O fim de semana foi marcado pelo fracasso das negociações em Islamabad, encerradas sem acordo após cerca de 21 horas. Enquanto o vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou que Teerã foi “inflexível” sobre seu programa nuclear, autoridades iranianas disseram que Washington não conseguiu “conquistar a confiança” da delegação. Na sequência, o presidente Donald Trump anunciou que pretende bloquear o Estreito e ameaçou interceptar embarcações, ao passo que a Guarda Revolucionária (IRGC) alertou para “redemoinhos mortais” na região, caso americanos e israelenses cometam “erros” na via marítima.
Dados de rastreamento divulgados pela Bloomberg mostram que petroleiros desistiram de atravessar Ormuz após o colapso das conversas, evidenciando o risco operacional na rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. O episódio ocorre em um momento em que a via já operava de forma limitada, com relatos de minas marítimas e presença ampliada de forças navais na região, incluindo embarcações americanas e de aliados.
A retomada de tensões contrasta com o alívio observado nos ativos ao longo da semana passada. Com o anúncio da trégua e a expectativa de avanço diplomático, o petróleo acumulou queda superior a 12% – de 13,4% no WTI e 12,7% no Brent -, enquanto as bolsas em Nova York subiram, com ganhos de até 4,7%, no caso do Nasdaq, em meio também ao suporte de resultados corporativos no setor de tecnologia. Aqui no Brasil, o Ibovespa renovou recordes históricos e o dólar à vista caiu ao menor nível em dois anos, a R$ 5,01.
Parte relevante desse rali esteve ligada à percepção de que o conflito permaneceria contido. Nesse contexto, moedas de países exportadores de commodities também ganharam tração. Para Robin Brooks, do Brookings Institution, o real brasileiro pode se beneficiar desse ambiente e, apesar de estar “muito depreciado”, tem espaço para se valorizar, com o dólar podendo cair abaixo de R$ 4,50 nos próximos meses.
Ainda assim, o pano de fundo permanece instável. Analistas do ING alertam que, mesmo com eventual reabertura de Ormuz, a normalização da oferta de energia pode levar “semanas, ou mais”, diante de danos já causados à produção e ao refino, além de gargalos logísticos. O impacto já se espalha por cadeias globais, com interrupções no transporte marítimo, na energia e em insumos industriais.
No campo macroeconômico, o CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, afirmou, em carta a investidores, que a guerra pode reacender a inflação global e manter juros elevados por mais tempo, ao pressionar custos de energia e cadeias de suprimento. O próprio Trump reconheceu a dificuldade de leitura recente dos mercados, ao afirmar que o petróleo “não subiu tanto quanto esperava”, nem as bolsas caíram de forma mais intensa durante o conflito.