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Mercado

Gringos intensificam saída da B3 em maio. Entenda o movimento

Neste mês, o saldo de investimento estrangeiro está negativo em R$ 8,8 bi, superando o acumulado de abril

Gringos intensificam saída da B3 em maio. Entenda o movimento
Subida dos treasuries estimula retirada de capital de mercados emergentes. Foto: Pixabay
  • Após um abril em que os investidores estrangeiros retiraram R$ 7,7 bilhões da B3, o primeiro saldo negativo mensal do ano, a saída dos gringos parece se intensificar em maio
  • Somente na primeira semana deste mês, o saldo de investimento estrangeiro ficou negativo em R$ 8,8 bilhões. Ou seja: em cinco dias, o montante superou as retiradas observadas durante todo o mês de abril
  • Ainda que entre abril e 6 de maio as saídas tenham sido expressivas, no acumulado do ano o saldo de investimento estrangeiro total segue positivo em R$ 51,9 bilhões, segundo a B3

Após um abril em que os investidores estrangeiros retiraram R$ 7,7 bilhões da B3, o primeiro saldo negativo mensal do ano, a saída dos gringos parece se intensificar em maio. Somente na primeira semana deste mês (2 a 6 de maio; último dado disponibilizado pela B3), o saldo de investimento estrangeiro ficou negativo em R$ 8,8 bilhões.

Ou seja: em cinco dias, o montante superou as retiradas observadas durante todo o mês de abril. Essa nova dinâmica joga um balde de água fria no Ibovespa, que em maio acumula uma baixa de 4,42% até o fechamento da última terça-feira (10), aos 103.109,94 mil pontos. Em abril, a desvalorização foi de 10,1%.

Na prática, o principal índice de ações da B3 já devolveu todos os ganhos de 2022. O cenário atual é bem diferente do ‘céu de brigadeiro’ enfrentado no 1° trimestre do ano, quando o forte fluxo estrangeiro, de R$ 68,4 bilhões entre janeiro e março, deu suporte para que o Ibov valorizasse 14,4%.

Ainda que entre abril e 6 de maio as saídas tenham sido expressivas, no acumulado do ano o saldo de investimento estrangeiro total segue positivo em R$ 51,9 bilhões, segundo a B3.

Bruno Madruga, sócio e Head de Renda Variável da Monte Bravo Investimentos, ressalta que grande parte do capital estrangeiro recebido em 2022 ainda está no Brasil. “Muito provavelmente o que está saindo é o que chamamos de ‘smart money’, que fica circulando nos mercados de risco (países emergentes). Provavelmente é esse capital voltando para os EUA, para ativos mais ‘seguros’”, diz Madruga.

O principal motivo para a reviravolta é o aumento de juros nos Estados Unidos, na tentativa de conter a inflação por lá. O Federal Reserve (Fed), banco central americano, realizou um aumento da taxa básica em 0,5 ponto percentual. Com o ajuste feito na última ‘super’ quarta (4), o juro americano passa para a banda entre 0,75% e 1% ao ano.

Dessa forma, o mercado brasileiro, que vinha atrativo em função da alta das commodities, começa a perder tração frente ao aumento dos prêmios nos treasuries – títulos do tesouro americano. “EUA estão subindo juros para conter a inflação. Isso faz com que todas as economias ao redor tenham que fazer o mesmo. Assim, o Brasil deixa de ser atrativo e o risco/retorno deixa de compensar para investidores estrangeiros com as instabilidades políticas e deterioração fiscal”, afirma Fabio Louzada, economista, analista CNPI e fundador e CEO da escola Eu me banco.

Os severos lockdowns na China também preocupam os investidores. O temor é de que as medidas da política de ‘covid zero’ adotadas pelo governo desacelerem a economia chinesa. Uma retração de crescimento no tigre asiático teria impacto direto na demanda por commodities, principalmente o minério de ferro, além de afetar a retomada econômica global.

Xi Jinping já anunciou estímulos ao país, mas o medo persiste, dada a relevância dos chineses para o cenário mundial. No Brasil, a mineradora Vale (VALE3), por exemplo, tem peso de mais de 15% no Ibovespa. A empresa também tem a China como um dos principais destinos de exportação, portanto é bastante sensível aos acontecimentos por lá.

O terceiro fator de incerteza é a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, cuja duração já ultrapassa dois meses. “Esses fatores geram um ambiente de incerteza global, e nesse cenário, os países emergentes tendem a sofrer mais’, afirma Louzada. “Além disso, aqui no Brasil, dois fatores tiram o sono dos estrangeiros (e dos brasileiros): eleições, que geram instabilidade política, e endividamento do país, que pode se agravar em ano eleitoral.”

