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Petróleo e Petrobras: por que a operação dos EUA na Venezuela derrubou ações da estatal e impulsionou petroleiras dos EUA

Ações de petroleiras dos EUA dispararam na segunda e devolveram ganhos hoje. Mercado avalia eventual reestruturação do setor petrolífero venezuelano pelos EUA após prisão de Maduro

Por Daniel Rocha

06/01/2026 | 13:19 Atualização: 06/01/2026 | 19:19

Ações de petroleiras dos EUA avançam com possível exploração de reservas da Venezuela (Foto: Adobe Stock)
Ações de petroleiras dos EUA avançam com possível exploração de reservas da Venezuela (Foto: Adobe Stock)

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A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela surpreendeu o mercado internacional. Em poucas horas, tropas americanas bombardearam Caracas, capital do país, e capturaram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob a justificativa de que o líder venezuelano teria conspirado para o nacorretorismo. A ação desencadeou uma série de dúvidas no mercado quanto aos desdobramentos da ofensiva e seus impactos sobre a oferta global de petróleo.

A principal incerteza está na possibilidade de a Venezuela voltar a ter protagonismo no mercado internacional caso o governo americano reestruture o setor energético do país. A Venezuela tem uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, com 303,8 bilhões de barris em reservas comprovadas de petróleo. Apesar disso, a sua produção permanece muito abaixo da sua capacidade. Em 2020, o país produziu cerca de 600 mil barris por dia, contra 3,3 milhões de barris em 2005.

A diferença reflete os efeitos da crise econômica e humanitária que o país enfrentou ao longo dos últimos 20 anos. O declínio da produção venezuelana foi compensado pelos demais membros pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que mantêm estável, desde 2005, a produção de petróleo em torno de 35 milhões de barris por dia.

Mas, segundo a Genial Investimentos, uma eventual retomada de produção da Venezuela para os mesmos níveis de 2005 poderá alterar a estrutura dessa dinâmica. “A Venezuela carrega um potencial singular de reintroduzir, ao longo dos próximos anos, um volume relevante de oferta estrutural no mercado internacional, alterando o equilíbrio hoje sustentado pela OPEP e, por extensão, os mecanismos tradicionais de controle de preços”, disse a corretora em relatório.

De início, o risco contaminou o mercado na sessão de segunda-feira (5). Pela manhã, os contratos futuros da commodity chegaram a operar em baixa na madrugada em meio a preocupações sobre excesso de oferta no mercado internacional. Ao longo do dia, no entanto, conseguiram reverter as perdas em ganhos com a leitura mais realista sobre o cenário. 

Nesta terça. 6, os contratos futuros de petróleo fecharam em queda, após operarem em elevada volatilidade ao longo de todo o pregão. O movimento refletiu a combinação entre a percepção de oferta global abundante e a incerteza dos investidores quanto aos desdobramentos envolvendo a Venezuela, além de sinais recentes de política de preços de grandes produtores.

O petróleo WTI para fevereiro negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex) fechou em queda de 2,04% (US$ 1,19), a US$ 57,13 o barril. Já o Brent para março, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), caiu 1,72% (US$ 1,06), a US$ 60,70 o barril. Analistas do ING afirmam que os acontecimentos recentes na Venezuela representam risco adicional de queda para a oferta no curto prazo e ressaltam que qualquer potencial aumento na produção dependerá de investimentos significativos no setor de energia do país.  

Na mesma linha, a Pepperstone avaliou que o mercado segue cético quanto a uma recuperação rápida da produção venezuelana, diante do estado precário da infraestrutura energética local e da necessidade de dezenas de bilhões de dólares em investimentos. Para a corretora australiana, qualquer aumento relevante de oferta é uma “história para um horizonte bem mais distante” e não altera, por ora, a perspectiva para o mercado global de petróleo. Mais cedo, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que há “muito petróleo para explorar” e que isso tende a pressionar os preços da commodity para baixo. Segundo ele, o governo americano deve se reunir com executivos de empresas petrolíferas, em meio a discussões sobre o futuro da produção venezuelana após a deposição de Nicolás Maduro.

As petroleiras brasileiras acabaram o pregão em queda. As ações ordinárias e preferenciais da Petrobras (PETR3;PETR4) recuaram 1,92% e 1,866%, respectivamente. O comportamento dos papéis foi visto como inadequado aos fundamentos da estatal. Os analistas avaliam que a Petrobras possui um custo de extração competitivo, o que viabiliza a geração de caixa mesmo em cenários de preços baixos do petróleo. 

