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Mercado

A reação do mercado ao tom ainda duro do Copom, que manteve Selic em 13,75%

Órgão dá poucos indícios sobre os próximos passos, mantendo a postura de vigilância que já vinha sendo adotada

A reação do mercado ao tom ainda duro do Copom, que manteve Selic em 13,75%
Comitê de Política Monetária do BC é quem dá as "regras do jogo" através da taxa Selic - Foto: Beto Nociti/Banco Central
  • Sem surpresa, o Comitê de Política Monetária manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (3)
  • O tom do comunicado, no entanto, surpreendeu
  • A instituição voltou a dizer que "não hesitará" em voltar a subir os juros se for necessário, dizendo “não há relação mecânica entre a convergência de inflação e a aprovação do arcabouço fiscal”

O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano na reunião realizada nesta quarta-feira (03). A decisão não é nenhuma grande surpresa. Não só já era esperada pelo mercado, como é o sexto encontro, depois de 12 aumentos consecutivos, em que a instituição opta por não ajustar a taxa básica de juros.

Mais do que a decisão em si, a expectativa maior era para o comunicado do Banco Central. Como a manutenção dos juros já era unanimidade, economistas, analistas e especialistas em investimentos esperavam por sinalizações sobre os próximos passos da instituição monetária. Isso porque boa parte do mercado já espera pelo primeiro corte na Selic no segundo semestre de 2023.

Mas o Copom manteve o tom mais duro que já vinha adotando nas últimas reuniões. Ao comunicar a decisão, a instituição voltou a enfatizar que “não hesitará” em retomar o ciclo de ajuste se julgar necessário, destacando ainda que “não há relação mecânica entre a convergência de inflação e a aprovação do arcabouço fiscal”. Veja a íntegra do comunicado

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Apesar dos dados mais positivos – como o IPCA de 12 meses, que ficou em 4,65% em março, dentro do teto da meta de inflação pela primeira vez em dois anos – o Banco Central ainda tem motivos para manter o pé no freio. Incertezas em relação à proposta de arcabouço fiscal, pressão política pela queda dos juros, possível mudança no regime de metas de inflação. Tudo isso em meio à desancoragem das expectativas para 2024, 2025 e 2026.

“Considerando a incerteza ao redor de seus cenários, o Comitê segue vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação. O Comitê reforça que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas. O Comitê avalia que a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária. O Copom enfatiza que, apesar de ser um cenário menos provável, não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado”, disse o comunicado do BC.

O comunicado ainda duro da instituição pode causar certo estremecimento no mercado brasileiro. Veja o que dizem especialistas sobre a decisão do Copom desta quarta-feira:

Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama

A permanência da taxa no atual patamar, vigente desde agosto do ano passado, era consenso no mercado. Cabe enfatizar que o forte e surpreendente resultado do IBC-Br de fevereiro, anunciado semana passada, anulou quaisquer chances de queda na reunião de hoje, mesmo porque, a despeito do IPCA vir caindo nos últimos meses, a inflação subjacente permanece alta.

A grande expectativa, portanto, estava relacionada ao comunicado pós-encontro e se o Comitê iria dar alguma indicação, sutil que fosse, sobre os próximos passos, mais especificamente se haveria alguma possibilidade de inflexionar, no curtíssimo prazo, a política austera em curso desde 2021.

Sem fugir do script habitual, o Copom salientou no comunicado os elementos perturbadores existentes, domésticos e externos, apesar de reconhecer que a apresentação do novo arcabouço fiscal possui méritos em reduzir parte das incertezas. De concreto, contudo, não percebemos no documento “pistas” reais de que a queda da taxa esteja próxima.

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Por fim, diante do texto ainda duro, a ideia de que o início do afrouxamento da atual política possa ocorrer já na próxima reunião de junho perde força.”

André Perfeito, economista

A leitura do comunicado divulgado sugere que o colegiado do Copom não deve cortar os juros na reunião de junho, mas apenas no segundo semestre. Alguns pontos chamaram a atenção como a perspectiva que a aprovação do Arcabouço Fiscal não gera automaticamente corte de juros, o que no mais é óbvio, mas contrasta com elogios iniciais a proposta do Ministério da Fazenda.

Contudo, o que reafirma a perspectiva contracionista é a insistência em falar algo que já foi dito: que irá atuar com juros no atual patamar até que haja queda da inflação corrente e da inflação futura (ancoragem das expectativas).

No mais isso deve bater no mercado de capitais na perspectiva que com juros neste patamar a renda variável – e o resto da economia – seguem com uma bola de ferro no pé.”

Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos

Ainda há incertezas em relação ao arcabouço fiscal que, em nossa avaliação, é permissivo com o aumento de gastos, o que causa uma preocupação sobre a deterioração da trajetória da dívida pública. Além disso, há o crescimento do risco político no Brasil. Um exemplo são as críticas do governo federal sobre a condução política monetária, o que traz uma aversão a risco ao nosso mercado.

O mercado internacional ainda enfrenta uma crise no setor bancário e existe uma preocupação com a questão fiscal no Brasil.

O BC tem sido muito técnico e está sendo correto em cima de suas decisões diante de um cenário de tantas incertezas. Na minha visão, a preocupação com a desancoragem das expectativas de inflação continuam.

Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil

Na minha visão, o tom do comunicado do Copom foi bastante duro, bem mais hawkish, e mantendo a palavra quase que de lei nas últimas reuniões do Comitê: vigilância. Além disso, adotou um tom forte ao afirmar que não hesitam em retomar o ciclo de ajuste, caso vejam como necessário, já que o processo de desinflação é custoso. Roberto Campos Neto e todo o time do Copom seguem vigilantes para, além de realizar o processo desinflacionário com sucesso, ancorarem a expectativa de inflação no médio prazo.

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A surpresa, na minha opinião, ficou por conta do tom da manutenção da Selic no patamar atual por mais tempo, pegando o mercado meio que na contramão, em um momento em que havia a esperança de um corte de juros no curto prazo. O Comitê caminhou no sentido contrário por entender que ainda há muito a ser feito, principalmente para ancorar as expectativas de inflação, tentando cumprir a meta de forma técnica, mas tendo que cobrar um custo alto para isso.

A decisão de hoje provavelmente deixará o ânimo dos políticos à flor da pele, já que boa parte da base aliada pedia um corte de juros “de qualquer jeito”, e mais uma vez o Copom sinalizou que vai ser técnico e que não cederá as pressões políticas.

Raphael Vieira, co-head de Investimentos da Arton Advisors

O comunicado do Copom seguiu com o tom hawkish da reunião passada, apontando os riscos existentes para a convergência da inflação, citando, inclusive, que “não há relação mecânica entre a convergência de inflação e a aprovação do arcabouço fiscal”, dando um recado para o governo  ao mesmo tempo que pede paciência e serenidade na condução da política monetária.

Por fim, ele não retira a ênfase sobre não hesitar em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como o esperado. É válido mencionar que não havia expectativa no mercado de juros de um corte para essa reunião.

 

 

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