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Mercado

Felipe Miranda: “Minha grande luta pessoal é contra o populismo”

Cofundador da Empiricus fala sobre inspirações para novo livro e como vê o ‘aniversário’ de um ano com o BTG

Felipe Miranda: “Minha grande luta pessoal é contra o populismo”
Felipe Miranda reúne conselhos para o sucesso financeiro no livro "O Filho Rico". (Foto: Nelson Carneiro/Empiricus)
  • Felipe Miranda acredita que o populismo é fruto de uma má educação financeira e de economia. A luta contra o populismo é justamente uma das inspirações para o livro ‘O Filho Rico’, voltado ao público jovem
  • O cofundador e estrategista-chefe da Empiricus também traça lições sobre inteligência emocional para o sucesso. Para ele, é possível ser treinado a ter ‘sorte’, se expondo sistematicamente a riscos calculados
  • “O fracasso faz parte do processo e você tem que continuar, não se martirizar e nem deprimir tanto. Como alguém que passou por duas grandes depressões na vida [...], acho que isso é importante”, afirma Miranda

Com 37 anos de idade, Felipe Miranda já coleciona grandes feitos na vida. É cofundador e estrategista-chefe da Empiricus, uma research fundada em 2009 que ganhou o mercado de pessoas físicas com relatórios apimentados, análises diretas e um marketing agressivo.

A casa de análises lidera os portais Seu Dinheiro e Money Times e, em 2020, se uniu à gestora Vitreo para criar o grupo ‘Universa’ — adquirido pelo BTG Pactual por R$ 690 milhões em 31 de maio do ano passado. Na aquisição, também está previsto um ‘earn out’, pagamento que deverá ser feito aos sócios da Universa caso determinadas metas sejam atingidas em um período de quatro anos.

Próximo ao aniversário de um ano do negócio, Miranda faz um balanço do que significou, para ele, a aquisição da sua ‘pequena empresa’ (como ele mesmo se referiu na entrevista abaixo), que na época já detinha cerca de 425 mil assinantes. Hoje, são 450 mil.

“É muito bom você estar perto desse sócio que é muito capitalizado, muito robusto do ponto de vista reputacional, de balanço, de tecnologia e com grande acesso ao mercado”, afirma Miranda. “Temos estado bastante alinhados com as metas, mas aqui somos empreendedores mesmo sem essa perspectiva de captar dinheiro dos outros.”

O êxito nos negócios, entretanto, está longe de deslumbrar o cofundador da Empiricus. As aspirações de Miranda vão muito além das métricas financeiras. No mês passado, o empresário lançou em parceria com o jornalista Ricardo Mioto o livro ‘O Filho Rico’, em que mais do que reunir conselhos para uma vida mais rica, busca propiciar momentos importantes entre pais e filhos e ser um agente de transformação da sociedade.

Entre as principais motivações para falar ao público jovem, está a luta contra um grande mal ao Brasil, na visão de Miranda: o populismo.

“Se as pessoas entendessem como o populismo faz mal para o desenvolvimento de um país em médio e longo prazo, elas não votariam em populistas”, diz. “’O Filho Rico’ é um livro que tem uma grande esperança, uma esperança platônica, talvez, de que a gente poderia mudar um país por meio de uma boa educação financeira e de economia na base.”

Miranda, que já enfrentou duas grandes depressões na vida, mesmo à frente de um negócio bem-sucedido, também faz questão de ensinar aos seus filhos sobre o encontro da verdadeira felicidade e como lidar com êxitos e fracassos.

“Você não é tão bom quanto o ano que você foi um herói e nem tão ruim quanto o ano que você foi o fracasso. O fracasso faz parte do processo e você tem que continuar”, afirma. “A felicidade é intrínseca, está dentro de você. Claro que condições materiais ajudam nisso, mas a partir de um determinado nível só.”

Leia a entrevista completa:

E-Investidor – Nesse mês completa um ano desde que o BTG comprou a Empiricus. O que essa fase representou para a research no mercado?

Felipe Miranda – Primeiro preciso fazer um disclosure aqui. Vou falar pela ‘minha’ ótica em relação a esse deal (acordo). O BTG é uma empresa gigantesca e eu sou uma pequena parte dessa enorme instituição. Não estou falando em nome do BTG, estou falando em nome da minha pequena empresa e as perspectivas que eu tenho junto com os meus sócios.

