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Investimentos

Momento é de oportunidade e não de saída da Bolsa, diz ex-diretor do BC

Para Luiz Fernando Figueiredo, CEO da Mauá Capital, o Brasil saiu na frente nos juros e pode se beneficiar

Por Luíza Lanza

05/05/2022 | 10:01 Atualização: 05/05/2022 | 10:38

Para Luiz Fernando Figueiredo, CEO da Mauá Capital, Brasil está perto do fim do ciclo de alta nos juros. (Foto: Divulgação/Mauá Capital)
Para Luiz Fernando Figueiredo, CEO da Mauá Capital, Brasil está perto do fim do ciclo de alta nos juros. (Foto: Divulgação/Mauá Capital)

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou o décimo reajuste consecutivo na taxa básica de juros do País, agora no patamar de 12,75% ao ano – o maior desde janeiro de 2017. A decisão seguiu o consenso de mercado, que já esperava uma alta de 1 ponto percentual na Selic.

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Este é o terceiro ajuste feito pelo Copom em 2022 na tentativa de reduzir a pressão inflacionária, que levou o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) a 11,30% no acumulado dos últimos 12 meses. O boletim Focus desta semana revisou pela décima sexta vez a projeção de inflação para 2022, de 7,65% para 7,89%.

Com impactos negativos na oferta vindos do conflito entre Rússia e Ucrânia, ainda sem previsão de trégua, e a recente desaceleração da atividade econômica na China, com lockdowns e portos fechados reduzindo a oferta de insumos, a alta generalizada de preços não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, a inflação chegou a 8,5% ao ano, o maior nível em mais de 40 anos. Esta “superquarta” também foi marcada pela reunião do Federal Reserve, o banco central dos EUA, que decidiu aumentar em 0,5 ponto a taxa básica de juros americana. 

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Enquanto por lá o aperto monetário está apenas começando, o ciclo de juros altos no Brasil já está mais próximo do fim. Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e CEO da Mauá Capital, o Brasil fez o dever de casa ao iniciar o aperto monetário antes dos outros países e pode se beneficiar desse movimento.

“O cenário tende a ser pior para os países que estão atrasados no ajuste dos juros. Embora aqui tenha a incerteza interna, com as eleições, do meu ponto de vista, o Brasil não está tão mal”, diz Figueiredo.

A expectativa da Mauá é que o ciclo de alta da taxa de juros encerre entre 12,75% e 13,25%, o que significaria apenas mais um aumento de meio ponto, antes de começar a cair.

Mas a nova alta nos juros não deve mandar os investidores direto para a renda fixa. Os movimentos do BC já estão precificados pelo mercado e, na visão de Figueiredo, o momento agora abre boas oportunidades na renda variável. “Os ativos brasileiros voltaram a ficar muito baratos, as empresas brasileiras são muito sólidas. É um momento de oportunidade, não de sair correndo da Bolsa”, defende.

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Ao E-Investidor, o CEO da Mauá Capital falou sobre as expectativas do ciclo de alta de juros no Brasil, as oportunidades na renda variável e o cenário conturbado dos mercados internacionais em 2022. Veja os principais trechos a seguir:

E-Investidor – O mercado costuma precificar as decisões de política monetária com antecedência. A alta anunciada da Selic nesta quarta-feira condiz com as expectativas de mercado?

Luiz Fernando Figueiredo – O Banco Central tinha dito há algumas semanas que iria fazer mais uma alta de 100 pontos-base e iria parar. O mercado já precificava esse aumento nesta reunião e um de 50 pontos na próxima. Mas tivemos uma inflação muito alta no mês passado, 30 pontos acima do que o mercado esperava, e isso fez com que o BC se desse o direito de pensar se mantinha ou não o plano de voo.

A dúvida era quanto à sinalização para as próximas reuniões. Acredito que a inflação fez o pico agora em abril, então talvez não tenhamos novas surpresas tão grandes. Se isso se confirmar, pode ser que o BC realmente pare de subir os juros.

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Apesar dos movimentos do Banco Central, a inflação não tem dado trégua. De onde vem essa pressão inflacionária?

Figueiredo – Esse é um fenômeno que não é do Brasil, mas mundial. É uma inflação importada. O Banco Central não tem o que fazer frente ao aumento do preço do petróleo ou do trigo. Mas ele não pode deixar isso se espalhar para a economia. Essas surpresas inflacionárias estão sendo muito fortes, principalmente em commodities, e o BC está reagindo a tudo isso, não permitindo que isso se propague.

Existe a possibilidade do ciclo de alta nos juros durar mais do que o previsto? Quais são as estimativas da Mauá para a taxa neste e no próximo ano?

Figueiredo – É duro falar isso, mas eu diria que temos 50/50 de chance. Foi uma surpresa muito grande na inflação e o Banco Central se reservou o direito de pensar. Passado um tempo, se não vierem novas surpresas negativas, ele vai tomar a decisão de encerrar ou não o ciclo de altas. Vale a pena ainda deixar em aberto para a próxima reunião, porque tem mais um mês e meio de informação (a próxima reunião do Copom será em 14 e 15 de junho) para poder basear a decisão. Há situações em que o BC não antevê, apenas reage. E esse é o caso.

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Na Mauá, entendemos que o Banco Central vai parar a alta da Selic entre 12,75% e 13,25%, e que já deve começar a reduzir os juros no último trimestre de 2022. Para 2023, esperamos que o BC vá reduzindo os juros gradualmente até chegar perto dos 8%.

