Com o dólar comercial registrando média de R$ 5,26 no primeiro trimestre, a valorização do real espremeu as margens de lucro das companhias exportadoras brasileiras listadas na B3. (Imagem: Adobe Stock)
Um dólar mais barato tem lá seus admiradores. O consumidor que compra eletrônicos importados, o viajante que planeja uma temporada no exterior, a empresa que importa insumos ou paga dívidas em moeda estrangeira, todos saem ganhando quando o real se fortalece. O crédito externo fica mais acessível, os preços de produtos importados cedem e a inflação importada perde fôlego.
Para uma economia que ainda carrega cicatrizes de juros altos, o alívio cambial ajuda consumo e financiamento. Para as empresas brasileiras exportadoras listadas na B3 (B3SA3), porém, o dólar em queda é uma pedra no sapato. E os balanços do primeiro trimestre deste ano (1T26) deixaram isso bem claro.
Segundo dados do Banco Central, a média do dólar comercial no 1T26 foi de aproximadamente R$ 5,26, ante R$ 5,84 no mesmo período de 2025 (1T25), uma queda de cerca de 10% na comparação anual. A lógica do problema é simples. Uma empresa que exporta celulose, carne ou máquinas recebe em dólar, mas paga salários, insumos e frete em reais. Quando o real se valoriza, a receita convertida para a moeda local encolhe, enquanto os custos domésticos ficam onde estão.
Mês
2026 (dólar comercial – taxa de compra)
2025 (dólar comercial – taxa de compra)
Janeiro
R$ 5,3374
R$ 6,0212
Fevereiro
R$ 5,2000
R$ 5,7650
Março
R$ 5,2310
R$ 5,7462
Sidney Lima, analista certificado (CNPI) da Ouro Preto Investimentos, lembra que não existe um número único que resuma a perda das exportadoras, porque o resultado de cada companhia depende do porcentual de receita em dólar, dos custos em reais, do nível de cobertura cambial e do preço internacional dos produtos vendidos. Ainda assim, em muitos casos, o resultado aparece ponto a ponto nos balanços financeiros, com margens em queda, lucros menores e, em outras companhias, prejuízo.
“Em diversos casos, o problema não foi apenas receita nominal menor, mas perda de alavancagem operacional, já que parte importante dos custos permanece indexada à inflação doméstica. Na prática, isso pode criar um descompasso relevante entre receita em dólar enfraquecida e despesas locais ainda elevadas”, diz Lima.
O efeito desigual do câmbio nas exportadoras
O setor de papel e celulose registrou os efeitos mais visíveis, afirmam os especialistas. A explicação para esse comportamento é de que a receita é fortemente dolarizada, enquanto boa parte dos custos industriais, florestais, administrativos e logísticos permanece em reais. A Suzano (SUZB3), maior produtora de celulose do mundo, chegou ao 1T26 com preços da commodity em recuperação e demanda aquecida na China.
Mesmo assim, a receita líquida somou R$ 10,9 bilhões, recuo de 5% frente ao 1T25, com volumes vendidos de celulose e papel caindo 17% e 20%, respectivamente. O Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Ebitda) ajustado ficou em R$ 4,6 bilhões, queda de 6%, e o lucro despencou 32%.
“Em reais, o preço médio líquido da celulose caiu 9% na comparação anual, mesmo com o preço em dólar praticamente estável. A melhora de precificação internacional existiu. Ela simplesmente sumiu na conversão para reais”, avalia Rhuan Palma, especialista em investimentos.
A Klabin (KLBN11), para os analistas, mostra o problema com ainda mais precisão. A empresa vendeu 12% mais no trimestre, mas a receita líquida subiu apenas 2% e o período terminou com prejuízo de R$ 497 milhões, revertendo o lucro de R$ 446 milhões de um ano antes.
Dados divulgados ao mercado pela companhia mostram que o câmbio retirou R$ 215 milhões diretamente do Ebitda ajustado, valor equivalente a toda a alta de custos no mesmo período. O preço líquido da celulose recuou 12% em reais, de R$ 3.994 para R$ 3.515 por tonelada.
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a diferença entre os resultados das exportadoras também passou pelo nível de proteção cambial adotado por cada companhia.
“Empresas menos preparadas para fazer proteção cambial, seja por meio de hedge [proteção que busca diminuir os efeitos da volatilidade do mercado sobre seus ativos] ou compra de dólar futuro, sentiram mais os efeitos da valorização do real”, afirma.
Segundo ele, companhias mais alavancadas em moeda estrangeira ou com estratégias estruturadas de cobertura cambial viveram uma experiência diferente. O dólar mais fraco gerou ganhos contábeis sobre dívidas em dólar e operações com derivativos, ou seja, contratos financeiros cujo valor deriva de um ativo subjacente, melhorando o resultado financeiro mesmo quando a operação exportadora sofria.
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Ao mesmo tempo, a valorização do real pode gerar ganhos contábeis em empresas endividadas em dólar.
“Quando o dólar cai, o valor da dívida em moeda estrangeira, convertido para reais, diminui, melhorando o resultado financeiro. Mas isso não significa, necessariamente, melhora operacional. Por isso, essa análise precisa ser feita com cuidado”, explica o professor.