Hoje, uma das coisas que eu tenho convicção é do grande acerto que tivemos na escolha do sócio. Essa é a principal questão estrutural. Nós tínhamos certas premissas para optar por esse deal, que têm se confirmado e até superado nossas expectativas. Essas premissas eram, primeiro, uma admiração pessoal muito grande por alguns dos sócios do BTG. Os principais deles, claro, a figura do André Esteves, Roberto Sallouti e Marcelo Flora.

Existia um respeito e admiração genuínas por eles e à franchising (franquia) BTG que, desde então, vem se mostrando esse ‘all weather stock’ (ação que resiste a qualquer conjuntura econômica). O último balanço confirmou isso, que o BTG é uma companhia que pode transitar até mesmo em tempos mais difíceis de mercado, apresentando resultado trimestral recorde, quando a outra parte da indústria começa a sofrer.

É muito bom você estar perto desse sócio que é muito capitalizado, muito robusto do ponto de vista reputacional, de balanço, de tecnologia e com grande acesso ao mercado. Ter um parceiro muito forte e, no meu entendimento, o melhor do Brasil para atravessar um momento como esse, tenho certeza que foi muito bom.

Além disso, estarmos perto e termos essa troca de experiências com gente desse nível é uma sinergia de dia a dia muito grande.

O número de assinantes Empiricus cresceu com a combinação dos negócios?

Miranda – Nós temos uma perspectiva muito científica das afirmações. Eu não consigo observar se (o crescimento) foi por conta disso. Temos que tomar cuidado com a falácia lógica ‘post hoc propter hoc’ (dedução de causalidade entre eventos que ocorrem em sequência). Não é porque foi depois do BTG, que foi por conta do BTG. São coisas que não necessariamente estão ligadas.

O que a gente observou, sim, foi um aumento do número de assinantes ao longo do último ano. Acho que a combinação com o BTG foi uma dentre os catalisadores para essa dinâmica, mas certamente o crescimento também é fruto de um trabalho muito dedicado e muito profundo que vem sendo feito de depuração, nesse período pós financial deepening — aquela grande migração das pessoas para a Bolsa de valores.

Quando a Bolsa subiu, todo mundo parecia que fazia um bom trabalho do ponto de vista de research. Quanto mais o tempo vai passando, isso vai depurando e deixando evidente o que é um aventureiro e o que é uma empresa séria, com 40 analistas, 13 anos de mercado, dedicação todo dia, com pessoas com perfil bastante técnico. Então também tem esse outro efeito, que é o próprio trabalho que vem sendo bem feito no dia a dia.

Crescer assinantes é uma tendência nossa de longo prazo. Acho que o BTG acelera isso ao emprestar todas essas coisas que eu comentei com você na primeira resposta, mas é difícil medir quanto é o efeito BTG nesse processo. São várias forças atuando no resultado final, mas não tenho dúvida que é uma das alavancas para o crescimento. Hoje são 450 mil assinantes.

Na época do negócio muitos especialistas falaram do earn out que seria ganho pela Empiricus com o batimento de metas operacionais e financeiras. Quais eram as principais metas e como está essa busca pelo earn out?

Miranda – Nós não damos essa informação para o mercado, porque é uma companhia aberta e são métricas basicamente associadas ao crescimento do negócio. Então você deve imaginar que de um lado é crescimento da Empiricus e de outro lado, o crescimento da Vitreo. As metas estão relacionadas a isso.

Temos estado bastante alinhados com as metas e conseguido entregar tudo, mas aqui somos empreendedores mesmo sem essa perspectiva de captar dinheiro dos outros, sem power point, sem andar descalço, sem piscina de bolinha.

Sabíamos das dificuldades e estamos todos os dias trabalhando e perseguindo obstinadamente essas metas. Por enquanto, estamos no caminho. Claro que a velocidade disso é acelerada e refreada a partir da dinâmica de mercado. Não é um mercado propriamente fácil. Temos muita volatilidade, inflação, baixo crescimento, taxas de juros subindo, queda das bolsas americanas, queda do dólar, a bolsa brasileira errática.

Tudo isso acaba dificultando um pouco corrermos rápido com essas metas, mas sempre vimos essa questão com muita humildade, muita barriga no balcão e estamos aqui para o longo prazo. Estamos muito confiantes que, a partir de uma ética de trabalho de muita humildade empresarial, conseguiremos atingir essas metas.

Na sua visão, o que diferencia a Empiricus de outros researchs?

