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Mercado

Os cenários que podem limitar a alta do Ibovespa no 4º trimestre

Bolsa deve sofrer com volatilidade até o fim de 2020. Veja a projeção dos analistas

Por Thiago Lasco

02/10/2020 | 8:33 Atualização: 03/12/2020 | 11:15

Foto: Amanda Perobelli/Reuters
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Neste ano em que tudo de mais improvável tem acontecido, o índice Bovespa tem desenhado uma trajetória cheia de reviravoltas, com tombos dramáticos, recuperações e inversões de rota inesperadas. E os analistas de renda variável ouvidos pelo E-Investidor já avisam: as emoções devem continuar no quarto trimestre.

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Depois de um pontapé inicial aos 118.573 pontos, registrados no primeiro pregão do ano, e expectativa de bater a marca recorde de 140 mil até o fim de 2020, o Ibovespa sofreu um choque de curtíssimo prazo em março. A pandemia de covid-19 entrou em cena e provocou um tombo de 29,9% sobre fevereiro e 36,86% no ano, fazendo o índice fechar o mês em 73.019 pontos.

Os quatro meses seguintes foram de recuperação, com altas entre 8,27% e 10,25%. A economia sofreu um baque menos profundo que o imaginado nas previsões mais pessimistas do início da pandemia e os ares de otimismo contaminaram a Bolsa de maneira positiva. No dia 10 de julho, o Ibovespa retomou o patamar dos 100 mil pontos e acendeu uma expectativa positiva no mercado, que passou a projetar a recuperação do índice na casa dos 110 e 115 mil pontos até o fim deste ano.

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“O apetite a risco cresceu e foi impulsionado pelos juros baixos a nível global. Os investidores viram que os ativos com preços despencando eram boas oportunidades”, lembra a economista Paloma Brum, da Toro Investimentos.

Por que a Bolsa passou a cair

O otimismo durou até julho. Agosto chegou com um movimento intenso de realização de lucros nas bolsas americanas, que se espalhou para os demais mercados. Os investidores constataram que os ativos estavam sobrevalorizados. Afinal, apesar dos dados econômicos mais positivos, a economia real não estava tão adiantada como o mercado de ações. “O investidor aproveitou a recuperação rápida dos preços para vender as ações e colocar o lucro no bolso”, diz Brum.

O Brasil acompanhou esse movimento externo de realização, mas aqui ele foi agravado por um fator adicional: a preocupação com a questão fiscal começou a pesar. Nesse ambiente de aversão ao risco, o dólar disparou, o investidor começou a se desfazer de posições e, mesmo quando os índices voltaram a ficar positivos lá fora, o Ibovespa continuou caindo, com perda de 3,44% em agosto.

Setembro não ajudou muito. Para dar continuidade ao socorro financeiro iniciado com o auxílio emergencial, o governo Bolsonaro cogitou criar um programa social, o Renda Cidadã, que seria financiado com recursos do fundo para a educação básica (Fundeb) e de precatórios, o que desagradou o mercado. O índice recuou mais 4,80%.

“A grande incógnita é a questão fiscal, que está sendo endereçada pelo governo em ritmo muito lento. O Renda Cidadã se tornaria uma despesa permanente, em um momento de endividamento já elevado”, explica a economista da Toro.

Não dá para fugir da questão fiscal

Para Ricardo França, analista da Ágora Investimentos, o que mais pesa nas perspectivas para o quarto trimestre é a evolução do quadro fiscal do País: como o novo programa de transferência de renda será encaixado no orçamento e se a equipe econômica conseguirá respeitar o teto de gastos em 2021.

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“Isso pesa não só na Bolsa, mas também na forte inclinação da curva de juros, que já precifica uma piora do quadro fiscal”, diz.

Paloma Brum ressalta que a relação entre a crescente dívida líquida e o PIB é um dado importante para que o investidor estrangeiro empreste dinheiro ao País, comprando títulos do governo.

“Se a dívida só cresce e o governo gasta mais que arrecada, o risco é maior e o investidor vai exigir um prêmio cada vez maior para emprestar. A curva de juros empina e, com juros maiores, o governo terá de elevar a taxa básica Selic antes do esperado, já no início de 2021″, afirma.

