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Até onde a Petrobras pode ganhar com alta do petróleo? As perspectivas para PETR4, dividendos e risco político

Alta do Brent impulsiona geração de caixa no E&P, mas pressões no refino, risco político e menor payout tornam cenário menos linear que em 2022

Retrato de busto sob fundo azul escuro.
Por Isabela Ortiz
Editado por Wladimir D'Andrade

24/03/2026 | 5:30 Atualização: 23/03/2026 | 19:48

Alta do petróleo reforça caixa, mas cenário atual traz mais incertezas e limitações que em ciclos anteriores (Foto: Adobe Stock)
Alta do petróleo reforça caixa, mas cenário atual traz mais incertezas e limitações que em ciclos anteriores (Foto: Adobe Stock)

A escalada do petróleo – que chegou a tocar recentemente os US$ 120 por barril – recoloca a Petrobras (PETR3; PETR4) no centro das atenções. Entretanto, desta vez o cenário é mais complexo do que o observado após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Naquele período, o Brent médio de US$ 99 sustentou uma combinação de forte geração de caixa, baixo capex (investimento) e política de distribuição agressiva, que resultou em R$ 215 bilhões em dividendos. Agora, há novos fatores limitando a captura total desse ciclo.

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Pelo lado positivo, a engrenagem principal da companhia segue girando com força. Em um cenário de barril do petróleo Brent a US$ 120, a Petrobras “ainda captura parte relevante desse movimento, sobretudo via E&P [exploração e produção]”, afirma Daniel Cobucci, analista setorial O&G pelo BB Investimentos. O segmento de exploração e produção continua altamente competitivo, com recordes de exportação e capacidade comprovada de geração de caixa.

Segundo Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, nesse patamar elevado “o petróleo ainda se traduz em geração adicional de caixa relevante para a Petrobras”, principalmente pelo baixo custo de extração no pré-sal, que sustenta margens elevadas mesmo em cenários de volatilidade. Ainda assim, ele pondera que tal ganho incremental começa a apresentar retornos decrescentes, já que custos como royalties e participações governamentais aumentam com o preço do petróleo, reduzindo a captura marginal da alta.

Essa resiliência já havia aparecido em 2025. Naquele ano, mesmo com queda de 15% no Brent, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado recuou apenas 0,6% na comparação anual. Na prática, isso indica uma estrutura capaz de absorver choques negativos e, por consequência, amplificar ganhos quando o petróleo sobe.

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Na visão de Vitor Sousa, analista de Petróleo e Gás da Genial Investimentos, esse motor é ainda mais dominante. “O céu é o limite”, diz o especialista. Segundo ele, o E&P deve responder por mais de 80% do resultado operacional no cenário atual. O baixo custo de extração (entre US$ 6 e US$ 7 por barril) garante uma geração de caixa suficientemente robusta para superar limitações como investimentos mais altos ou eventuais restrições na política de preços.

Esse diferencial operacional também sustenta a visão do BTG Pactual, que destaca o “perfil de produção robusto e de baixo custo” da companhia, com crescimento estimado de produção de cerca de 3,3% ao ano entre 2025 e 2028. Mesmo após a alta de mais de 49% das ações em 2026, o banco vê a Petrobras como um ativo de “valor de escassez” entre emergentes e projeta retomada da geração de caixa excedente com Brent em níveis ainda bem inferiores aos atuais.

O ciclo atual está longe de ser linear

Se, por um lado, o segmento de exploração sustenta os resultados, por outro, o refino e a dinâmica doméstica funcionam como importantes limitadores. Para Boragini, além dos custos crescentes atrelados ao petróleo mais caro, há o risco de desalinhamento entre preços internacionais e domésticos, o que pode restringir a transmissão da alta do Brent para os resultados.

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Como o Brasil ainda depende de importações (cerca de 30% da demanda de diesel vem do exterior e outros 10% de refinarias privadas), a Petrobras precisa lidar com custos internacionais elevados. Ao não repassar integralmente essa alta ao consumidor, a companhia acaba comprimindo margens.