Já Marcelo Oliveira, CFA e fundador da Quantzed, empresa de tecnologia e educação financeira para investidores, não vê os problemas internos do Brasil como um fator que afasta o gringo. Para ele, as incertezas externas quanto à guerra, covid e restrições na China pesam muito mais. Parte do movimento de saída seria também uma realização de lucros.

“O gringo está, sim, tirando dinheiro do Brasil agora porque temos um cenário volátil no mundo todo em que (os países) tiveram perdas também. É uma maneira de preservar lucro. Leva o dinheiro para fora, volta para portfólio lá fora e espera uma nova oportunidade”, diz Oliveira.

Essa também é a visão de Luiz Adriano Martinez, portfólio manager da Kilima Asset. A saída de ativos de risco, segundo ele, não ficou restrita ao Brasil. Com os títulos do tesouro americano com vencimentos para mais de 5 anos pagando acima de 3%, os investidores de todo o mundo já podem vislumbrar um juro real no médio prazo. E um juro real nos títulos mais seguros do mundo.

“O juro real de curto prazo é negativo por conta de uma inflação corrente muito alta, mas esses 3% de juro pago conseguirá ser positivo, considerando a meta de inflação do Fed de 2% a 2,5%. Quando isso acontece, o dinheiro acaba sendo tirado de ativos de risco e voltando para os EUA. E ninguém sabe onde vai parar essa alta de juros nos EUA”, afirma Martinez.

O direcionamento para os juros americanos dependerá do avanço da inflação daqui para frente. Enquanto não há sinais claros ou com dados muito negativos, o movimento de aversão a risco deve continuar. “A saída não é restrita ao Brasil, é uma coisa relativamente normal dada a abertura das treasuries”, diz o portfólio manager da Kilima Asset.

Para onde vai esse dinheiro?

De acordo com Louzada, um dos destinos certos é a China. As dúvidas sobre o futuro do gigante asiático, face ao novo surto de covid-19, pressionou o preço dos ativos chineses. A Bolsa de Xangai acumula baixa de 16,42% no ano até terça-feira (10). Esse desconto nos papéis acaba atraindo parte dos investidores que saíram do Brasil.

“Porém, o cenário ainda é incerto. Por isso, além de China, os investidores têm buscado correr para ativos mais seguros, como o dólar, além de enviarem os seus recursos para países mais desenvolvidos. Nesse cenário, o investidor tende a correr de emergentes”, afirma Louzada.

Oliveira, da Quantzed, já não vê o mercado chinês com tanto magnetismo. O especialista se baseia no relatório do Bank Of America (BofA), chamado ‘Flow Show’, que mostra o fluxo de capital dos clientes do banco. É importante destacar que o BofA possui quase US$ 3 trilhões sob gestão.

No Flow Show publicado em 29 de abril, grande parte do capital movimentado semanalmente pelos clientes do banco no mês estava indo para caixa (US$ 60 bilhões, maior entrada desde outubro de 2021), além de títulos de dívida (US$ 6,7 bilhões) e um percentual menor para equities (US$ 1,2 bilhões).

No último relatório, publicado em 5 de maio, a tendência continuava. Os maiores montantes seguiram direcionados para caixa (US$ 14 bilhões) e títulos de dívida (US$ 9,1 bilhões).

“Vejo que o mundo está saindo de ativos de risco por conta da possibilidade iminente de o Fed subir muito mais os juros. Com isso, os ativos de risco performarão mal, por estarem extremamente caros frente a uma taxa de juros de 3,5% a 4% nos EUA, que é o que está sendo esperado”, afirma Oliveira.

Madruga, da Monte Bravo, vê também uma fração desse dinheiro indo para a renda fixa brasileira, principalmente para títulos públicos. Para ele, o Brasil está sendo um grande exportador de ‘juro real’, uma vez que a Selic projetada para 2022 no Boletim Focus é de 13,25%, enquanto a inflação medida pelo IPCA deve ficar em 7,89%.

Para um prazo mais longo, em 2025, as expectativas são de Selic a 7% e inflação em 3%. “Pela diminuição do preço das commodities, em função dos lockdowns da China, vemos saída de capital especialmente no setor de siderurgia e mineração. Este migra para outras posições, até mesmo fora do Brasil”, afirma. “Mas o grande capital recebido no Brasil permanece por aqui, em um saldo ainda bastante positivo”, afirma.

 

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