A recente aprovação, na Câmara, do texto-base do projeto de autonomia do Banco Central (BC) não tirou a atenção do mercado às discussões acerca da renovação do auxílio emergencial. Há um temor causado pela indefinição de como o benefício será custeado pelo governo, sem que as contas públicas fiquem ainda mais pressionadas.
Governo e lideranças do Congresso negociam a concessão de mais uma etapa do auxílio emergencial, com valor de R$ 250, em quatro parcelas, gerando um custo total aproximado de R$ 30 bilhões. A nova rodada de pagamento iniciaria em março e terminaria em junho.
“O começo das discussões não foi bom, porque se deu com gastos em vez de economias”, avalia o professor Michael Viriato, do Insper. “O mercado esperaria que as lideranças começassem propondo de onde vem o dinheiro e o que poderá ser dado”, defende.
Entre as prioridades da agenda em curso no legislativo e no executivo, especialistas ouvidos pelo E-Investidor elencam a PEC Emergencial, que poderá controlar os custos de despesas públicas, e as reformas tributária e administrativa. Estas, contudo, são discussões mais extensas, dada a complexidade para se chegar a um consenso entre os parlamentares.
“Se essas reformas forem aprovadas neste ano, ajuda muito a melhorar a percepção de risco no Brasil, o que acaba ajudando a derrubar os juros de longo prazo e cria um ambiente mais sustentável para a retomada econômica”, explica Ricardo França, analista da Ágora Investimentos.
Esses debates, contudo, têm alto potencial de conflitos, observa Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura. “São reformas bastante conflituosas com outros entes da federação, partidos políticos e setores diferentes da economia. O custo político para a execução dessas reformas é elevado, ainda que o mercado queira muito que elas sejam feitas. Por isso, a minha expectativa é de cautela”, diz Silveira.
O que o investidor deve observar
A pandemia provocou um aumento expressivo da dívida pública em 2020, seja pela queda das receitas ou pelo crescimento das despesas. Por isso, o mercado aguarda as ações do governo para ajustar a situação no longo prazo. Considerando os efeitos desse cenário nos investimentos, especialistas avaliam que, entre as pautas estratégicas para a melhora das condições econômicas do País, a de maior possibilidade de ser destravada é a PEC Emergencial.
“Acreditamos que o Congresso vai aprová-la entre o segundo e o terceiro trimestre deste ano”, estima França, da Ágora. “Essa PEC vai ajudar a permitir que a equipe econômica corte alguns gastos obrigatórios em até R$ 30 bilhões por ano, o que ajudaria a cumprir o limite do teto de gastos nos próximos anos”, acrescenta.
Apesar de cético, o economista-chefe da Nova Futura também avalia que a PEC Emergencial é a que teria mais potencial de ser destravada, com efeitos positivos para o dólar, os juros e a bolsa.
França ressalta que a aprovação da proposta tende a reduzir o risco-país, implicando uma queda dos juros de longo prazo, o que favorece ativos de risco, como os de renda variável na bolsa, no médio e longo prazo. Mas devido às incertezas geradas em debates dessa natureza a volatilidade deve ser grande no período.
Empresas do setor elétrico e concessionárias de rodovias e ferrovias tendem a se beneficiar porque são muito dependentes do comportamento de curva de juros, afirma o analista da Ágora.
Como as macrorreformas tendem a enfrentar mais obstáculos, uma dica para o investidor é acompanhar os desdobramentos de outras medidas que podem ter mais capacidade de serem aprovadas. Exemplo disso são os marcos regulatórios, como a nova Lei do Gás e a Lei da Cabotagem. “Essas reformas, que são mais específicas, podem beneficiar alguns setores, como o de infraestrutura e logística”, cita França.