Na decisão do dia 20 de setembro, o mesmo movimento. Mais um corte de 0,5 ponto percentual nos juros e uma queda de 2,15% no pregão seguinte do Ibovespa. Com o sobe e desce dos últimos dois meses, a Bolsa brasileira já devolveu boa parte dos ganhos do primeiro semestre do ano, quando o mercado viveu um rali à medida que precificava o início do ciclo de afrouxamento monetário.
O que ficou fora dos cálculos das projeções foi a piora no cenário dos Estados Unidos, aponta Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master. Para o especialista, a possibilidade de que a taxa de juros americana permaneça mais alta por mais tempo tem penalizado os mercados globais.
No último encontro do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), também no dia 20, o tom mais duro da instituição chamou a atenção do mercado e levou a uma piora do sentimento de aversão a risco de investidores globais. Um cenário que tem se sobressaído à melhora dos indicadores econômicos e queda da taxa de juros no Brasil. “Esse movimento negativo que estamos vendo está ligado ao comunicado muito duro do Fed, que está estragando a festa no Brasil”, diz.
E-Investidor – A taxa básica de juros sofreu mais um corte em setembro, mas a reação imediata da Bolsa e do dólar contrariou a expectativa dos analistas. Por que as projeções de que a queda da Selic faria o mercado subir não se concretizaram?
Paulo Gala – Quem está estragando a festa no Brasil é o Fed, o Banco Central dos Estados Unidos. Esse movimento negativo está ligado ao comunicado muito duro da instituição, falando que eles podem subir mais a taxa de juros neste ano. Claro que aqui no Brasil há certa preocupação fiscal, com a arrecadação um pouco pior e o governo com mais dificuldade para chegar no déficit zero para o ano que vem; isso também impacta. Se tivesse que atribuir pesos, colocaria dois terços no Fed e um terço só nas questões fiscais. O que está segurando a Bolsa brasileira e os ativos emergentes no geral é o juro americano mais alto por mais tempo.
Os juros mais longos e por mais tempo nos EUA já está no preço das ações brasileiras?
Depois do Fed ser um pouco mais duro do que se imaginava, vimos uma reprecificação na Bolsa brasileira. O cenário base do mercado ainda é o término da alta de juros nos EUA e a convergência da inflação ainda no meio do ano que vem. É isso o que está nos preços. Mas, por exemplo, se a Fed Funds tiver que ir a 6%, aí sim teremos uma correção mais forte. Se houver só mais uma alta ou até nenhum ajuste nos juros até o meio do ano que vem, isso ainda é tolerável.
A China voltou a anunciar medidas para estimular a economia e afastar as ameaças de crise no mercado imobiliário. Isso poderia ser um contrapeso para segurar os mercados globais, especialmente aqueles ligados à commodities como o Brasil?
A China ajuda, mas ela não vai ter capacidade de sobrepor más notícias que venham dos EUA. Na melhor das hipóteses, a China não vai atrapalhar. Se ela conseguir continuar crescendo nesse nível de 4%, eventualmente 5%, mesmo com todos os problemas no mercado imobiliário e com a quebra das construtoras, já está de bom tamanho. Mas não vejo praticamente nenhuma chance da China crescer mais do que 5%, até porque ela está endividada, muito alavancada e acumulou uma série de desequilíbrios nesses últimos 10 anos. Se a situação realmente azedar nos EUA, nem a China poderá nos salvar.
O que poderia atrair os investidores estrangeiros para o Brasil hoje?
Há um movimento de atração de capital com essa coisa do “Brasil Verde”. Se o País se colocar como líder de transição energética e de economia sustentável, isso ajuda. O fato da economia crescer 3% por dois anos seguidos também tem contribuído. O grande impulso mesmo viria de um corte de juros nos EUA, do fim do ciclo por lá. Essa é a variável chave do momento e é o que está nos segurando.
Qual é o maior desafio para o investidor de renda variável em todo esse contexto de incertezas no exterior?
É a tal da “Espera de Godot”. O desafio da renda variável hoje é ter paciência para carregar essa posição de longo prazo. A Bolsa brasileira continua barata, especialmente falando de small caps, e há uma oportunidade grande de alocação para um horizonte de doi a três anos. Diria até que é uma janela histórica de entrada, mas também sujeita a chuvas e trovoadas.
O que você destacaria como oportunidade para os investidores brasileiros?
Principalmente as mid e small caps, mais sujeitas ao ciclo econômico e sensíveis à taxa de juros. São as que estão mais descontadas. Varejo, eventualmente, o setor imobiliário e utilities que também sofreram um pouco. Commodities já não sou tão otimista porque o preço do petróleo subiu muito.
Então a perspectiva para o mercado brasileiro nos meses finais de 2023 é positiva?
O cenário base continua sendo positivo, mas o tamanho dessa projeção vai depender muito dos próximos dados da economia americana. Por incrível que pareça, estamos em uma situação em que o preço dos ativos aqui está dependendo mais dos Estados Unidos do que do próprio Brasil. Vai depender de como vier a inflação no último trimestre e de como o Banco Central americano vai reagir a isso, mas a perspectiva ainda é de alta.