Com juros em queda e eleição no horizonte, ações pagadoras de dividendos voltam ao centro das estratégias para 2026 (Foto: Adobe Stock)
O ano de 2026 começou com um ambiente marcado por volatilidade nos mercados financeiros globais e domésticos. E em períodos de maior oscilação, os setores perenes da Bolsa, como bancos, elétricas, seguros, saneamento e telecomunicações, costumam ganhar destaque como alternativas defensivas. A previsibilidade das receitas e a resiliência dos negócios favorecem a distribuição recorrente de dividendos.
No Brasil, o calendário eleitoral de outubro, que inclui a disputa presidencial e as eleições para governadores, deputados e senadores, adiciona incerteza à Bolsa de Valores. O cenário é reforçado por juros em queda, porém ainda em dois dígitos, e por mudanças tributárias que seguem no radar dos investidores.
Com as transformações recentes do cenário macroeconômico e a forte antecipação de proventos registrada em 2025, a pergunta se torna inevitável. Esses setores seguem atrativos para quem buscarenda passiva em 2026 ou perderam espaço? Quais ações despontam como as mais indicadas dentro destes segmentos perenes?
Para responder, o E-Investidor ouviu analistas e reuniu oito ações recomendadas para investidores focados em dividendos em 2026 nos setores perenes.
Mesmo com um 2026 mais ruidoso, marcado por volatilidade política, juros em dois dígitos, risco fiscal e mudanças tributárias, os setores perenes seguem como pilares resilientes para estratégias de renda, na avaliação de Regis Chinchila, head de Research da Terra Investimentos.
Segundo o analista, bancos, elétricas, saneamento, seguros e telecomunicações concentram atributos difíceis de replicar, como demanda recorrente, barreiras de entrada, contratos de longo prazo, previsibilidade de caixa e capacidade de repasse da inflação. “Esses atributos fazem com que, mesmo em ambientes mais instáveis, essas empresas continuem funcionando como portos seguros da Bolsa, ainda que com ajustes pontuais de valuation (valor do ativo) e de política de remuneração”, afirma.
Após a forte antecipação de proventos em 2025, Chinchila não vê um esvaziamento do pagamento ao acionista em 2026, mas uma mudança na composição. O cenário inclui dividendos mais lineares, redução gradual do uso de juros sobre capital próprio (JCP) em algumas companhias e maior espaço para recompras de ações, bonificações e redução de capital.
Para o investidor focado em renda passiva, a geração de caixa desses setores permanece robusta e deve sustentar uma remuneração recorrente, ainda que menos concentrada apenas em dividendos, segundo ele.
As 4 Top Picks do mercado
O setor de seguros assume a liderança entre os setores perenes, concentrando as principais recomendações dos analistas.
A atratividade está na capacidade de gerar resultados tanto em ambientes de juros altos, por meio do resultado financeiro, quanto em ciclos de juros mais baixos, via desempenho operacional. Soma-se a isso um modelo de negócios menos intensivo em investimentos e capital físico, além de menor volatilidade operacional quando comparado a bancos e utilities (serviços essenciais, como saneamento e energia), mais expostos ao endividamento.
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Em geral, as seguradoras operam com payout(porcentagem do lucro distribuído aos acionistas) elevado que costuma superar 80%.
BB Seguridade
O CFO da BB Seguridade (BBSE3), Rafael Sperendio, afirmou que a companhia não espera estabilidade nem crescimento do lucro em 2026. (Imagem: Adobe Stock)
Nos setores perenes, a BB Seguridade(BBSE3) aparece como a ação mais recomendada pelos analistas para dividendos em 2026.
Victor Bueno, sócio e analista da Nord Research, explica que a companhia funciona como um pêndulo na Bolsa. Em cenários macroeconômicos mais estressados, com juros elevados, o desempenho é sustentado pelo resultado financeiro. Em ambientes mais favoráveis, o crescimento vem do operacional, com maior emissão de prêmios e seguros, impactando diretamente os resultados.
Para 2026, no entanto, pode haver um descasamento. Com a queda projetada da Selic, de 15% para 12,25% até o fim do ano, segundo o Boletim Focus do Banco Central (BC), a BB Seguridade tende a sentir primeiro a piora do resultado financeiro, enquanto a melhora operacional ainda demora a aparecer nas receitas. “Há um descasamento dessa melhora, mas no geral, a tendência é de manutenção de bons resultados em 2026 e no longo prazo e dividend yield (rendimento de dividendos) superior até dos bancos”, afirma Bueno.