Para Marcel Zambello, analista da Necton Investimentos, a elevação da taxa básica de juros pode vir ainda neste ano e em mais de uma dose. “O IPA subiu cerca de 12%. Se essa alta for repassada para o índice de preços ao consumidor, a Selic pode ter até dois aumentos ainda em 2020, entre 0,25 e 0,5 ponto percentual. Com juros mais altos, o custo de captação das companhias fica maior e elas valem menos.”

A sucessão presidencial nos Estados Unidos

A campanha para a presidência dos Estados Unidos promete alimentar o cenário mundial com mais volatilidade até seu desfecho, em novembro. E a incerteza se prolongará caso Donald Trump perca e impugne o resultado, levando a uma recontagem de votos. “Joe Biden está na frente de Trump e tem mais chances de ser eleito. Isso também causa estresse ao mercado”, diz Zambello.

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O candidato democrata já externou que pretende adotar uma política econômica expansionista, e para elevar gastos públicos terá de aumentar a carga de impostos sobre as empresas. “Uma empresa que paga mais impostos investe menos, contrata menos, demanda menos. Por isso a vantagem de Biden sobre Trump gera volatilidade no mercado”, explica Brum.

O coronavírus não saiu de cena

Outro fator que está no radar dos analistas é o coronavírus. Para Zambello, a ocorrência de uma segunda onda de contágio na Europa parece cada vez mais concreta, e traz embutida a ameaça de um novo lockdown. “A tendência é que essa segunda onda também atinja EUA e Brasil”, prevê o analista.

Paloma Brum reconhece que o coronavírus pode gerar volatilidade, mas acredita que o mercado de ativos de risco será bem menos prejudicado do que foi em março. “Antes não se sabia como lidar com a doença. Provavelmente, o que teremos agora serão epidemias, de forma localizada, impondo a quarentena apenas em algumas regiões”, aposta.

Intensa volatilidade pela frente

Júlia Monteiro, analista da MyCap, conta que a corretora está trabalhando com um cenário de Ibovespa em 105 mil pontos no final deste ano, levando em conta as incertezas da covid-19, Brexit, eleição americana e questão fiscal. Ela diz que os preços da Bolsa brasileira estão extremamente sensíveis.

“Um papel desaba 7% e sobe 5% no dia seguinte, é uma volatilidade nada rotineira no mercado. São oscilações não ligadas à performance setorial da empresa, mas sim a ruídos macroeconômicos”, afirma. “Esse movimento de entrada e saída não é normal. O investidor está operando no curtíssimo prazo.”

Monteiro acredita que alguns setores da Bolsa devem ter mais êxito no quarto trimestre. Consumo e varejo terão receitas ampliadas, ainda que as margens sejam mais comprimidas pela concessão de descontos. Siderurgia e mineração também devem ir bem, em função da combinação entre aumento de demanda, queda de oferta e alta do dólar.

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“Além deles, setores mais resilientes que ficaram para trás podem performar melhor, como energia e empresas de papel e celulose, mais expostas ao dólar”, complementa.

Paloma Brum, da Toro, projeta um cenário-base de 95 mil pontos para o Ibovespa, podendo chegar até 100 mil. “Eu vejo o índice bem congestionado nessa zona, andando de lado, porque questões como a fiscal dificilmente serão resolvidas em um trimestre”, justifica.

Ela acredita que haverá um movimento de reorganização de carteiras por parte do investidor. Passado o otimismo inicial, ele procurará entender melhor suas posições. “Entrou muita gente nova na Bolsa, com pouco conhecimento, atrás de ações da moda. Agora vão buscar papéis mais resilientes, como utilities e saneamento”, afirma.

Ricardo França, da Ágora, diz que os principais direcionadores das próximas semanas serão a eleição nos EUA e o encaminhamento ou não das agendas no Congresso ainda em 2020. “É difícil dar uma previsão até o final do ano. Mas, se as reformas avançarem no ano que vem, projetamos o Ibovespa até 130 mil pontos em dezembro de 2021.”

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Já o cenário-base de Marcel Zambello, da Necton, é de 106 mil pontos em dezembro de 2020. Ele enxerga um viés bastante negativo da Bolsa agora, mas pondera que a perspectiva de resultados corporativos do terceiro trimestre, que começam a ser publicados neste mês, é muito boa, com empresas enxugando custos e obtendo margens mais saudáveis.

“Além disso, todo fim de ano tem um período típico de rali, em que as bolsas performam melhor. Isso ocorre pela atuação dos gestores de fundos, que precisam bater metas e fazem alocações mais fortes em renda variável”, diz.

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