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Mercado

Entenda até quando a Bolsa deve ‘precificar’ o coronavírus

Especialistas projetam cenários para os próximos meses

Por Thiago Lasco

30/04/2020 | 9:30 Atualização: 01/06/2020 | 15:12

Mulher com máscara para se proteger de coronavírus observa gráfico com seta vermelha caindo (Foto: Pixabay)
Mulher com máscara para se proteger de coronavírus observa gráfico com seta vermelha caindo (Foto: Pixabay)

O ano de 2020 ficará marcado para sempre pelo coronavírus. A pandemia tomou conta da agenda mundial, com seus desdobramentos humanos dramáticos, e colocou as economias em transe. Enquanto não se sabe qual será a duração da quarentena, o mercado financeiro tem que navegar em uma Bolsa cujo ritmo passou a ser ditado pelo próprio vírus. E nem teria como ser diferente.

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“A Bolsa sempre antecipa e precifica fatos. Quando começou a perceber a gravidade do coronavírus, a B3 passou a cair”, diz José Francisco Cataldo, superintendente de research da Ágora Investimentos. “O que o mercado vai antecipando, e por enquanto sem tanta clareza, é que a normalização da atividade econômica será demorada.”

Nesse mar de incerteza, a bússola acaba sendo o próprio gráfico de evolução da pandemia, com dados sobre novos casos e novos óbitos. Hoje, esse gráfico diz mais para o mercado financeiro do que o próprio Ibovespa.

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Luís Sales, analista da Guide Investimentos, acredita que só será possível definir um prazo mais claro para a reabertura da economia quando as curvas de novos infectados e de mortalidade da covid-19 começarem a se achatar. “Já vimos isso acontecer na China, e agora a Europa também esboça os primeiros parâmetros de uma reabertura.”

A definição sobre a data de retomada das atividades é crucial, porque uma paralisação forçada que se prolonga por meses a fio começa a asfixiar as empresas. Mas nem todas sentirão os efeitos da quarentena da mesma maneira.

Para Luiz Fernando Missagia, gestor de renda variável da ACE Capital, o fluxo de caixa da maioria delas já será seriamente afetado neste ano se a crise de prolongar. Mas ele pondera que o impacto vai variar em cada setor econômico e dependerá da condição financeira de cada uma.

Em um cenário otimista, se o vírus for controlado em até um mês, muitas podem passar quase ilesas pela crise, na visão de Missagia. “Com o isolamento afrouxado, o impacto nas empresas será de um ou dois meses, o que em termos de valuation é muito pouco.”

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O mercado tenta estimar prazos prováveis para o fim da pandemia e mensurar os efeitos da paralisação na economia. Mas é muito difícil fazer projeções confiáveis. Isso traz outro problema: um aumento da volatilidade no cenário.

“Você pode sair machucado (com perdas) de uma operação correta, com bom fundamento, que empurrou você para fora”, explica Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. “Vamos supor que concluímos que o PIB vai crescer e compramos ações. Aí amanhã sai uma má notícia da covid-19 ou do cenário político e a Bolsa cai 5%. Depois outra novidade ruim e perda de mais 5%. Nisso, já perdemos 10%, e saímos no prejuízo. Bolsa é ativo de risco, mas hoje o risco e a chance de prejuízo estão muito maiores.”

Nessa gangorra, pesquisas sobre vacinas e tratamentos e a variação na taxa de ocupação de leitos das UTIs são notícias que impactam o mercado, trazendo ora preocupações, ora esperança.

“O papel do jornalismo neste momento da economia é fundamental, porque está todo mundo atrás das informações que vão ditar os rumos e dar um norte para o fim da pandemia”, observa Sanchez.

Quando o coronavírus sairá do preço?

Com base nas informações de que dispõem no momento, empresas e agentes do mercado financeiro formulam suas próprias hipóteses e fazem cálculos para o fim da crise, projetando cenários diferentes. E toda essa especulação em torno do coronavírus se reflete nos preços praticados.

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“Se houvesse um cenário único, não sairia negócio. Só sai negócio porque existe uma diferença de cenários entre as partes”, diz o economista da Ativa. “Já tem muita coisa (do coronavírus) no preço. O difícil é dizer se já foi o que tinha que ser, se foi demais, se ainda falta. Na hora em que o cenário se unificar, com uma definição, uma vacina, o ‘corona’ sai do preço. Até lá, o grau de incerteza será grande”, conclui.

Outro reflexo relevante da pandemia, e que ainda é uma incógnita no horizonte, diz respeito à confiança do consumidor após o fim da quarentena. “Não se sabe se o consumo voltará aos níveis de janeiro, o que permitiria às empresas manter os planos de crescimento originais”, diz Missagia. “Quanto mais longa a quarentena, mais o consumidor tende a mudar seus hábitos de consumo.”

Não se pode desprezar, ainda, o risco-país causado pelo momento político delicado do Brasil. A má interlocução do governo Bolsonaro com o Legislativo e os Estados atrasa a retomada da economia. E um possível afrouxamento fiscal pode piorar o cenário.

“O Brasil é um país pobre que está fazendo um programa social em um momento em que a trajetória de dívida estava decrescente. O sinal inverteu e agora ele vai se endividar para cobrir os gastos sociais da quarentena”, diz o gestor de renda variável da ACE. “O aumento de risco levará a altas nos juros e no dólar, fuga de capitais, talvez comece um cenário de aumento de impostos para cobrir o déficit gerado pela pandemia.”

Apostas para a retomada miram final do primeiro semestre

As fontes ouvidas pela reportagem do E-Investidor se dividem entre cenários mais e menos otimistas para a retomada da atividade econômica. Mas a maioria acredita que esse movimento se dará ao longo dos próximos dois meses.

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“O governador de São Paulo João Doria sinalizou a reabertura do comércio para 11 de maio. Esse é o cenário base com que trabalhamos, já que São Paulo é a principal economia do País e os demais Estados devem acompanhar”, diz Luis Sales, da Guide. “A reabertura deve começar em maio e se estender até o final de junho, em setores mais lentos, como a aviação.”

Rafael Panonko, chefe de análises da Toro Investimentos, aposta que produção e comércio já voltarão à ativa no próximo mês. “Maio será um mês importante para começar uma diminuição gradual do isolamento, continuando em junho, para em julho termos uma volta à normalidade. Se o isolamento avançar sobre junho, os impactos ficam bem mais graves. As empresas não aguentam sobreviver fechadas por um tempo superior”, pondera.

Étore Sanchez também desenha um cenário em que a economia começa a reabrir na virada de maio para junho. Nesse caso, ele projeta uma queda de 2,75% do PIB para 2020. Mas ressalva que uma reabertura precoce pode ter consequências ainda piores.

“O problema de encerrar a quarentena antes da hora, sem um resultado efetivo, é termos uma recuperação em “W” e sermos obrigados a fazer uma segunda quarentena, com uma queda de 8% do PIB. O controle da doença ainda está muito incerto”, avisa o economista-chefe da Ativa.

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