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“Enquanto o segmento de exploração se beneficia do petróleo mais caro, o downstream [etapa final da cadeia produtiva] é pressionado”, resume Leandro Martins, analista técnico em renda variável no Inter. Esse descasamento limita a captura total da alta e cria um teto econômico mais claro para os resultados.

A Petrobras elevou o preço do diesel em cerca de 12%, para R$ 3,65 por litro, mas ainda pratica descontos relevantes frente à paridade de importação: de 32% no diesel e 37% na gasolina. Após o reajuste, o crack spread (margem do refino) do diesel voltou para cerca de US$ 20 por barril, enquanto o da gasolina permanece negativo, evidenciando a assimetria dentro do próprio negócio.

Além disso, o desconto nos preços domésticos tem efeitos colaterais. Distribuidores regionais evitam importar combustível por risco de prejuízo, dando prioridade a volumes da Petrobras, o que pode gerar incertezas de abastecimento no curto prazo. Nesse contexto, a estatal pode atuar como fornecedora de última instância, eventualmente via leilões ou com compensação do governo.

Ao mesmo tempo, o repasse parcial da alta já pressiona a cadeia. O preço do diesel nas bombas subiu cerca de 19% no mês, comprimindo margens do transporte e reacendendo discussões sobre risco de greve de caminhoneiros, um fator adicional de volatilidade.

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Do lado político, o cenário é mais ambíguo. Por um lado, medidas recentes (como ajustes tributários) indicam que o governo tenta acomodar os preços sem intervenção direta na política da companhia. Por outro, o risco de decisões voltadas ao controle da inflação segue no radar, podendo afetar a rentabilidade.

“Esse ganho pode ser parcialmente capturado por decisões políticas ou diluído pela política de preços”, afirma Martins.

Capital, investimentos e dividendos entram no radar

Se no operacional há força, na alocação de capital o cenário se torna mais desafiador. Segundo Boragini, diferentemente de 2022, o quadro atual é “mais complexo”, com maior direcionamento estratégico do governo, aumento do foco em investimentos e uma possível flexibilização na política de preços. Esses fatores, segundo ele, reduzem a previsibilidade e o potencial de dividendos extraordinários.

De fato, a Petrobras entrou em um ciclo mais intensivo de investimentos. Em 2025, o fluxo de caixa livre caiu 26,1%, enquanto os investimentos cresceram 22%. A remuneração ao acionista recuou 44%, para R$ 41,2 bilhões, e o payout (porcentagem de lucro líquido distribuído aos acionistas) foi reduzido de 60% para 45%.

Isso altera significativamente a dinâmica de dividendos. Embora a geração de caixa continue forte, novos ciclos extraordinários dependem da manutenção prolongada do petróleo em níveis elevados. Segundo o BTG, a companhia precisa de um Brent entre US$ 65 e US$ 67 apenas para sustentar dividendos ordinários – abaixo disso, a tese perde atratividade.

Marcelo Boragini, da Davos, reforça esse ponto ao afirmar que, embora a Petrobras ainda possa entregar um dividend yield (DY, rendimento do dividendo) atrativo, o payout tende a ser “mais equilibrado e menos agressivo” do que no ciclo anterior. Ainda assim, o banco projeta DY ao redor de 9% em 2026 e 11% em 2027, considerando um cenário de Brent mais baixo, o que sugere que o atual nível de preços pode ampliar temporariamente essa capacidade.

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Mesmo com fundamentos ainda atrativos – como múltiplos ao redor de 3x valor total da empresa (EV)/Ebitda e DY de dois dígitos, segundo a Ruy Hungria, analista da Empiricus Research –, o mercado já precifica boa parte desse cenário positivo.

Após a forte valorização das ações, “a relação risco-retorno fica assimétrica”, afirma Daniel Cobucci, analista no BB Investimentos. Isso porque os preços atuais já embutem um prêmio geopolítico relevante, associado à demora na normalização da oferta global, especialmente no Oriente Médio.