Miranda – Se você ver, é a única plataforma de varejo que é orientada pelo research. Ou seja, por um analista. Não é um vendedor que fala com o cliente ou um agente autônomo, é um analista que conversa com o cliente. Muda a relação quando quem está conversando com você é um especialista em investimentos, não um especialista em vendas.

Somos uma plataforma realmente desintermediada. Sem a figura do agente autônomo, você consegue se apropriar dessa margem (que seria paga aos AAIs) e transferir esse resultado que seria para o AAI, para o próprio cliente.

Então uma plataforma que é o maior research do Brasil, barata e com todo apoio do grupo BTG por perto. Essa plataforma é realmente única e temos que crescer essa história, levar esses benefícios para os clientes, com essa nossa perspectiva de uma plataforma voltada ao varejo. É bem diferente quando se tem essa cabeça.

Em uma plataforma voltada ao varejo, você tem fundos que as vezes não seriam naturais de se observar em uma asset mais institucional. Na Vitreo você irá ver fundos de NFTs, fundos de cannabis, de urânio, coisas que são feitas voltadas para o interesse da pessoa física em um tema específico.

Você quer participar da transição energética e investir em crédito de carbono? A Vitreo te dá essa alternativa. Gosta do tema metaverso? A Vitreo tem essa opção. Tem muita coisa sendo copiada por outras plataformas, mas a Vitreo tem muita essa vertente de ser muito pioneira e muito inovadora nesses pontos temáticos.

Na época do negócio, você chegou a declarar que a proposta do BTG não entregou a melhor oferta em termos de valuation. Qual a avaliação que você faz sobre o negócio hoje, depois de ver os resultados?

Miranda – Certamente, se ali nós já estávamos muito convencidos de que foi a escolha correta, agora a história comprovou isso. A própria trajetória do banco nesse momento mostra que há outros players sofrendo bastante, inclusive com as ações muito castigadas, e o banco (BTG) apresentou resultado trimestral recorde.

A escolha do parceiro foi muito correta. E toda aquela perspectiva de fora que nós tínhamos, de que as pessoas eram muito competentes, de que teríamos acesso à tecnologia e ao capital quando necessário, tudo foi muito corroborado na prática. Obviamente com as devidas métricas, não irão entregar capital para fazer bobagem.

O que era uma hipótese, estamos vendo na prática. Tenho certeza que a escolha foi muito adequada, sem termos optado por caminhos ‘sonháticos’, de querer valuations nadabescos para maximizar uma saída de curto prazo ou caminhar para um IPO porque a janela estava aberta.

Sabíamos exatamente quais eram as nossas vantagens, as nossas adversidades, o que o BTG poderia agregar. Foi um caminho pés no chão e muito correto conosco, com eles e com nossos assinantes e investidores.

Você acabou de lançar o ‘O Filho Rico’, uma continuação do seu livro anterior e voltada para os jovens. De onde veio a motivação para falar com este público?

Miranda – É uma série de fatores. Vou começar pelo menos bonito da história, mas que tem um peso prático: o Princípios do Estrategista, que é o livro anterior, foi uma publicação muito elogiada e a gente sentia que tinha que levar essa mensagem para mais pessoas.

O Princípios do Estrategista era, em alguma instância, uma homenagem, uma referência, ao livro Princípios, do Ray Dalio (lendário investidor, fundador de Bridgewater Associates). A ideia original vem do Ricardo Mioto (jornalista, editor-chefe da Editora Intrínseca), e preciso dar esse mérito para ele. Ele disse para mim “você precisa fazer o que o Ray Dalio fez, de sintetizar os seus princípios de vida e investimentos em uma única obra”.

Logo, esse primeiro livro tem o objetivo de sintetizar tudo que eu pensei, tudo que eu aprendi, tudo que eu aplico no meu dia a dia, em um livro de 200 e poucas páginas. Não é um livro tão popular quanto os outros de finanças pessoais porque é um livro técnico, mas foi muito elogiado.

E o próprio Ray Dalio, depois que escreveu Princípios, fez a versão para crianças também. Então foi um pouco seguir essa trilha.

Além disso, quais foram suas motivações pessoais?

Miranda – A segunda motivação é que eu tenho uma preocupação muito grande, do ponto de vista pessoal, com a educação de base. Eu tive o privilégio de ter tido uma educação de base em finanças também, mas não só isso, e do meu pai ter sido meu grande coach.

