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Os fatores que abalaram os mercados globais e levaram o dólar a quase R$ 5,90

Com o receio de uma recessão nos EUA no radar, a moeda chegou a bater o maior valor desde outubro de 2020

Por Murilo Melo e Beatriz Rocha

05/08/2024 | 13:29 Atualização: 05/08/2024 | 17:52

Alta do dólar é uma das consequências do aperto monetário nos EUA. (Foto: Envato)
Alta do dólar é uma das consequências do aperto monetário nos EUA. (Foto: Envato)

O dólar fechou em alta nesta segunda-feira (5), terminando o pregão em valorização de 0,56% a R$ 5,7414. Com a alta volatilidade, a moeda chegou a bater R$ 5,86 hoje, o maior valor registrado desde outubro de 2020. Enquanto isso, a Bolsa brasileira encerrou em queda de 0,46%, aos 125.269,54 pontos nesta tarde.

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Os mercados globais começaram o dia sob pressão devido à desaceleração da maior economia do mundo. A Bolsa do Japão despencou mais de 12%, registrando seu pior desempenho em um único dia em 37 anos. Em determinado momento, a queda nas ações acionou o mecanismo de “disjuntor” — o circuit breaker — que interrompe as negociações para permitir que os mercados digiram grandes flutuações.

O contexto de toda essa situação é o receio de uma recessão na economia americana, segundo os analistas financeiros. Na sexta-feira (2), os dados de emprego nos Estados Unidos indicaram a criação de 114 mil vagas em julho. O resultado ficou abaixo do mínimo das expectativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast, que variavam de 135 mil a 225 mil vagas, com uma mediana de 180 mil. A taxa de desemprego subiu, o salário médio por hora aumentou menos do que o esperado e os dados de junho e maio foram revisados para baixo.

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Diante desses números, a ferramenta FedWatch da CME passou a mostrar que o mercado precifica em 98,5% o corte na taxa de juros dos EUA de 0,50 ponto porcentual em setembro, indo de 5,25% a 5,50% para 4,75% a 5%. Há um mês, apenas 5% do mercado esperava por esse movimento. Para última reunião do ano, o consenso do dia 5 de julho apontava para o fed funds entre 4,75% e 5%. Hoje o mercado estima a taxa entre 4% e 4,25%.

Para se ter uma ideia, este momento de “pânico” nos mercados globais é o maior desde o anúncio do início da pandemia em março de 2020. Isso porque o VIX (Volatility Index em inglês, mais conhecido como “índice do medo”), calculado com base no preço de mercado para opções no S&P 500, subiu 59,38%, a 37,28 pontos. Da pandemia para cá, o índice operava abaixo de 20 pontos.

Dólar alto: outros dois fatores abalam os mercados globais

Além dos temores de recessão nos Estados Unidos, outro fator tem impactado os mercados financeiros globais: o desmonte das operações de carry trade. Essa estratégia, onde investidores aproveitam o diferencial de juros entre diferentes economias, transformou-se em uma derrocada que abala mercados ao redor do mundo, segundo Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master. “Há medo do desmonte do chamado carry trade em relação a outras moedas [quando o investidor aproveita diferenciais de taxas de juros entre duas moedas para obter lucro] e a ‘bolha Tech’ — que se brinca que só dá para dizer que é bolha depois que estoura e agora está ficando com uma cara de que está estourando”, diz.

Outro elemento que contribui para a volatilidade do dólar é a baixa liquidez característica do mês de agosto, período de férias no hemisfério norte, conforme a Bloomberg. O iene japonês continuou sua forte apreciação, acompanhado pelo yuan chinês, enquanto o peso mexicano sofreu uma desvalorização acentuada. Os investidores estão desfazendo posições que se beneficiavam dos juros extremamente baixos nas duas potências asiáticas para financiar apostas em países com rendimentos mais elevados, como México e Brasil.

O real também registrou queda, chegando a R$ 5,86 na máxima intradiária até então. Até mesmo moedas de países desenvolvidos, como a Austrália, alvo de apostas de carry trade menos arriscadas, estão sendo afetadas. Japão e China, os dois maiores detentores externos de dívida do governo americano e grandes investidores globais, são atraídos por juros mais altos em outras economias.

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O fortalecimento repentino de suas moedas coincide com uma aversão a ativos de risco, como ações e criptomoedas, diante de receios de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) está demorando demais para cortar juros, ameaçando uma desaceleração mais acentuada da economia americana.

Para que o carry trade seja lucrativo, é ideal que a moeda que financia a operação, como o iene, se desvalorize, enquanto a moeda em que o investidor está comprado, como o real, se valorize. Além disso, a volatilidade tende a desencorajar esse tipo de estratégia. O ambiente atual é desfavorável a essas condições.

Além dos receios de desaceleração nos EUA, os volumes baixos de negociação durante o verão no hemisfério norte também contribuem para a volatilidade, conforme informações da Bloomberg.

A estratégia de carry trade financiada em iene foi uma das mais populares entre investidores em mercados emergentes quando a volatilidade estava baixa e havia a expectativa de que a política monetária do Japão permaneceria “ultradovish” (com juros negativos ou muito baixos). Contudo, o Banco do Japão, além de realizar intervenções para fortalecer o câmbio, aumentou os juros pela segunda vez em sua última reunião e sinalizou a possibilidade de novos aumentos. O aumento de juros no Japão está alterando o cenário, marcando o fim do período de dinheiro barato.

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Na sexta-feira anterior, o dólar havia caído 0,45%, sendo cotada a R$ 5,7091. Com isso, acumulou uma alta de 0,91% na semana, um ganho de 0,97% no mês e uma alta de 17,65% no ano.

*Com informações de Janize Colaço e do Broadcast

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