Milton Rabelo, analista da VG Research, também projeta um ano mais desafiador e lembra que cada corte de um ponto porcentual na taxa Selic pode reduzir cerca de R$ 100 milhões do resultado financeiro da companhia. Ainda assim, ele ressalta que os resultados de BB Seguridade são mais resilientes do que os do Banco do Brasil (BBAS3), já que a maior parte das receitas vem dos segmentos de seguros, previdênciae corretagem, menos sensíveis à inadimplência e ao ciclo de crédito.
Mesmo diante dos desafios, os analistas avaliam que a BB Seguridade mantém fundamentos sólidos e segue como uma excelente pagadora de dividendos.
Rabelo destaca ainda o desconto nos múltiplos. A ação, que historicamente negocia a um preço sobre lucro (P/L) médio de 9,29 vezes, tem P/L projetado de 7,8 para 2026. “Eventualmente, os múltiplos irão convergir à média, o que tende a gerar valorização, ainda que não no curto prazo”, afirma.
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Entre os analistas consultados, cinco recomendam a compra de BB Seguridade, com dividend yield projetado para 2026 entre 9,72% e 12%. O preço-teto sugerido varia de R$ 38 a R$ 43, como margem de segurança ao investidor.
Caixa Seguridade
Na segunda posição, com quatro recomendações, aparece a Caixa Seguridade (CXSE3). Segundo Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, a companhia está fortemente exposta ao segmento imobiliário, já que grande parte dos financiamentos concedidos pela Caixa Econômica Federal (CEF) é segurada pela Caixa Seguridade, em contratos de longo prazo que costumam chegar a décadas.
“Isso garante uma previsibilidade de receita relevante para a empresa, que ainda paga dividendos trimestralmente, ampliando a recorrência de renda passiva aos acionistas”, afirma Oliveira.
Nos pontos de atenção, o analista lembra que já houve atritos entre a controladora CEF e a subsidiária no passado. “Mas nada que afete de forma substancial os resultados da seguradora”, ressalva.
Para Sergio Biz, sócio e analista do GuiaInvest, essa previsibilidade explica por que a ação negocia a múltiplos mais elevados. Atualmente, a CXSE3 é negociada a um preço sobre lucro de 11,07 vezes, acima dos 7,95 da BB Seguridade. “O negócio imobiliário tem menos risco do que o agronegócio, ao qual a BB Seguridade está exposta. Ainda assim, o dividend yield de CXSE3 é atrativo, considerando a qualidade e previsibilidade da empresa”, defende.
Biz projeta que a Caixa Seguridade distribua entre R$ 1,30 e R$ 1,35 por ação em dividendos em 2026, mas destaca que a margem de segurança para o investidor é menor do que na BB Seguridade.
Sobre tributação de dividendos, Oliveira afirma não ver impacto relevante. “As seguradoras tendem a seguir como pagadoras generosas, porque as controladoras dependem desses recursos para financiar suas operações”, avalia. Ele lembra ainda que o Brasil já teve tributação sobre dividendos no passado, período em que a estratégia de renda passiva ganhou força, o que reforça sua viabilidade no longo prazo.
Axia Energia
Torres de transmissão de energia; Axia (AXIA3) se destaca entre as boas pagadoras de dividendos em 2026. (Foto: Adobe Stock)
No setor elétrico, a Axia Energia (AXIA3), antiga Eletrobras, se destaca entre as recomendações. Segundo Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, a tese para dividendos está baseada na simplificação societária, em desinvestimentos relevantes e na expansão do portfólio de transmissão.
“Os resultados IFRS (normas contábeis globais) recentes foram impactados por efeitos contábeis no caixa, mas o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado e a geração operacional seguem fortes, abrindo espaço para maiores distribuições de proventos mais à frente”, afirma Simão.
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Na avaliação do analista, a companhia ainda negocia a um patamar atrativo e tem potencial relevante de entrega no período pós-privatização. A Axia também foi pioneira em um novo formato de remuneração ao acionista, por meio da bonificação de ações recompráveis.
No setor de saneamento, a Sanepar(SAPR11) aparece como alternativa para uma posição mais defensiva em carteiras de renda, segundo Aurélio Sales, analista da VG Research.
Sales avalia que os dividendos devem permanecer moderados, não por questões tributárias, mas em função do novo marco regulatório do saneamento. As metas de universalização tendem a exigir uma postura mais conservadora na alocação de capital, com prioridade para planos de expansão e equilíbrio financeiro. “Não espero uma redução abrupta, mas também não se trata de uma forte pagadora no curto prazo”, afirma.
Uma pimentinha
Simão aponta o BTG Pactual (BPAC11) como opção para combinar crescimento e dividendos, apoiada em retorno sobre o patrimônio (ROE) elevado e capital eficiente. “O dividendo cresce junto com o lucro, sem pressão regulatória relevante”, afirma.
O analista estima dividend yield entre 3% e 4% em 2026, com preço de compra de até R$ 55 e potencial de valorização até R$ 65.