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Negócios

O brasileiro parou de comprar armas? CEO da Taurus responde

Salesio Nuhs fala sobre a queda de 82% no lucro líquido da companhia no 1º trimestre deste ano e perspectivas

Por Jenne Andrade

19/05/2023 | 10:18 Atualização: 19/05/2023 | 10:32

Salesio Nuhs, CEO da Taurus, afirma que 1º trimestre mais fraco não deve preocupar investidor. Foto: Taurus
Salesio Nuhs, CEO da Taurus, afirma que 1º trimestre mais fraco não deve preocupar investidor. Foto: Taurus

Um dos resultados que mais geraram repercussão nesta última leva de balanços foi o da fabricante de armamentos Taurus Armas (TASA4). A empresa viu o lucro líquido cair 81,8% no primeiro trimestre de 2023 em relação ao mesmo período do ano passado, passando de R$ 195 milhões para os atuais R$ 35,4 milhões.

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Apesar de o principal mercado da empresa ser os Estados Unidos, chamou a atenção a retração de 61,7% das vendas no mercado interno. Em comparação ao mesmo trimestre de 2022, as receitas referentes ao Brasil caíram R$ 119 milhões, passando de R$ 192,9 milhões para R$ 73,9 milhões. Por trás dessa perda, está o limbo relacionado à regulação do comércio de armamentos no Brasil.

Já nos primeiros dias de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou um decreto que revogou regras que flexibilizavam o acesso a armas de fogo. Diferente do seu antecessor, Lula é abertamente contra o tema. Entre as medidas estabelecidas no texto do dia 2 de janeiro, houve a suspensão da concessão de novos registros de clubes e escolas de tiro e para caçadores, colecionadores e atiradores desportivos (CACs).

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O limite para a compra de armas de uso permitido também foi reduzido para três por pessoa – antes, as limitações eram de 5 armas para colecionadores, 15 para caçadores e 30 para atiradores. Agora, o Ministério da Justiça prepara um novo decreto para regulamentação dos armamentos no País – e todo setor aguarda essa definição para renovar os estoques, segundo o CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs.

“O consumidor não deixou de comprar as armas. O que nós entendemos é que a cadeia de distribuição não comprou por conta dessa insegurança jurídica, mas os estoques das lojas e dos distribuidores aqui no Brasil foram vendidos. Saindo esse novo decreto e criando essa segurança jurídica para o segmento, é vida que segue”, afirma Nuhs.

Para Nuhs, o brasileiro aprendeu que tem direito a comprar armas de fogo durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e essa ideia não será facilmente alterada. “Esse é um assunto que não adianta trabalhar contra, pois é um tema latente. E até esse novo governo está deixando claro para a população de que pode comprar armas. Tanto que hoje, qualquer brasileiro pode comprar três armas de fogo, desde que siga rigorosamente o que manda a lei”, diz.

Além da indefinição quanto à regulamentação, o CEO da Taurus Armas cita outros fatores que tornaram esse período “desfavorável”. Um deles, seria a base de comparação forte com o primeiro trimestre de 2022, cujos resultados foram alimentados por receitas não-operacionais, e as férias coletivas de 30 dias promovidas pela empresa para atualizar tecnologias.

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Por último, Nuhs comenta que, na visão dele, não é só o setor de armas que está demorando a engrenar. “O Brasil não começou ainda. O Congresso está parado, a economia está parada. O mercado está esperando um encaminhamento desse novo governo”, afirma.

Leia a entrevista:

E-Investidor – A Taurus soltou resultados com um lucro líquido 81,8% menor. Chama a atenção o recuo das receitas, principalmente relacionadas ao mercado interno. O brasileiro parou de comprar armas?

Nuhs –  O que aconteceu foi que no mesmo período do ano passado nós tínhamos receitas não-operacionais, como recuperação de PIS/Cofins, que engordaram o lucro líquido.

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É importante também entender o aconteceu no mercado interno. O Brasil está parado, não é só o nosso segmento. O Congresso está parado, a economia está parada. O mercado está esperando um encaminhamento do novo governo. E nosso assunto é um pouco mais sério porque houve várias críticas do Executivo em relação à posse de armas de fogo.

Depois desse novo decreto, o mercado volta a aquecer?

Nuhs – Não será normal esse mercado interno desaquecido. O consumidor continua comprando, os estoques nas lojas baixaram. Não houve novas compras por uma questão normal, pois estão esperando um decreto que não saiu.

Tem outro ponto que impactou o balanço?

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Nuhs – Nós trabalhamos praticamente menos um mês neste primeiro trimestre. Nós demos 30 dias de férias coletivas, que terminaram em 18 de janeiro. Fizemos isso pois estávamos atualizando a versão do SAP (software para gerenciamento de processos), que foi um tremendo sucesso.

Com esses investimentos que fizemos, acabamos com o terceiro turno, que é muito mais oneroso para a companhia. Temos 30% de adicional noturno, agora só mantemos as operações no turno da noite naqueles pontos onde os equipamentos ainda não chegaram. Isso também vai viabilizar e diminuir o nosso custo.

Além disso, existia um estoque grande na distribuição, no Brasil e nos EUA. Paramos também até desovar os estoques da cadeia de distribuição.

Por que as vendas do mercado externo caíram 21,6%?

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Nuhs – O importante é analisarmos o NICS (Sistema Nacional de Verificação Instantânea de Antecedentes Criminais – índice que mostra a procura por armas de fogo nos EUA), que está mostrando uma recuperação. O primeiro trimestre de 2023 está muito próximo do primeiro trimestre de 2020, com tendência de alta.

Óbvio, nós não vamos ter aquela loucura que tivemos em 2021 e 2022 por conta da pandemia, mas será um novo patamar. O novo normal nos Estados Unidos será melhor do que no pré-pandemia, não tenho dúvidas disso. E hoje nós temos um tíquete médio de venda muito melhor do que nós tínhamos em 2020.

No início da nossa gestão, tínhamos um tíquete médio US$ 150. Agora, estamos próximos de US$ 250 dólares e isso impacta direto a receita. Isso não foi por reajuste de preço, mas por um mix de produtos mais gordo. Não podemos nos impressionar por esse trimestre, cujo resultado era previsível.

Então não há nenhuma perspectiva de mudança no pagamento de dividendos?

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Nuhs – Tem sim, mas de uma forma positiva. Foi aprovado um plano de recompra de ações nas assembleias agora no final de abril, já que entendemos que as ações estão subavaliadas, e um plano de pagamento de dividendos mais frequente. Não poderíamos fazer pagamentos de dividendos mais frequentes se não tivéssemos criado reservas para tal. Então, do lucro líquido do ano passado, sobraram R$ 304 milhões que podem ser distribuídos, sob aprovação do Conselho de Administração.

O que esperar dos próximos trimestres?

Nuhs –A Taurus nos últimos anos teve um perfil para especulador. Tivemos vários fatores internos e externos que favoreceram a especulação. Inclusive, fatores externos de governo, essa coisa toda. O plano estratégico da Taurus está sendo cumprido rigorosamente. A companhia encontra-se numa situação privilegiada em termos de caixa, endividamento, resultado operacional, margem bruta. Este primeiro  trimestre foi um ponto fora da curva.

Com essas medidas, teremos um perfil de investidor que busca dividendos, que busca entrar no papel pensando no longo prazo e não em especulação.

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