Empresas internacionalizadas sentiram menos
Nos frigoríficos, a JBS (JBSS3) atingiu receita líquida consolidada de US$ 21,6 bilhões no 1T26, superando projeções em praticamente todas as divisões. Mesmo assim, os estrategistas observam que o lucro encolheu pela metade, afetado pelo custo do gado nos Estados Unidos e pelo câmbio desfavorável na divisão australiana.
Na agricultura, a SLC Agrícola (SLCE3) registrou queda de 2,7% na receita líquida, recuo de 26,3% no Ebitda ajustado e compressão de margem de 40,5% para 30,7%, num trimestre que reuniu câmbio desfavorável para a empresa, preços agrícolas mais fracos e custos elevados.
Segundo Leonardo Andreolli, especialista em investimentos da Hike Capital, a queda do dólar afetou mais do que a fotografia contábil das exportadoras no 1T26.
Em companhias com receita em moeda estrangeira e custos concentrados no Brasil, a conversão cambial menor reduziu margem operacional, geração de caixa e espaço para distribuição de dividendos. A Klabin, por exemplo, encerrou o período com prejuízo e fluxo de caixa livre negativo, enquanto a Suzano registrou queda na receita e no Ebitda.
“Em empresas mais dolarizadas e diversificadas geograficamente, como JBS e MBRF (MBRF3), o efeito tende a ser mais diluído, porque parte relevante da receita, custos e operações já está fora do Brasil”, afirma.
Andreolli cita ainda a Embraer (EMBJ3) como exemplo de proteção natural, já que a fabricante vende em dólar e terminou o 1T26 com carteira de pedidos recorde de US$ 32,1 bilhões, fator que aumenta a previsibilidade de receita e reduz a dependência das oscilações cambiais de curto prazo.
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A WEG (WEGE3) e a Embraer sentiram menos os efeitos do câmbio por manterem operações globais e parte dos custos em dólar, explicam os especialistas. A WEG reportou receita operacional líquida de R$ 9,46 bilhões, recuo de 6,1% no ano, mas manteve margem Ebitda em 22,2%, o que indica disciplina operacional.
“O padrão se repete em todos esses casos. O problema não está na operação, que seguiu firme. Está na conversão”, afirma Palma.
A Embraer, por sua vez, registrou receita recorde no 1T26, com margem antes de juros e impostos (Ebit) ajustada maior na comparação anual. Já a Vale (VALE3) opera com moeda funcional em dólar, de modo que preço do minério, volume e custo pesam mais do que a conversão cambial isolada. A mineradora reportou Ebitda de US$ 3,9 bilhões e fluxo de caixa livre recorrente de US$ 813 milhões no período.
“Por isso, o efeito do câmbio aparece menos na receita reportada do que em empresas que divulgam balanços integralmente em reais. Ainda assim, a valorização do real pode reduzir a conversão dos dividendos para o investidor brasileiro e elevar parte dos custos locais da companhia”, explica Santos Filho.
Qual empresa exportadora é aconselhável investir com o dólar em queda?
Andreolli, da Hike Capital, detalha quais nomes ainda merecem atenção e quais pedem mais cuidado. “As exportadoras que ainda merecem atenção são aquelas com balanço forte, diversificação geográfica, hedge natural e menor dependência de uma única commodity“, afirma.
Na lista da gestora de investimentos, a Embraer segue como uma das mais interessantes, por reunir carteira de pedidos recorde, receita em dólar, demanda global e uma tese menos presa ao ciclo de commodities.
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JBS e Minerva Foods (BEEF3) também carregam proteção maior pela diversificação operacional, mas exigem acompanhamento de margem, alavancagem e execução. A Vale, segundo ele, pode continuar gerando caixa, mas a tese depende muito mais do preço do minério de ferro e da demanda chinesa do que do câmbio em si.
Suzano, Klabin, SLC Agrícola e outras empresas expostas a commodities agrícolas ou celulose pedem mais cautela, por combinarem real valorizado, preços internacionais sob pressão, investimentos relevantes e maior sensibilidade de margem.
O que esperar em 2026
O câmbio atual ainda não inviabiliza as exportadoras brasileiras, mas já tira conforto de quem se acostumou a operar com dólar mais alto, segundo Bruno Perri, economista-chefe e co-fundador da Forum Investimentos, avalia que o patamar próximo de R$ 5,00 não compromete a competitividade de forma generalizada. A questão, para ele, é outra.
“O ponto não é ficar inviável, mas sim perder margem de rentabilidade”, diz. Muitas empresas estruturaram expectativas, custos e modelos de margem com um dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,70. Com o real mais valorizado, Perri avisa que essas premissas precisam ser revisadas.
As projeções para os próximos trimestres já refletem esse ajuste. Rhuan Palma aponta que o câmbio foi a principal variável a derrubar resultados abaixo do consenso no primeiro trimestre, e que analistas trabalham com revisões caso o dólar permaneça próximo de R$ 5.
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A projeção de R$ 5,30 por dólar ao fim de 2026 já carrega viés de baixa. O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com expectativas do mercado financeiro, apontou recuo na estimativa para R$ 5,20.
“Com essa perspectiva, empresas que estruturaram seus guidances com câmbio mais próximo de R$ 5,50 precisarão recalibrar estimativas de receita, margem e geração de caixa”, afirma Palma. “Para 2026, as projeções mudam, principalmente se o dólar permanecer na faixa entre R$ 4,90 e R$ 5,10. Nesse cenário, muitas empresas terão de rever políticas de preço e estratégias de rentabilidade”, completa Santos Filho, da ESPM.