Na última reunião do Copom, o cenário para o Ibovespa era bem diferente, com o índice em alta e o real se valorizando frente ao dólar. Agora acabamos de encerrar o pior mês na bolsa desde março de 2020, quando a pandemia começou. Qual o impacto de uma nova alta da Selic nesse cenário?

Figueiredo – Essa queda grande que aconteceu no Ibovespa é 100% creditada ao que está acontecendo lá fora. A guerra entre Rússia e Ucrânia perdeu o horizonte de se encerrar no curto prazo, a expectativa agora é que vá muito mais longe. A incerteza externa aumentou e essa é a principal pressão no Ibovespa hoje.

O cenário está muito mais dependente desse nível de incerteza do que propriamente da Selic, que já está precificada. Se o BC não parar já em 12,75%, ele deve subir mais um pouco e depois encerrar o ciclo de alta. Quanto a isso, não tem muita incerteza. Agora, o que vai acontecer no mundo está em aberto.

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Um dos fatores que mais pressionou o Ibovespa no último mês foi o receio dos mercados globais com os lockdowns na China e a possibilidade de desaceleração da economia asiática. Qual a sua visão do cenário?

Figueiredo – Eles têm uma atitude muito severa com o aumento dos casos de covid-19. O que está acontecendo hoje em Pequim é o que aconteceu antes em Xangai, que já está começando a reabrir depois de um processo de 20 dias. Não deu um mês. Acredito que vai acontecer a mesma coisa em Pequim. O mercado está reagindo além do necessário a uma coisa que, para mim, é bastante temporária. Esse impacto que sofremos em abril deve ser revertido ao longo das próximas semanas.

Na sua visão, quais são as oportunidades na bolsa neste momento?

Figueiredo – O Brasil está longe demais dessa situação da guerra e China. As commodities, quando sobem, não é uma coisa só ruim para o País. Se por um lado é ruim porque a inflação sobe, por outro, é positivo porque o Brasil é exportador. Nesse sentido, somos mais poupados que outros países.

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Os ativos brasileiros tinham melhorado, mas agora voltaram a ficar muito baratos. Então é uma situação de oportunidade. As empresas brasileiras na bolsa são muito sólidas, principalmente bancos, empresas de infraestrutura e algumas de varejo. É um momento de aproveitar as oportunidades com cautela.

Leia também: Os setores da Bolsa que se beneficiam com a Selic em alta

Gosto do setor de commodities, mas não sei se estamos diante de um ciclo que vai se estender muito, já que o mundo vai sofrer em termos de crescimento. Papel e celulose, por exemplo, estou muito tranquilo, mas, de resto, tenho minhas dúvidas. Prefiro empresas grandes nos setores de infraestrutura e bancos.

Então o senhor está otimista com a renda variável em 2022?

Figueiredo – Sim. Tem que ter cautela, mas é um momento de oportunidade, não de sair correndo da Bolsa. É preciso lembrar que o investimento em renda variável é uma coisa de médio e longo prazo. Quando olhamos para os fundamentos, vemos que o mundo ainda está diante de uma série de desafios muito grandes e que, neste caso, o Brasil já está mais avançado. Então não é o momento para ficar muito nervoso. Pelo contrário, com cautela, dá para ir gradualmente acrescentando risco.

Os juros em alta também beneficiam os investimentos em renda fixa. Com a Selic em 12,75%, quais ativos são boas oportunidades para o investidor?

Figueiredo – Na renda fixa, gosto principalmente dos ativos com maior duração. As NTNs longas, os títulos pré-fixados mais longos.

Nos primeiros meses do ano, a B3 se beneficiou com um alto fluxo de entrada de capital estrangeiro. Em abril, porém, essa tendência se reverteu. Esse novo aumento na Selic pode atrair os estrangeiros de volta para o Ibovespa?

Figueiredo – Com os ativos no mundo sofrendo como sofreram em abril, não tinha como ficarmos totalmente isentos. Mas a bolsa brasileira ainda está no zero a zero no ano, enquanto a bolsa americana está caindo quase 15%. É bastante. Nosso momento ainda é, sem dúvidas, superior ao das bolsas estrangeiras.

Mas o que trouxe os estrangeiros não foi o aumento dos juros. O dinheiro veio para a renda variável, não para a renda fixa. Para voltar a ter entrada de fluxo aqui, tem que estabilizar lá fora. O momento é de uma certa aversão ao risco e afeta todo mundo.

Esta quarta-feira também foi marcada por um novo aumento de juros nos Estados Unidos. O aperto monetário do Fed se reflete no Ibovespa de alguma forma?

Figueiredo – Já está precificado que o Fed está bastante atrasado e vai ter que subir os juros por lá mais do que se imaginava. A inflação nos Estados Unidos está alta demais e os juros ainda estão muito longe de onde precisam estar. É diferente do Brasil, que já está no fim do ciclo de aperto. Eles estão só no início. Muita gente acredita que os juros por lá devem ir a no máximo 3% ou 4%. Mas eu acho que é subestimar o nível de inflação que eles têm por lá.

Então esse chacoalhão nos mercados por causa de uma revisão para cima no aperto monetário vai continuar. O Brasil pode se beneficiar, porque já estamos bem avançados nesse processo. Não tenho dúvidas disso.

O Brasil fez o seu dever de casa mais cedo ao subir os juros, enquanto outros países estão muito atrasados. Tende a ser pior para eles do que para o Brasil. Por mais que tenha a nossa incerteza interna, que são as eleições, do meu ponto de vista, o Brasil não está tão mal.

 

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