Eu achava que seria da minha responsabilidade ser um grande coach também dos meus filhos. Infelizmente, mesmo meu pai sendo um grande coach, ele tomou um grande tombo financeiro e fez com que a gente atravessasse um período de muito sofrimento, não só financeiro, mas familiar também.

Então eu queria que meus filhos evitassem essa trajetória. E uma vez transferindo isso para os meus filhos, eu achava que seria razoável que não só os meus filhos ouvissem aquilo, mas todos os filhos. Essa experiência de você ensinar o seu filho sobre finanças é valiosa não só do ponto de vista material, mas também é uma experiência rica de ler um livro com o seu filho.

Tem uma terceira vertente, que é não só a crença de que os pais devem educar seus filhos na perspectiva financeira, mas também é um livro que é oportuno no momento. A minha grande luta pessoal é contra o populismo. Nesse ano nós enfrentamos, no meu entendimento, o choque de dois populismos: um à direita e outro à esquerda no Brasil.

O livro tem essa representatividade. Isto é, o populismo é fruto da má educação em finanças e economia das pessoas. Se as pessoas entendessem como o populismo faz mal para o desenvolvimento de um país em médio e longo prazo, elas não votariam em populistas.

Quais tipos de ‘discursos’ são populistas, mas as pessoas não percebem que são?

Miranda – Quando você fala que gosta de gasto público e não gosta de inflação, significa que você não está entendendo que esses dois fatores são a mesma coisa. Um governante que gasta muito sem responsabilidade fiscal, ele te transfere renda, evita uma queda de PIB no curto prazo e deixa uma herança maldita de dívida e necessidade de emitir moeda para o seu sucessor.

Ou seja, o gasto público de hoje é a inflação de amanhã. Logo, você não pode gostar dessas duas coisas ao mesmo tempo: baixa inflação e alto gasto público. Se as pessoas entendessem a dinâmica macroeconômica, de fluxos intertemporais, estariam mais bem educadas e provavelmente não votariam nos populistas de plantão.

Então, ‘O Filho Rico’ é um livro que tem uma grande esperança, uma esperança platônica, talvez, de que a gente poderia mudar um país por meio de uma boa educação financeira e de economia na base.

Vocês veem chances de uma terceira via ainda se consolidar?

Miranda – É muito ruim fazer esse tipo de análise porque, por mais que sejamos treinados a evitar os nossos próprios vieses, é inevitável. Temos uma tendência de sempre extrapolar para frente o cenário que estamos vendo hoje.

Hoje, o cenário de terceira via me parece de baixíssima probabilidade, para não dizer desprezível. Me parece hoje que a eleição será de fato muitíssimo disputada entre Lula e Bolsonaro. Quer dizer que será o quadro na véspera da eleição? Não necessariamente.

Uma das coisas que deveríamos ter aprendido, olhando resultados de eleições no mundo inteiro, é que essas coisas mudam muito rápido. Analisando o cenário atual, tende a ser uma eleição muito polarizada, mas não quer dizer que essa perspectiva seja estática. Muita coisa acontece, surpresas acontecem, aviões caem, à exemplo de Eduardo Campos, facadas acontecem, vide o que aconteceu com nosso presidente, decisões do STF acontecem, seja para prender ou soltar um futuro candidato.

Nós que somos muito treinados nos ‘cisnes negros’, acho difícil cravar resultado eleitoral há quatro, cinco meses antes. Sendo que é possível fazer um candidato ser conhecido em duas semanas por meio das redes sociais, whats apps, fake news e etc. É prematuro pensar em cravar resultado de eleição nesse momento. Muita água passará embaixo da ponte, embora pareça hoje muito improvável uma terceira via.

Agora, cenários improváveis acontecem. Existe ignorância objetiva no futuro. Temos que ter humildade para reconhecermos nossa ignorância sobre o futuro, essa é uma das lições do livro, inclusive.

Quais as lições que você não recebeu do seu pai, mas pratica com os seus filhos hoje?

Miranda – Eu recebi várias lições importantes, como da ética do trabalho, da persistência, da obrigação antes da diversão. Mas o que eu acho que talvez tenha faltado é um pouco do reconhecimento da aleatoriedade como um fator muito importante no mundo, e da necessidade de nos expormos a essa aleatoriedade de forma sistemática.

