Mercado de trabalho aquecido e mudanças no Imposto de Renda devem sustentar o crescimento da renda das famílias e impulsionar o consumo em 2026, avalia a XP Investimentos. (Foto: Adobe Stock)
A renda real das famílias brasileiras deve ganhar novo impulso em 2026, sustentada por um mercado de trabalho ainda em alta e pelo impacto direto da reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). Segundo a XP Investimentos, a combinação desses fatores leva a um crescimento de 4,5% da renda real disponível, ritmo semelhante ao observado em 2025 e suficiente para impulsionar o consumo e da atividade econômica no próximo ano.
De acordo com a XP Macro Research, como pano de fundo desse cenário está um mercado de trabalho aquecido, que não dá sinais de reversão no curto prazo. A taxa de desemprego permanece em níveis historicamente baixos, entre 5,5% e 6,0%, refletindo tanto a resiliência da atividade doméstica quanto o recuo da taxa de participação na força de trabalho.
“Esse cenário de forte aperto no mercado de trabalho não deve se alterar no curto prazo”, avaliam os economistas do banco, que apontam desemprego de 5,7% ao fim de 2026, abaixo da taxa de equilíbrio estimada para a economia brasileira.
Tal ambiente pressiona positivamente os rendimentos. A renda média real do trabalho avança 2,5% em 2026, alcançando R$ 3.800 por mês, impulsionada pela demanda resiliente por mão de obra, pela escassez de trabalhadores em diversos setores e pela regra de reajuste real do salário mínimo. Como resultado, a massa salarial real cresce 3,8%, uma desaceleração suave em relação ao crescimento expressivo de 5,6% registrado em 2025, mas ainda suficiente para manter o trabalho como o principal motor da renda das famílias.
Além do mercado de trabalho, a reforma do IRPF atua como vetor relevante de estímulo em 2026. A proposta, que isenta trabalhadores com renda mensal de até R$ 5 mil e concede descontos para quem ganha até R$ 7.350,00, reduz a retenção do imposto sobre a renda do trabalho, com impacto estimado em R$ 31,3 bilhões.
Para compensar, a reforma introduz a tributação de dividendos distribuídos a pessoas físicas e um imposto mínimo efetivo sobre contribuintes de alta renda, mas os efeitos sobre o consumo tendem a ser assimétricos.
Isso ocorre porque, como destaca a XP, a propensão marginal a consumir é muito maior entre indivíduos de baixa e média renda do que entre os de alta renda. O banco assume uma propensão de 0,70 para os beneficiados pelas isenções e descontos do IR e de apenas 0,05 para aqueles impactados pela maior tributação sobre dividendos. Ou seja, a cada R$ 1,00 adicional de renda, os beneficiários da reforma direcionam cerca de R$ 0,70 ao consumo e poupam R$ 0,30.
“Esses parâmetros implicam um efeito líquido positivo e relevante sobre o consumo no curto prazo“, afirmam os economistas, estimando que a reforma adicione cerca de 0,6 ponto porcentual ao crescimento da renda real das famílias em 2026.
Mais benefícios previdenciários em 2026
Outro componente importante do quadro de renda vem das transferências fiscais, especialmente benefícios previdenciários e assistenciais. A XP projeta crescimento de 13,4% nos benefícios previdenciários e de 4,5% no Benefício de Prestação Continuada/Lei Orgânica da Assistência Social (BPC/LOAS) em 2026, impulsionados pelo reajuste real do salário mínimo e pela redução gradual da fila de pedidos, que atingiu cerca de 3 milhões no fim de 2025.
A expectativa é que aproximadamente metade desse estoque excedente seja concedida ao longo de 2026, sustentando a renda disponível das famílias ao longo do ano.
Já outras transferências, como o Bolsa Família, devem ter impacto mais limitado. O número de famílias beneficiárias caiu de cerca de 22 milhões em 2023 para menos de 19 milhões em 2025 e a XP assume estabilidade tanto no número de beneficiários quanto no valor do benefício em 2026, diante das restrições fiscais e eleitorais. Programas como o Gás do Povo e o Pé-de-Meia tendem a contribuir positivamente, mas em magnitude menor, com efeito marginal sobre a renda agregada.
No total, a XP estima que cerca de 0,8 ponto porcentual do crescimento da renda real disponível em 2026 decorrerá da combinação entre reforma do IRPF e transferências fiscais, menos do que em anos anteriores, mas ainda uma contribuição relevante. “Tudo considerado, projetamos que a renda real disponível às famílias crescerá 4,5% em 2026″, destaca o relatório, com desaceleração para 3,0% em 2027, à medida que os estímulos perdem força.