Entre o caixa extra e os limites estruturais

Apesar do petróleo elevado ainda sustentar geração adicional de caixa, a captura desse ganho está longe de ser linear. Pedro Galdi, da AGF, diz que a companhia vive uma espécie de “conta de mais”: ganha com a exportação de petróleo mais caro, mas perde ao lidar com o custo elevado do diesel, já que o Brasil ainda depende de importações relevantes do combustível. Nesse contexto, a defasagem de preços no mercado interno cria distorções de incentivo e limita parte do ganho operacional.

Ao mesmo tempo, a política de distribuição de dividendos adiciona uma camada técnica à equação. Segundo Galdi, o pagamento está atrelado a uma fórmula que evita o aumento do endividamento, o que coloca indicadores como dívida líquida/Ebitda no centro da análise, especialmente em um momento de maior intensidade de investimentos.

Já na visão de Nícolas Mérola, da EQI Research, não há necessariamente um “teto” rígido para a captura de valor com o petróleo mais alto. Para ele, a política de preços tende a diluir choques ao longo do tempo, permitindo que a companhia absorva parte das oscilações e compense movimentos de alta e baixa em momentos distintos. Nesse cenário, o petróleo acima do nível de equilíbrio considerado pela companhia (na casa dos US$ 60) amplia o excedente de caixa, mas sua destinação depende cada vez mais de decisões estratégicas.

O investidor precisa ter cautela

O mercado financeiro ainda projeta um Brent médio de US$ 80 até o fim do ano, o que significa que uma eventual queda da commodity pode pressionar fortemente as ações.

“Acho que o investidor está entrando em um terreno perigoso”, diz Vitor Sousa.

Na mesma linha, Boragini avalia que, apesar de a Petrobras ainda negociar a múltiplos atrativos, o mercado já incorporou boa parte do cenário favorável. Para ele, a tese deixou de ser uma “barganha evidente” e passou a exigir mais cautela, com foco em fatores como DY ajustado, risco político e sensibilidade ao Brent. “Hoje é mais uma tese de manutenção seletiva do que entrada agressiva”, afirma.

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Ruy Hungria, da Empiricus, reforça que a recente valorização dos papéis é justificada pela alta do petróleo e pela melhora nas perspectivas de lucros e dividendos. Ainda assim, alerta que uma reversão da commodity, seja por acomodação do conflito geopolítico ou mudança no cenário global, pode rapidamente inverter esse movimento.

Do ponto de vista de riscos e catalisadores, o cenário se divide em duas direções. De um lado, a manutenção do petróleo em níveis elevados, ganhos de eficiência operacional e maior previsibilidade na política de preços sustentariam a tese. De outro, interferência política, aumento de investimentos com menor retorno e uma eventual queda abrupta do Brent aparecem como principais vetores negativos.

Na prática, essa assimetria já começa a aparecer no curto prazo. Nesta segunda-feira (23), os preços do petróleo chegaram a despencar mais de 10% após uma sinalização do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de adiar ataques a instalações de energia no Irã por cinco dias, reduzindo temporariamente o risco de interrupção da oferta global. O movimento levou o Brent para a casa dos US$ 96 e o WTI para abaixo dos US$ 90, eliminando rapidamente o prêmio de risco geopolítico que vinha sustentando as cotações acima de US$ 110.

Mesmo com a forte queda da commodity, os recibos de ações (ADRs) da Petrobras negociados em Nova York inverteram o sinal e passaram a subir, enquanto, no Brasil, os papéis também mostraram resiliência. A leitura do mercado é de que, apesar da volatilidade no curto prazo, o nível ainda elevado do petróleo e a robustez operacional da companhia seguem dando suporte às expectativas de geração de caixa.

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A Petrobras segue como uma das principais beneficiárias da alta do petróleo, mas também como uma das mais expostas à sua volatilidade. Para o investidor, o momento exige mais seletividade do que euforia. O potencial de alta ainda existe, mas está cada vez mais condicionado a fatores externos e imprevisíveis.

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