajzental afirma que a inflação experienciada por aqui não é de demanda, situação em que faria sentido subir a Selic e fazer política monetária tradicional, já que estaríamos longe de ter uma economia aquecida. Com 14,7 milhões de desempregados, segundo o IBGE, a alta de preços estaria alimentada principalmente pela alta das commodities no exterior e pelo total descrédito do País perante o mundo.

No ano passado, de acordo com o docente da FGV, a pandemia provocou uma quebra das cadeias produtivas, o que diminuiu os estoques de commodities no mundo. Quando as reaberturas econômicas começaram, a partir dos dois últimos trimestres de 2020, os países voltaram a consumir – o que fez explodir, em dólar, principalmente os preços do petróleo, metais e proteínas. Paralelamente, o Brasil mergulhou em suas próprias crises institucionais, que afastaram os estrangeiros.

Por mais que os preços desses insumos já não estejam em suas máximas, essa trajetória de normalização deverá ser longa. “Então ficou caro para nós e, pior, diante da desorganização política, as nossas instituições estão desacreditadas. De forma geral, tem pouco investimento, está todo mundo querendo ver o que vai acontecer. E se não tem investimento, não entra dinheiro de fora, e o dólar sobe”, afirma Ajzental.

Investidores, olhem para o céu

Os riscos de estagflação aumentam, também, conforme avançam as preocupações com a crise hídrica. A falta de chuvas resulta diretamente em um aumento da energia elétrica. A partir de agosto as contas de luz já tiveram o incremento da bandeira vermelha 2, em uma tentativa de diminuir o consumo de água. A medida teve continuidade neste mês de setembro, já que os reservatórios das usinas hidrelétricas brasileiras seguem em estado crítico.

“Quando sobe um item específico, fica mais fácil de controlar”, afirma Ajzental. “Mas quando sobe energia elétrica por questão climática e o petróleo, porque o mercado lá fora está alto e a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) não está produzindo mais, a inflação está simplesmente em tudo que se faz. A energia está em tudo, o petróleo está em tudo.”

Para João Beck, economista e sócio da BRA, a crise hídrica atualmente é o único motor capaz de gerar um cenário de estagflação. “A ideia de subir a taxa de juros é justamente colocar a inflação de volta no eixo, porque conforme a Selic vai subindo, a economia vai desacelerando”, explica. “Tem poucos tipos de inflação que não voltam, que não adianta subir taxa de juros, e um deles é em uma crise hídrica. Esse tipo de crise contribui não só para desacelerar o crescimento, mas para gerar inflação.”

Em uma situação de crise hídrica, muitas indústrias param ou diminuem fortemente seu ritmo de produção e a energia fica mais cara, como já está acontecendo. “Não dá para dizer ainda qual efeito será maior, mas há a possibilidade de estagflação se a crise hídrica piorar. Todos os outros problemas que o Brasil tem atualmente (fiscal e político) podem gerar inflação, mas são coisas que o aumento da taxa de juros pode consertar”, afirma Beck. “Existe o risco, tem que ficar no radar, e o que o investidor tem que monitorar é muito simples: as chuvas.”

Segundo Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, a estagflação é algo característico de países emergentes, como o Brasil. A falta de confiança das empresas no crescimento econômico faz com que essas companhias diminuam suas capacidades produtivas, priorizem exportações, já que as moedas locais estão desvalorizadas, e até aumentem a margem em cima de cada produto – mas sem aumentar a quantidade ofertada.

Entretanto, por ora, não seria uma ameaça latente. “Essa é um dos piores cenários que podemos ter, mas não vejo esse risco agora. Quando olhamos indicadores de serviços, comércio e indústrias, temos crescimento mês após mês”, explica Franchini. “O problema é que se continuarmos não demostrando uma imagem melhor (de País), uma melhora para o ambiente de negócios e controle de gastos, ano que vem poderemos ter um viés (político) mais populista, o que resulta em uma menor confiança do setor produtivo e estagnação de contratações.”

Impactos na Bolsa

Como um reflexo da economia real, a Bolsa de Valores é impactada tanto pela crise hídrica quanto por um eventual período de estagflação. Fora os efeitos específicos no setor de energia decorridos da escassez de chuvas, com as terméletricas se beneficiando, todas as empresas são afetadas negativamente pela estagnação econômica.

“Diminuindo a produção, os contratos e os investimentos, as companhias vão vender menos. Quando olharmos os resultados trimestrais (em um cenário de estagflação), não vão ser melhores que nos períodos anteriores, vão ser iguais ou piores. E não se tem perspectivas de crescimento, porque os juros estarão altos, as empresas não vão querer tomar crédito”, afirma Franchini. “Os lucros trimestrais vão cair e a Bolsa valerá menos. O potencial do Ibovespa cai e ficaremos rodando em cima de uma economia estagnada.”

Apesar de não ter como fugir da estagnação econômica, a Bolsa de Valores é um bom meio para se proteger contra a inflação. De acordo com Beck, empresas grandes e com capacidade de repassar os preços são defensivas nessas situações. Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), assim como as companhias públicas de serviços essenciais, como de saneamento e concessões rodoviárias, são algumas delas.

“A Bolsa é, sim, uma proteção contra a inflação”, afirma Beck. “Se você pegar um gráfico da Bolsa da Venezuela ou da Argentina, países que sofreram eventos recentes de inflação, você vai ver que elas aparentemente não param de ‘subir’, mas na verdade não é ganho real, são as Bolsas sendo corrigidas pela inflação.”

Banco Central versus Caixa Econômica

Na segunda-feira (13), o presidente de Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, anunciou que iria diminuir os juros da linha de crédito imobiliário atrelado à poupança. A decisão viria na contramão do movimento feito pelo Banco Central desde o início do ano, de subir os juros e, consequentemente, desaquecer a economia.

“A Caixa vai reduzir os juros. Não tá aumentando a Selic? Então, a Caixa Econômica Federal, com um lucro que nunca teve, sem roubar, vai diminuir os juros da casa própria”, afirmou Guimarães.

Nas redes sociais, surgiu a dúvida sobre os movimentos contrastantes. Afinal, a medida da Caixa poderia forçar o BC a subir ainda mais o patamar da Selic? Para Ajzental e Franchini, apesar de na contramão do objetivo da autoridade monetária, a expansão de crédito não deve dar mais ‘dor de cabeça’ e afetar o ciclo de alta dos juros.

“Eles estão dizendo que vão queimar a parte de lucro e o presidente menciona a melhora dos resultados e em função disso, vai reduzir a taxa de financiamento. Eu nunca vi um negócio desses, meio esquisito, mas não é ruim (a atitude da Caixa), não vejo impactando a Selic”, explica Ajzental. “Existem 14 milhões de pessoas desempregadas, quem levantou o PIB foi o mercado imobiliário e a construção de forma geral. Se eles querem, através da Caixa, fomentar construção, não é ruim.”

Para Franchini, os efeitos da expansão de crédito pela Caixa também são limitados. “É na mão contrária que os bancos irão fazer. A Caixa sai na vanguarda nesse sentido”,  afirma o especialista da Monte Bravo. “Obviamente joga uma pressão no mercado financeiro brasileiro, mas não vejo impacto na Selic. É apenas uma linha de crédito, todas as outras continuarão mais caras (por conta da alta dos juros).

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