Isso eu só fui conhecer lendo Taleb (Nassim Nicholas Taleb, analista de risco) e isso bate muito em mim porque é algo que eu já tinha comigo. Os grandes livros que a gente gosta são coisas que a gente de algum modo já pensava, mas não conseguia estruturar esse raciocínio de forma muito bem definida.

Eu tenho uma configuração introspectiva e a vida me forçou a essa posição de redes sociais, de ter uma postura extrovertida. Só foi a partir dessa exposição, que foi muito sofrida para mim, e é sofrida até hoje, que várias coisas aconteceram.

Acredito que dá para você ser treinado a ter sorte. Parece uma bobagem porque a sorte é aleatória, mas o que eu quero dizer é que essa exposição sistemática a as possibilidades de retornos assimétricos ampliam as possibilidades de se ter sorte.

Você vai ter sorte tentando 100 coisas diferentes, alguma hora você irá acertar. Você só precisa dar certo uma vez na vida. Se conseguir cinco vezes, melhor, mas uma vez já basta. É essa exposição sistemática a retornos favoravelmente assimétricos. Tentar muitas coisas cujas falhas não vão te machucar tanto, mas um acerto vai te fazer mudar de patamar. Tentar muito para errar pequeno e acertar grande.

Estar sempre exposto a potenciais cisnes negros positivos é algo que tento ensinar para os meus filhos no dia a dia e que faltou na minha formação.

E uma outra é não levar tão a sério tanto o sucesso quanto o fracasso. Como a aleatoriedade tem um peso grande nas coisas, quando você tiver no ‘alto’ precisa saber que aquilo é uma condição circunstancial – fruto, sim, de sua competência e tentativa – mas fruto também de alguma circunstância aleatória que te permitiu estar naquela posição.

Você não é tão bom quanto o ano que você foi um herói e nem tão ruim quanto o ano que você foi o fracasso. O fracasso faz parte do processo e você tem que continuar, não se martirizar e deprimir tanto. Como alguém que passou por duas grandes depressões na vida por conta de fracassos e situações que não ocorrem conforme o esperado, acho que isso é importante.

Não se deslumbrar com o sucesso e nem com o fracasso, e sempre ter uma humildade intelectual perante a vida, ter uma curiosidade persistente e capacidade de adaptação.

Poderia contar sobre essas duas depressões?

Miranda – Eu acredito que a saúde mental é um tema que não é levado com a seriedade que ela merece. Tem muito preconceito sobre isso e acho que as empresas, as famílias, deveriam levar o assunto com uma perspectiva mais aberta, científica e profunda, porque é seríssimo.

No meu caso, tive duas depressões. Uma catalisada pelo que Freud definiu nos seus escritos como o ‘fracasso dos que triunfam’. Eu tinha uma série de problemas para resolver na minha vida, que era ter um filho não planejado, minha mãe estava em depressão, meu pai tinha acabado de morrer, eu herdei R$ 90 mil de dívidas do meu pai, eu tinha 25 anos e tinha que resolver tudo aquilo sendo filho único e cuidando de 10 pessoas à minha volta.

De repente a Empiricus cresceu, as coisas deram certo, nós viramos um ‘sucesso’. E eu percebi que não mudou nada do ponto de vista antológico. A felicidade é intrínseca, está dentro de você. Claro que condições materiais ajudam nisso, mas a partir de um determinado nível só. Eu gosto muito da frase do William Shakespeare que é “eu poderia viver recluso em uma casca de noz e, ainda assim, me considerar rei do espaço infinito”.

Isso significa que podemos estar em um pequeno lugar, mas as grandes questões antológicas são internas. Quando percebi que eu conquistei tudo que eu queria conquistar e nada tinha mudado do ponto de vista antológico, eu caí. Essa foi a primeira depressão.

A segunda foi muito associada ao término do meu primeiro casamento. Era uma pessoa que eu amava profundamente, mas eu percebi que não iríamos mais conseguir ficar juntos. Como que você rompe algo com uma pessoa que você ama tanto? Então ali catalisou um segundo processo depressivo importante.

Falando de mercado, como você avalia o momento que a bolsa brasileira vive hoje?

Miranda – É um momento muito complexo. Para onde você olha, vemos importantes fatores de risco. No oriente, temos a China com os lockdowns em 40% do país em uma política de covid zero, ou seja, quer levar os casos a zero enquanto o ocidente convive com a pandemia.

A China, portanto, opta por não conviver. Mas como você não convive (com o vírus) diante de uma variante ômicron que é super transmissível? Vai ter que jogar o país em um fechamento tremendo. Eles se amarraram a esse problema. Isso é um fator de risco muito importante.

