Ao lado de Thiago Pietschmann, líder de parcerias estratégicas da Fenasbac, Lívio Sousa, CTO de ativos digitais da IBM Z, defendeu que o País se transformou em uma espécie de “greenhouse” da inovação financeira global. Segundo ele, o Brasil reúne uma combinação rara de criatividade, pressão regulatória, escala bancária e problemas estruturais que acabam acelerando soluções tecnológicas antes do resto do mundo.
Sousa relembrou, por exemplo, como o sistema bancário brasileiro precisou desenvolver mecanismos sofisticados de segurança décadas antes de outros mercados. “Nos Estados Unidos, perguntavam por que alguém roubaria dados de cartão. Aqui, isso já fazia parte da realidade”, contou. Para o executivo, essa necessidade constante de adaptação ajudou o Brasil a construir infraestrutura financeira resiliente e altamente digitalizada.
Advento do Pix, sistema blockchain e tokenização
O avanço do Pix apareceu como um dos principais símbolos dessa transformação. Segundo Sousa, o sistema instantâneo brasileiro resolveu um problema estrutural de pagamentos e abriu espaço para uma nova camada de inovação. “O pagamento instantâneo já foi resolvido”, afirmou. “Agora, o ecossistema consegue construir outras soluções em cima disso.”
O executivo destacou que o diferencial brasileiro não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela é integrada em escala nacional. O Pix, lembrou, foi construído sobre tecnologia aberta e interoperável, modelo que hoje inspira discussões em outros países. “A tecnologia precisa criar ecossistemas”, resumiu. “Você precisa de uma infraestrutura embaixo que dê tranquilidade para tudo funcionar.”
Ao falar sobre blockchain, Sousa afirmou que o verdadeiro sucesso da tecnologia acontecerá quando ela deixar de ser percebida como novidade. “Esperamos que as pessoas parem de falar de blockchain como pararam de falar da internet”, disse. “Só aí a tecnologia terá sido incorporada de verdade.” A avaliação é que o mercado caminha para uma infraestrutura cada vez mais invisível ao usuário final, mas profundamente integrada ao sistema financeiro.
Outro tema trazido ao painel foi a tokenização de ativos reais, os chamados RWAs (real world assets). Para Sousa, embora a tecnologia permita fracionar praticamente qualquer ativo, isso não significa que todas as aplicações façam sentido na prática. “Tokenização do ativo não muda a natureza do ativo”, afirmou, ao defender que inovação financeira precisa caminhar junto com governança, regulação e segurança jurídica.
O papel do Brasil no desenvolvimento tecnológico
Na avaliação dos participantes, o Brasil ganhou protagonismo justamente por conseguir equilibrar inovação, supervisão regulatória e capacidade operacional em larga escala. O Drex, o Open Finance e o próprio Pix foram citados como exemplos de projetos que transformaram o País em referência internacional de infraestrutura financeira digital.
Ao fim da conversa, Pietschmann defendeu que o Brasil ainda comunica pouco sua relevância tecnológica ao mundo. “A gente precisa cacarejar mais”, brincou. A metáfora resume a mensagem do painel de que as “jabuticabas” brasileiras podem deixar o lugar de excentricidades locais e passar a influenciarem a próxima geração das finanças globais.
O São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira, 13, e sexta,15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.