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Colunista

Guerra da Ucrânia: a China é a resposta para as negociações?

Embora o Brasil queira mediar uma solução, os chineses se aproximam do protagonismo

Por Thiago de Aragão

10/05/2023 | 17:33 Atualização: 10/05/2023 | 17:33

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China quer ser mediadora de paz entre Ucrânia e Rússia, EUA abraçam a ideia. Foto: AP
China quer ser mediadora de paz entre Ucrânia e Rússia, EUA abraçam a ideia. Foto: AP

Que o Brasil deseja mediar o fim da Guerra na Ucrânia, todos nós já sabemos. O principal problema foi a forma atabalhoada como o processo de inserção do Brasil — na condição de mediador — aconteceu. A partir do momento em que o Ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov afirma que “o plano brasileiro está muito bem alinhado com os interesses russos”, as coisas começam a não parecer muito equilibradas para um pretenso mediador que, naturalmente, não deve ter predileção para um lado ou outro.

Leia mais:
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O curioso, no entanto, é a chegada da China na tentativa do processo de mediação. Enquanto o governo americano, por exemplo, não demonstrou interesse em apoiar o objetivo brasileiro, há um processo de análise em curso sobre apoiar ou não a iniciativa chinesa.

Para os EUA, aliar-se à China no processo de mediação pode trazer inúmeros benefícios para a conturbada relação entre os dois países. Anthony Blinken, Secretário de Estado dos EUA, deu a deixa sobre a possibilidade de a China se envolver no processo de mediação: “não vejo problema algum em ter um país se colocando para um papel de mediador, seja a China ou outro, desde que tenha influência significativa na guerra. A China certamente tem um papel a jogar e isso poderia ser benéfico”.

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Sim, é verdade que a China se colocou como aliada da Rússia desde o início. Então, por que os comentários pró-Rússia de Lula e Celso Amorim seriam um empecilho para uma mediação brasileira?

Bem, a grande diferença está naquilo que o próprio Blinken mencionou em sua fala “desde que tenha uma influência significativa na guerra”. A China encontra-se em uma posição de influência por ter a Rússia sob sua dependência em aspectos econômicos e comerciais.

Dessa forma, ser aliado da Rússia pode até contar como uma vantagem, caso a China tenha, de fato, interesse em buscar a paz. Como a Rússia depende da China (e, infelizmente não depende do Brasil), uma pressão de Xi Jinping sobre Putin pode vir a ter mais impacto do que a de Lula sobre Putin, dado que o Brasil não possui nenhuma influência significativa sobre a Rússia ou a Ucrânia.

Por que a mediação chinesa poderia fazer sentido?

O primeiro ponto é que a escolha de um mediador deve partir dos principais atores envolvidos. Esses atores não incluem apenas Rússia e Ucrânia, mas a Otan e a China. Os EUA, por razões óbvias (todo o apoio dado a Ucrânia até o momento e sua posição em relação à Rússia, via Otan), não seria considerado como um ator neutro para levar adiante uma mediação.

No caso da China, o fato de não ter fornecido armamentos à Rússia (pelo menos não comprovadamente), faz diferença aos olhos ucranianos sobre o papel que poderia ter.

Por que a Ucrânia consideraria a China como um mediador justo?

Isso ainda está em aberto. Verdade seja dita, a China só decidiu avançar nessa ideia após os comentários não muito inteligentes do embaixador chinês em Paris, que afirmou que os ex-estados soviéticos “não existem”. Pequim percebeu a bobagem que seu embaixador fez e, por conta das repercussões, o Ministro de Relações Exteriores Qin Gang resolveu iniciar um tour europeu.

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Independente das burradas de narrativas por parte da China, há uma diferença muito grande na razão pelo qual europeus (e a própria Ucrânia) ainda estariam dispostos a avaliar ter a China como mediador e não o Brasil (que também soltou suas pérolas nas últimas semanas): o poder da China em inúmeras vertentes e sobre a Rússia.

No fim das contas, política internacional não é um desfile de boa vontade, mas um desfile de força que pode se tornar boa vontade. As boas intenções possuem um valor muito baixo na política internacional, enquanto a influência de um país sobre outro faz a diferença. No caso da Rússia, apenas um país se encontra numa condição de superioridade consentida e este é a China.

A esperança ucraniana é de identificar uma verve nos chineses que justifique uma aventura na mesa de negociação. Nesse caso, a Ucrânia aguardará as conversas de Qin Gang com França, Alemanha e com o próprio Zelensky para definir seu posicionamento.

Por que os EUA topariam ter a China como mediadora?

Não é segredo que a China é o grande rival dos EUA no mundo atual. As tensões estão num ponto altíssimo e, nessa última semana, as tropas chinesas entraram em alerta máximo após EUA, Japão e Coréia do Sul realizarem manobras antissubmarino conjuntas.

No entanto, enquanto a China é um inimigo que aceita lutar no campo da influência, inteligência, desenvolvimento tecnológico e estratégia geopolítica, a Rússia é um inimigo que flerta com a possibilidade de explodir uma bomba nuclear para justificar um ponto de vista.

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Entre o importante e o urgente, sabendo que a Rússia possui um grau de dependência crescente em relação à China, poderia valer a pena para os EUA ter a China como mediadora, até mesmo para entender o real alcance da influência chinesa sobre os russos e a capacidade diplomática de Pequim em conduzir um processo complexo como uma mediação. Tudo que a China fizer no campo de uma eventual mediação irá oferecer insights valiosos para os EUA em relação ao processo de tomada de decisão de Pequim sobre temas internacionais.

Por que a Rússia toparia ter a China como mediadora?

As primeiras informações são de que Putin não está muito feliz com esse posicionamento da China. Em uma semana, Moscou estava esperando que Pequim finalmente fosse enviar armamentos para auxiliar grupos paramilitares (Wagner). Na semana seguinte os chineses se colocam dispostos a encerrar tudo, reconhecendo a soberania dos envolvidos.

O próprio processo de decisão dos russos em relação a aceitar ou não já revela muito. Se aceita a mediação chinesa, podemos supor que a influência chinesa de fato é forte. Se rejeitam e batem o pé em relação a isso, entenderemos que os chineses talvez ainda não tenham consolidado uma influência tão forte assim.

Para que dê certo, a China terá de magoar o coração de Putin. Isso é algo que, para o líder russo, está fora de cogitação. Uma mediação bem-sucedida dificilmente envolveria a Ucrânia topando entregar uma parcela importante do seu território. Para Putin, uma mediação bem-sucedida precisa, obrigatoriamente, garantir um prêmio pra levar pra casa e justificar para o povo russo que essa aventura sem sentido teve algum ganho.

O jogo de cintura dos chineses não é conhecido nas relações internacionais. Londres, Paris, Berlim e Washington não acreditam que a China possa de fato conduzir uma mediação eficiente sem gerar algum stress com os russos. No entanto, só o fato de assistir como isso se desenrolaria já forneceria informações valiosas sobre essa aliança entre chineses e russos que tanto preocupam os europeus e americanos.

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