Já os papéis da Brava (BRAV3), que caíram 5,76% na sessão de ontem, encerraram estáveis. A companhia foi apontada com a mais vulnerável em um cenário de aumento da oferta de petróleo. “A empresa é mais sensível a uma queda no Brent, com impacto de cerca de seis pontos porcentuais a cada US$ 5 de queda no preço”, apontaram os analista da XP que citaram maior alavancagem operacional e financeira em comparação a outros pares.  

Na contramão do setor brasileiro, as empresas americanas Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips ganharam, juntas, na segunda, cerca de US$ 31 bilhões em valor de mercado na bolsa de Nova York com a sinalização do presidente norte-americano Donald Trump de explorar a indústria de petróleo da Venezuela. Nesta terça as ações das petroleiras devolveram os ganhos, acompanhando a queda do petróleo hoje: a Exxon Mobil caiu 3,44%, enquanto a Chevron recuou 4,46% e a ConocoPhillips perdeu 2,14%. 

Foi um movimento de correção das petroleiras, em um dia de ganhos em Wall Street. O Dow Jones subiu 0,99%, aos 49.462,08 pontos, enquanto o S&P 500 encerrou com ganho de 0,62%, aos 6.944,82 pontos e o Nasdaq teve avanço de 0,65%, aos 23.547,17 pontos. Os desdobramentos da mudança no regime venezuelano seguem observados, especialmente
para os setores de defesa e petróleo, que hoje contaram com algumas quedas, devolvendo parte dos ganhos da
sessão anterior.

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Com relação à Petrobras, “no longo prazo, a possibilidade de ingresso de empresas americanas na Venezuela é um aspecto de pressão sobre margens, com o potencial aumento de oferta global tendo em vista as reservas do país. É um petróleo pesado o venezuelano, mas as refinarias americanas têm como processá-lo. Ainda que isso venha a acontecer no futuro o reingresso de petrolíferas americanas; hoje apenas uma delas, a Chevron, opera na Venezuela, vai levar tempo e consumir muito investimento”, aponta Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos.

Nesta terça-feira, problemas operacionais na Margem Equatorial contribuíram para manter as ações da Petrobras na defensiva, em sessão negativa também para os preços do petróleo em Londres e Nova York. Pesaram os problemas em linhas de sonda na Margem Equatorial, confirmados oficialmente pela companhia à tarde, aponta o analista Pedro Galdi, da AGF. De acordo com fontes da empresa sob condição de anonimato, será preciso trocar a vedação de uma das juntas, que resultou em perda de fluido das linhas. Segundo as mesmas fontes, a retomada da perfuração no campo de Morpho, na Margem Equatorial, deve levar cerca de 15 dias. A estatal informou nesta tarde que no domingo, 4, foi identificada perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares que conectam a sonda de perfuração ODN II, que explora o poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira, localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do estado do Amapá.

Reestruturação da Venezuela é incerta

A reestruturação do setor de óleo e gás da Venezuela não será uma tarefa simples para o governo americano e nem deve ocorrer no curto prazo. Segundo Ricardo França, analista da Ágora Investimentos, o processo depende tanto de habilidade política da região quanto de volumes expressivos de investimentos estrangeiros e, caso aconteça, terá seus primeiros efeitos no médio prazo. “Não será algo que vai acontecer da noite para o dia”, disse o especialista.

Além disso, a Opep tem adotado medidas para preservar a estabilidade dos preços da commodity. No domingo (4), quando o mundo repercutia a invasão dos EUA na Venezuela, os membros da organização decidiram pausar o incremento de produção de janeiro, fevereiro e março. A decisão ajudou a aliviar os ânimos dos investidores sobre o setor.

Ainda assim, o cenário permanece incerto. Com a captura de Maduro, o presidente Donald Trump disse que os Estados Unidos irão governar a Venezuela temporariamente até que ocorra uma “transição segura”. Segundo a Bloomberg, Trump pediu ao secretário de Estado Marco Rubio que liderasse o processo para implementar reformas econômicas e políticas na Venezuela.

Enquanto nada de concreto surge, a cautela parece ser a postura mais adequada aos investidores enquanto aguardam os próximos capítulos dessa crise. “Nunca se sabe qual vai ser o desenrolar. Há essa incerteza de ações do presidente e do governo norte-americano”, afirmou Guilherme Marques, diretor global de derivativos listados e câmbio na Hedgepoint Global Markets, ao Broadcast.

Com informações do Broadcast

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