Aí olhamos para a Europa, que está literalmente em guerra e diante de uma crise energética, com o petróleo subindo e o euro se enfraquecendo. Problemático também.

Os EUA, grande referência global, está com uma taxa de inflação persistentemente alta. É uma inflação que ninguém sabe direito qual a natureza dela, o quanto ela é de oferta, porque as cadeias globais continuam desorganizadas, e o quanto ela é de demanda, porque realmente foi estimulado demais a economia.

Aí os juros são obrigados a subir. Ninguém sabe onde para essa história para domar essa situação. Até porque se ninguém entende a inflação, ninguém vai entender como domá-la. É uma grande surpresa o nível e a persistência da inflação.

É um cenário muito delicado com eleição aqui dentro, polarizada como falamos, e crescimento econômico que embora tenha surpreendido para cima nesse primeiro trimestre, para frente é um crescimento econômico baixo. Principalmente se você considerar a defasagem da política monetária.

Com um juro de 13,25% parece improvável que a economia não vá sofrer. Então o cenário é ruim.

Mas é um momento de oportunidade ou de realmente não tomar risco?

Miranda – O cenário para a bolsa, para ativos e risco, é ruim. Por outro lado, todo mundo sabe disso. O que eu quero dizer: quando os riscos são mapeados e são percebidos, o mercado incorpora aos preços. Está todo mundo negativo com bolsa, todo mundo é berish, todo mundo em um cenário de pessimismo extremo. O valuation do Ibovespa hoje é 7x lucro, um nível que não vimos nem na era Dilma, quando era a maior recessão da história brasileira.

O que medimos também é o excesso de retorno esperado da bolsa sobre a renda fixa – e esse cara está na máxima histórica também. Então, estamos vendo uma bolsa muito barata. O cenário é desafiador, é muito ruim, mas é um cenário de preços muito atraentes.

O que eu acho: teremos um curtíssimo prazo ainda muito difícil, de altas de taxas de juros no âmbito global, de ajuste nos valuations globais para baixo. Porém, todas as vezes que observamos valuations tão baratos de bolsa brasileira, vimos uma grande performance lá na frente.

Para médio e longo prazo tenho uma grande convicção que essa é uma zona compradora de bolsa. Em uma perspectiva de trading é um cenário muito difícil. Em uma perspectiva de investidor, que é o que somos, acho que é uma zona compradora de bolsa. Com uma ciência, claro, que no curto prazo será difícil, mas com convicção que tem coisas muito, muito baratas, podendo se multiplicar por duas ou três vezes no horizonte de 18 a 24 meses.

O que são essas opções ‘muito baratas’?

Miranda – Ainda com uma inspiração Talebiana aqui, que é uma estratégia em bolsa chamada ‘barbell’. Barbell é aquela barra de supino que você não tem nada no meio e dois pesos em cada uma das pontas. Em uma das pontas, a gente vê oportunidades em bancos e commodities. Caras que, em linhas gerais, se beneficiam em um cenário inflacionário de altas taxas de juros. Então você vê hoje Gerdau negociando a duas vezes a sua geração operacional de caixa, o que eu acho muito barato. Você vê o Banco do Brasil negociando a 4x o lucro, um BTG negociando a 10x  o lucro, coisas que acho muito atraentes.

No outro extremo você tem apostas mais arriscadas, mas que estão muitíssimo amassadas por toda essa adversidade que conversamos. Aqui precisa de um pouco mais de paciência, alocar menos capital porque tem mais risco e saber que a coisa pode continuar difícil no curto prazo e você vai ter que dilatar seu horizonte temporal, mas que são small e mid caps que foram dizimadas durante a crise. Poderia citar as ações da Mitre, incorporada que vale o preço dos terrenos dela na bolsa, sem considerar estoque de apartamentos e recebíveis. Só os terrenos valem os R$ 500 milhões que ela está na Bolsa.

Poderia citar a WDC Networks, livetech da Bahia que vale em Bolsa menos que os recebíveis que ela tem contratado. Posso citar Marisa, que você está comprando a um valuation muito barato, a 4x a geração de caixa, em níveis que eu raramente vi na minha vida. Então esse barbell é uma boa estratégia para o momento: um bom peso em bancos e commodities e algum peso em small caps muitíssimo baratas, mas que carregam um pouco mais de risco ao mesmo tempo.

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