Diferentemente do colapso de 2008, provocado por uma bolha imobiliária que derreteu as bolsas globais, a crise de 2020 não teve origem no mercado financeiro e também não depende dele para contornar a situação. Ela foi gestada por um problema de saúde pública ao redor do mundo que causou sérios danos para a economia real, já que retém milhões de pessoas em casa.
“Por conta do confinamento, as empresas não conseguem manter as atividades de forma normal, os trabalhadores têm suas rendas impactadas e isso pressiona a economia”, afirma. “Eu nunca vi uma crise de dimensão global como essa.”
Estancar apenas a sangria no sistema financeiro, portanto, não é a chave para resolver todos os efeitos da pandemia.
Um problema de cada vez
Para o ex-presidente do BNDES, a melhor estratégia é resolver um problema por vez: primeiro, o financeiro e a economia. Na sequência, a retomada da circulação das pessoas e, por fim, a recuperação do equilíbrio fiscal.
“Hoje a luta é pela sobrevivência das pessoas e das empresas”, diz. “Não é momento para pensar na dívida interna. Esse problema tem que ser discutido lá na frente.”
Por ora, a primeira etapa parece estar sob controle. Ele defende que o conjunto de medidas de injeção de liquidez e capital realizado pelo Banco Central foi necessário para dar uma estabilidade inicial no mercado.“O que tem de positivo nessa crise é que a lembrança de 2008 ainda é muito presente. As ações do BC foram muito rápidas e abrangentes.”
Em tempo: na crise de 2008, o BC injetou R$ 117 bilhões no sistema financeiro para ajudar na liquidez dos bancos. Desta vez, no entanto, o governo liberou mais de R$ 1,2 trilhão para a economia, o equivalente a 16,7% do PIB nacional.
Esperar os resultados das medidas
A segunda preocupação é aguardar os resultados das medidas já implementadas. O economista acredita que, se a equação para controlar a pandemia for efetiva, o País deve começar a dar sinais de recuperação após 90 dias. “Em um cenário mais otimista, o PIB volta a ser igual era antes da crise no meio do ano que vem .”
Até lá, é necessário colocar renda na sociedade para a economia não quebrar. “O único que pode ajudar a resolver a queda na renda durante esses dois ou três meses é o governo federal”, diz. É esperar para ver.
De volta à normalidade
Outro motivo de alerta destacado por Mendonça de Barros é se a pandemia pode voltar ou não no futuro. Alguns países, como a Alemanha, por exemplo, já preparam uma flexibilização da quarentena. A chanceler Angela Merkel decidiu relaxar algumas restrições, abrindo novamente as escolas a partir do dia 4 de maio e permitindo que lojas de até 800 metros quadrados retomem suas atividades.
O problema, no entanto, é que ninguém tem certeza se a pandemia pode voltar mesmo depois do pico da doença. “O que nós sabemos hoje é que curva no número de casos diminui com o isolamento, mas ninguém sabe se a doença pode voltar a se espalhar quando as pessoas retornarem às ruas”, afirma.
Desse modo, Barros, que também foi ministro das comunicações durante o governo de Fernando Henrique Cardozo, reforça a necessidade de as discussões serem pautadas em como voltar à normalidade. “Precisamos debater como devemos fazer a liberação das pessoas e de que forma ela será implementada”, diz.
Acerto de contas
O momento pede cautela. Após todas as etapas para sustentar o País durante a crise, haverá a fase de cuidar das contas públicas.
“Chegará o dia de acertar a cobrança da dívida. Nesse momento, todos vão ter que lidar com o problema de como recuperar o equilíbrio fiscal”, diz. “Mas isso só será resolvido quando a economia estiver funcionando normalmente”, lembra o economista.
O caminho ainda é longo, mas o recado está dado: é importante dar um passo de cada vez.