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Mercado

Por que estrangeiros investem alto na Bolsa brasileira em 2022

Saldo de capital externo chegou a R$ 32,5 bilhões em janeiro, o maior montante em 12 meses

Por Jenne Andrade

10/02/2022 | 3:01 Atualização: 10/02/2022 | 7:51

Alta de juros no mundo motivou migração para empresas de 'valor'. Foto: Pixabay
Alta de juros no mundo motivou migração para empresas de 'valor'. Foto: Pixabay

Em janeiro, o mercado financeiro teve uma surpresa positiva. Os investidores estrangeiros gastaram R$ 32,5 bilhões em compras de ações na B3, o maior saldo mensal de capital externo dos últimos 12 meses. Tamanho fluxo impulsionou o Ibovespa a fechar o período no azul, com uma alta de 6,9%.

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A primeira semana de fevereiro segue com uma boa movimentação. Somente nos quatro primeiros dias do mês, o saldo líquido de investimento estrangeiro (compras de ações menos as vendas) está positivo em R$ 4,9 bilhões.

No total, os ‘gringos’ deixaram por aqui R$ 37,4 bilhões somente nesse início de ano – já maior do que o acumulado nos 12 meses de 2018, 2019 e 2020.

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Tamanha empolgação levantou questionamentos: o que mudou do ano passado para cá que fez o Brasil ficar tão atraente ao investidor estrangeiro? Para Luis Stuhlberger, famoso gestor da Verde Asset, e Rogério Xavier, da SPX Capital, uma possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2022 pode ter instigado essa migração. As declarações foram feitas em evento do Credit Suisse.

Além disso, a bolsa brasileira estaria descontada frente aos pares. Vale lembrar que o real foi a moeda do G20 que mais se desvalorizou no segundo semestre do ano passado. O Ibovespa, na contramão de boa parte dos índices externos, terminou o exercício em queda de 11,9%.

Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, explica que há uma mudança radical na política monetária e fiscal do mundo para conter a inflação. Com juros mais altos no cenário mundial, há menos dinheiro rodando nos mercados e, por consequência, menos fluxo nas bolsas de valores.

“Existem bolsas que subiram muito, que são as de ‘primeiro mundo’, em especial as bolsas americanas. E aí o gringo começa questionar se ainda há espaço para crescer mais nesses mercados ou se em 2022 essas bolsas que já valorizaram muito ano passado terão crescimento mediano”, afirma Franchini.

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Fora isso, existe uma rotação de carteiras de investidores globais. Tomás Awad, sócio da 3R Investimentos, vê uma migração de capital de empresas de crescimento (growth) para empresas de valor (value). As primeiras são geralmente ligadas à tecnologia, das quais o mercado espera um crescimento agressivo e altos resultados no futuro. “Muito do valor dessas empresas está no crescimento e quando sobem juros no mundo elas tendem a perder valor”, afirma Awad.

Já as de valor são aquelas que representam a velha economia, como instituições financeiras e companhias ligadas a commodities. “Metade da Bolsa brasileira são ações de valor, que foram o que deu certo nesse começo de ano. O mundo se moveu de crescimento para valor e o Brasil tem uma bolsa que tem muitas companhias de valor”, explica.

Os estrangeiros não se limitaram apenas à velha economia. “No primeiro movimento foram comprar valor, compraram Vale, Petrobras e bancos, mas depois o fluxo se espalhou para empresas de outros setores”, explica Awad. “É meio estranho, mas a impressão é que eles venderam crescimento nos EUA para comprar crescimento no Brasil.”

Por quanto tempo?

Depois de um início de mês estrondoso, a dúvida é se os gringos continuarão por aqui ou se esse fluxo recorde é passageiro. Para Franchini, trata-se de uma tendência de curto prazo, até a Bolsa brasileira chegar a seu ‘preço justo’, que estaria em torno dos 120 mil pontos. Na última quarta-feira (9), o Ibovespa fechou o pregão aos 112.461,39 pontos.

“O cenário ficou mais difícil para atribuir ganho na carteira a qualquer custo. Então você precisa ter mais critério na avaliação dos seus ativos. É isso que o grande investidor está olhando”, explica o especialista da Monte Bravo. “E o Brasil desponta entre os emergentes porque perdemos, de fato, muito valor agregado dos ativos e da moeda. Fluxo pontual.”

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Já Awad, da 3R Investimentos, não tem tanta certeza. “Essas coisas são sempre super difíceis de aceitar. Dá para dizer que o juro nos EUA continua subindo, e isso que leva a essa rotação”, explica. “Eu não apostaria em uma continuidade por muito tempo.”

Devo seguir os estrangeiros?

Apesar de os estrangeiros terem vindo atrás de empresas de valor, elas não seriam essas as grandes oportunidades na Bolsa brasileira hoje. Na visão de Awad, existem melhores assimetrias no setor de consumo não discricionário. Isto é, varejistas que comercializam itens básicos para a economia local, como Vulcabras (VULC3), Pão de Açúcar (PCAR3) e Hypera (HYPE3).

“A única desas empresas de valor que vemos realmente barata é a Petrobras (PETR4), que tem um fluxo de dividendos e geração de caixa muito altos. No entanto, a Petro é uma empresa estatal e não sabemos quem será o chefe dela em 2023”, afirma.

Por outro lado, a Vale (VALE3), que é uma empresa de ‘valor’, foi uma das empresas mais recomendadas para fevereiro. A mineradora estava na carteira Top 10 da Ágora Investimentos para o mês. “Os preços do minério de ferro permanecerão saudáveis, devido a um mercado equilibrado (calculamos um pequeno déficit de 6 milhões de toneladas) e margens das siderúrgicas saudáveis, com uma média de preço de US$ 100/tonelada que leva a uma geração robusta de FCFE- fluxo de caixa livre do acionista (cerca de US$ 9 bilhões, implicando em um rendimento FCF de 12%)”, afirma a corretora, em relatório.

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