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Investimentos

Crise no BRB muda a percepção de risco e traz alerta para investidores; veja o que fazer

Investigação sobre créditos do Banco Master e pressão por aporte do Governo do Distrito Federal mudam percepção de risco da estatal; BRB diz que possui suficiência patrimonial e apresenta plano de recomposição de capital

Por Daniel Rocha

23/02/2026 | 5:30 Atualização: 22/02/2026 | 22:55

BRB corre risco de ser liquidado após comprar R$ 12 bilhões de crédito podres do Master (Foto: Adobe Stock)
BRB corre risco de ser liquidado após comprar R$ 12 bilhões de crédito podres do Master (Foto: Adobe Stock)

A crise de liquidez do Banco de Brasília (BRB), causada pela compra de R$ 12 bilhões em créditos podres do Banco Master, exige atenção dos investidores quanto à capacidade da estatal de absorver o impacto financeiro desta operação. No início de fevereiro, o banco público entregou ao Banco Central (BC) um plano que inclui uma série de ações preventivas de recomposição do seu capital. As medidas deverão ser implementadas nos próximos 180 dias, caso seja comprovada a necessidade de um socorro financeiro.

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Os esforços, porém, não foram suficientes para mudar a percepção de risco dos ativos ligados ao BRB. Apenas em 2026, as ações da estatal (BSLI3) acumulam queda de 20,5%. O desempenho vai na contramão do Ibovespa, principal índice acionário da B3, que avança 16,82% no mesmo período, impulsionado pela entrada massiva do capital gringo.

Procurado, o Banco de Brasília diz que possui solidez financeira e mecanismos para iniciar o processo de venda dos ativos recuperados junto ao Banco Master, medida que, segundo a companhia, contribuirá para o fortalecimento adicional da posição financeira do grupo. A estatal afirma ainda que vem adotando iniciativas de governança e controles internos que buscam preservar a confiança de clientes e parceiros.

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O real tamanho desse rombo financeiro ainda é desconhecido. O BC e a auditoria independente da Machado Meyer, com suporte técnico da Kroll, trabalham para quantificar o prejuízo, mas não há data oficial para a divulgação completa do relatório. Segundo Fábio Sobreira, analista CNPI-P da Rocha Opções de Investimentos, caso seja comprovado um prejuízo na ordem de R$ 12 bilhões, o banco público não teria estrutura financeira para absorver tal impacto.

O valor, segundo ele, equivale a três vezes o patrimônio líquido da instituição e aproximadamente 15 anos de geração de lucro, o que torna a recuperação do BRB ainda mais desafiadora. “O investidor que aguarda o desfecho está exposto a dois cenários binários: a intervenção direta (risco de perda total caso evolua para uma liquidação extrajudicial) ou um aporte bilionário do GDF que resultaria em uma diluição massiva dos minoritários para salvar a operação. Não há margem de segurança que justifique o risco neste momento”, diz o especialista.

O BRB ainda não divulgou os resultados financeiros referentes ao terceiro e ao quarto trimestre de 2025. A data limite para a divulgação é 31 de março. No primeiro semestre do ano passado, o lucro líquido recorrente do banco somou R$ 518 milhões, uma alta de 461,6% em comparação ao mesmo período do ano passado, com retorno sobre patrimônio líquido médio (ROAE) de 21,8%.

Apesar desse histórico, Enrico Cozzolino, CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners, avalia que os próximos resultados podem trazer um cenário ainda mais desafiador para a companhia. “A orientação é sempre alocar o capital em ações que apresentem modelos de negócio previsíveis, com bom histórico de governança, compliance e entrega de resultados”, diz.

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Já para quem possui Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), Letras de Crédito Imobiliários (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) do banco, a situação é um pouco mais confortável. Se houver recuperação da estatal, o pagamento dos títulos públicos será realizado dentro do prazo previsto de vencimento. Caso contrário, o BRB poderia sofrer uma intervenção ou liquidação do Banco Central. Nesse caso, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) será acionado para o pagamento de garantias.

Pelas regras atuais do fundo garantidor, os CDBs, LCIs e LCAs contam com essa cobertura que assegura o ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF em aplicações. A cobertura inclui tanto o valor nominal quanto os rendimentos alcançados com o investimento. Para quem preferir não estar exposto a esse risco, há a possibilidade de negociar os papéis do BRB no mercado secundário.

A vantagem dessa saída, no entanto, depende da realidade de cada investidor. Se a aplicação estiver dentro do nível de cobertura do FGC, Guilherme Almeida, head de Renda Fixa da Suno Research, explica que aguardar os próximos capítulos dessa novela pode ser mais vantajoso do que se desfazer da posição.

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“No pior dos cenários, os investidores serão ressarcidos pela garantia do FGC”, diz Almeida. “Para os investidores com volumes acima de R$ 250 mil e estão desconfortáveis com o risco, a venda parcial do título pode ser interessante para se adequarem às regras da cobertura do FGC e carregar o papel até o seu vencimento”, acrescenta. 

