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Comportamento

Empresários japoneses não encontram sucessores. Este doou a própria empresa

Envelhecimento da população no Japão impacta na dificuldade de encontrar líderes para sucessão nas empresas

Por Ben Dooley e Hisako Ueno, New York Times

19/01/2023 | 15:19 Atualização: 19/01/2023 | 15:19

Foto: Envato Elements
Foto: Envato Elements

Hidekazu Yokoyama passou três décadas construindo uma empresa de logística bem-sucedida na Ilha de Hokkaido, no norte do Japão, uma área que fornece grande parte do leite do país.

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No ano passado, ele decidiu doar tudo. Foi uma solução radical para um problema que se tornou cada vez mais comum no país, a sociedade com mais idosos do mundo.

Conforme a taxa de natalidade do Japão despencava e a sua população envelhecia, a média de idade dos empresários aumentava para cerca de 62 anos. Aproximadamente 60% das empresas japonesas relatam que não têm planos para o futuro.

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Embora Yokoyama, 73 anos, se sentisse velho demais para continuar no comando do negócio por muito mais tempo, deixar o cargo não era uma opção: muitos agricultores passaram a depender de sua empresa. “Sem dúvida não poderia abandonar o negócio”, disse ele.

Mas seus filhos não estavam interessados em administrá-lo. Nem seus empregados. E quase nenhum dos possíveis interessados em adquirir a empresa gostaria de se mudar para a remota e congelante região norte do país.

Então ele publicou um anúncio em um site que ajuda proprietários de pequenas empresas em locais afastados a encontrar alguém para adquirir seus negócios. O preço de venda anunciado: zero iene.

A dificuldade de Yokoyama simboliza um dos possíveis impactos econômicos mais devastadores do envelhecimento da sociedade japonesa. É inevitável que muitas pequenas e médias empresas saiam do mercado à medida que a população encolhe, mas os formuladores de políticas temem que o país possa ser afetado por uma onda de fechamentos de negócios conforme os proprietários idosos se aposentam em massa.

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Em uma apresentação apocalíptica de 2019, o Ministério do Comércio do Japão projetou que, até 2025, cerca de 630 mil empresas lucrativas poderiam fechar as portas, custando US$ 165 bilhões para a economia e até 6,5 milhões de empregos.

O crescimento econômico já está anêmico e as autoridades japonesas começaram a agir na esperança de evitar uma catástrofe. Os gabinetes do governo iniciaram campanhas de relações públicas para esclarecer aos proprietários idosos as opções para a continuidade de seus negócios após a aposentadoria deles e criaram centros de serviços para ajudá-los a encontrar compradores. Para tornar a oferta ainda mais interessante, as autoridades lançaram subsídios e incentivos fiscais generosos para os novos proprietários.

Mesmo assim, os desafios continuam gigantescos. Um dos maiores obstáculos para encontrar um sucessor tem sido a tradição, disse Tsuneo Watanabe, diretor da Nihon M&A Center, empresa especializada em encontrar compradores para pequenas e médias empresas de sucesso. A empresa, fundada em 1991, tornou-se extremamente lucrativa, registrando US$ 359 milhões em receitas no ano passado.

No entanto, realizar esse trabalho tem sido um processo longo. No passado, os proprietários de pequenas empresas, principalmente aqueles no comando de negócios de muitas décadas – ou até mesmo séculos – do país, acreditavam que seus filhos ou um funcionário de confiança assumiriam o controle de seus negócios. Eles não tinham interesse em vender o trabalho de uma vida a um estranho, muito menos a um concorrente.

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As fusões e aquisições “não eram bem vistas. Muitas pessoas sentiam que era melhor fechar a empresa do que vendê-la”, disse Watanabe. As percepções da indústria melhoraram ao longo dos anos, mas “ainda há muitos empresários que nem sequer sabem que as fusões e aquisições são uma opção”, acrescentou.

Embora o mercado tenha encontrado compradores para empresas prontas para serem adquiridas, pode parecer quase impossível para muitas empresas pequenas, apesar de economicamente importantes, encontrar alguém para assumir seu controle.

Em 2021, os centros de ajuda do governo e os cinco principais serviços de fusões e aquisições encontraram compradores para apenas 2.413 empresas, de acordo com o Ministério do Comércio do Japão. Outras 44 mil foram abandonadas. Mais de 55% destas ainda eram rentáveis quando fecharam.

Muitas dessas empresas ficavam em cidades pequenas, onde o problema da sucessão representa provavelmente uma ameaça existencial. O fim de um negócio, seja ele um empregador local importante ou o único supermercado de um vilarejo, pode tornar ainda mais difícil para esses lugares sobreviver ao constante desgaste do envelhecimento da população e ao êxodo rural que está esvaziando o campo.