BRB pode ser liquidado ou sofrer uma intervenção do Banco Central?

Embora seja uma instituição pública, o Banco de Brasília (BRB) não está imune ao risco de sofrer intervenção ou ser liquidado pelo Banco Central caso não encontre uma solução menos danosa para sua crise de liquidez. Segundo Adilson Bolico, sócio do escritório Mortari Bolico Advogados, por exercer o papel de autoridade máxima do sistema financeiro nacional, o BC tem autonomia para adotar medidas extremas sempre que as tentativas de recuperação não trouxerem os resultados esperados.

Nesse caso, o processo segue o mesmo trâmite ao de outras instituições financeiras privadas, com exceção dos bancos controlados pelo governo federal. “Se o banco público for controlado pelo Governo Federal, em tese, só poderá ser liquidado caso seja determinado por lei e, antes disso, o Tesouro Nacional provavelmente seria chamado para socorrê-lo”, explica Bolico.

No caso do BRB, a percepção entre os especialistas é de que o Governo do Distrito Federal buscará alternativas para preservar a instituição e evitar uma eventual ação do BC. Ainda assim, esse cenário não deve ser totalmente descartado pelos investidores. Como mostrou o Estadão, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, exigiu do Governo do Distrito Federal prazos para um investimento de R$ 4 bilhões no banco público. Sem esse compromisso, a estatal passaria a correr o risco de sofrer uma intervenção do Banco Central, medida que pode evoluir para uma liquidação extrajudicial.

Nesse modelo, o BC atua para corrigir irregularidades e preservar o patrimônio da instituição. As ações continuam sendo negociadas na bolsa de valores, mas sujeitas às especulações do mercado sobre o futuro da companhia. Em paralelo, o FGC é acionado para assegurar o pagamento dos investidores com aplicações nos CDBs, LCIs e LCAs, dentro dos limites previstos.

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“Neste regime, um interventor, pessoa física, nomeado pelo BC assume a gestão completa da instituição, suspendendo os mandatos dos administradores originais para auditar a situação e, com base em um relatório, o Bacen decide sobre o encerramento, prorrogação, liquidação extrajudicial ou pedido de falência”, diz Andrea Sano Alencar, sócia do Efcan Advogados.

Entenda a crise do BRB

Antes da polêmica envolvendo o Master, a estatal era vista como uma instituição sólida e de baixo risco para os investidores. A percepção começou a mudar com o avanço das investigações em torno das suspeitas de crimes financeiros durante a tentativa de compra do Banco Master, em março de 2025. 

Os primeiros indícios de fraude vieram à tona com a Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro do ano passado, que resultou na prisão de Daniel Vorcaro e no afastamento de Paulo Henrique Costa da presidência da estatal. Na época, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) apontaram, pela primeira vez, a suspeita de que o BRB teria adquirido do Master cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes. 

“O BRB deixou de ser visto como baixo risco e passa a ser visto como um banco que depende de um aporte relevante e de uma reconstrução de credibilidade para voltar a um patamar de risco mais confortável”, diz Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil.

Desde então, o Banco de Brasília tenta levantar recursos e conter despesas para mitigar os eventuais prejuízos decorrentes das operações realizadas com a instituição, antes comandada por Daniel Vorcaro. Como mostrou o Estadão, a estatal reduziu 60% o orçamento com patrocínios em 2026. O BRB buscou ainda negociar, no mês passado, a venda de uma carteira de empréstimos a Estados e municípios com garantia do governo federal para os bancos Itaú e Bradesco.

O Governo do Distrito Federal (GDF), controlador do BRB, também tem sido alvo de cobranças recorrentes por aportes financeiros na estatal. Isso porque o Banco de Brasília pode sofrer uma série de restrições, como o impedimento de abrir novas agências e explorar novos negócios, impostas pelo Banco Central, caso não receba aportes financeiros até o fim de março.

Diante da pressão política, o governo do Distrito Federal encaminhou, na última sexta-feira (20), à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), um projeto de lei que autoriza esse aporte de capital no BRB. A medida, além de fortalecer a estrutura de capital da instituição financeira, deve viabilizar a ampliação da concessão de crédito, o financiamentos de projetos de infraestrutura e ofertas de produtos e de serviços à população e às empresas locais.

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Segundo o governo do Distrito Federal, com a aprovação do PL e o conjunto de ações já em curso, o BRB consolida uma estratégia robusta para garantir sua solidez de longo prazo. “A nova gestão do banco já promoveu a venda de cerca de R$ 5 bilhões em carteiras de crédito para melhorar a liquidez, negociou ativos com garantia do Tesouro junto a grandes instituições financeiras e subsidiou ações de recuperação de recursos”, destacou o GDF em nota enviada ao E-Investidor.

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