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Depois que um programa do governo não conseguiu encontrar alguém para substituir Yokoyama, um banco sugeriu que ele recorresse à Relay, empresa com sede em Kyushu, a principal ilha mais ao sul do Japão.

A Relay diferencia-se por apelar ao senso de comunidade e propósito dos possíveis compradores. Seus anúncios, com proprietários sorridentes em frente a lojas de sushi e campos bucólicos, são criados para atrair moradores estressados de centros urbanos que sonham com um estilo de vida diferente.

A tarefa da empresa no caso de Yokoyama não era fácil. Para a maioria dos japoneses, a cidade onde fica a empresa dele, Monbetsu, que tem cerca de 20 mil habitantes e está encolhendo, poderia muito bem ser o Polo Norte. As únicas indústrias ali são de pesca e agricultura, e elas basicamente entram em hibernação à medida que os dias se tornam curtos e a neve se acumula até as beiras dos telhados. Durante o período mais severo do inverno, alguns turistas aparecem para comer ovas de salmão e vieiras e observar os blocos de gelo que bloqueiam o porto modesto da cidade.

Uma rua cheia de cabarés e restaurantes da década de 1980 é uma lembrança de uma época mais próspera na qual pescadores jovens se reuniam para desabafar e gastar seus salários gordos. Hoje, cartazes desbotados se soltam de fachadas abandonadas. O maior prédio da cidade é um hospital novo.

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Em 2001, Monbetsu construiu uma nova escola primária bem na esquina da empresa de Yokoyama. Ela fechou dez anos depois.

No passado, as salas de aula teriam sido preenchidas pelos netos de produtores de leite locais. Mas, hoje, a maioria dos filhos deles se mudou para cidades maiores em busca de um trabalho mais bem pago e menos pesado.

Sem sucessores óbvios, as fazendas foram fechando uma após a outra. A maior inflação em décadas, provocada pela pandemia e pela guerra entre Rússia e Ucrânia, levou dezenas de trabalhadores relutantes à aposentadoria adiantada.

Conforme os agricultores locais envelheceram e seus lucros diminuíram, mais deles passaram a depender de Yokoyama para tarefas como colher feno e limpar a neve. Seus dias começam às 4h da manhã e terminam às 7h da noite. Ele dorme em um pequeno quarto atrás de seu escritório.

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Seria “extremamente difícil” se a empresa dele fechasse, disse Isao Ikeno, gerente de uma cooperativa de laticínios nas redondezas que recorreu bastante à automação, à medida que se tornou mais difícil encontrar trabalhadores.

Na fazenda da cooperativa, 17 funcionários cuidam de três mil cabeças de gado e a empresa de Yokoyama preenche as lacunas. Nenhuma outra da região consegue fornecer os serviços, disse Ikeno.

Yokoyama começou a pensar em se aposentar há cerca de seis anos. Mas não tinha certeza do que aconteceria com seu negócio.

Embora ele tenha assumido uma dívida de pouco mais de US$ 500 mil, anos de políticas generosas de estímulo econômico mantiveram as taxas de juros no mínimo possível, aliviando o fardo, e a margem de lucro anual da empresa era de cerca de 30%.

O anúncio que ele colocou na Relay reconhecia que o trabalho era árduo, mas dizia não ser preciso ter experiência. O melhor candidato seria “alguém jovem e disposto para trabalhar”.

Quem quer que fosse o escolhido assumiria as dívidas, mas também herdaria todos os equipamentos da empresa e aproximadamente 60 hectares de terras agrícolas e florestas de excelente qualidade. Os filhos de Yokoyama não vão ficar com nada.

“Falei para eles que se quisessem assumir o controle da empresa, eu a deixaria para eles, mas se não quisessem, daria tudo ao primeiro interessado”, disse ele.

Aparecerem 30 candidatos. Entre os interessados estavam um casal e um representante de uma empresa que planejava se expandir. Yokoyama escolheu um azarão: Kai Fujisawa, 26 anos.

Um amigo mostrou a Fujisawa o anúncio na Replay e ele pegou na hora o carro e foi bater na porta de Yokoyama, impressionando-o com sua juventude e entusiasmo.

Entretanto, a transição não tem sido fácil. Yokoyama não está totalmente convencido de que Fujisawa seja a pessoa certa para o trabalho. A curva de aprendizagem é mais acentuada do que qualquer um deles imaginou e os funcionários grisalhos e fumantes inveterados de Yokoyama estão céticos de que Fujisawa será capaz de fazer jus à reputação do chefe.

A maioria dos 17 funcionários da empresa tem entre 50 e 60 anos, e não se sabe ao certo onde Fujisawa encontrará pessoas para substituí-los quando se aposentarem.

“Há muita pressão”, disse Fujisawa. Mas “quando cheguei aqui, estava preparado para fazer isso pelo resto da minha vida”.

* Tradução de Romina Cácia

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