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Colunista

Entre o mercado e os púlpitos: os desafios iniciais de Flávio Bolsonaro

Pré-campanha, religião e mercado financeiro se cruzam na avaliação da força política e da capacidade de articulação do senador rumo a 2026

Por Erich Decat

26/01/2026 | 14:09 Atualização: 26/01/2026 | 19:42

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Lideranças evangélicas adotam postura cautelosa diante da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e expõem divisões no campo religioso às vésperas da disputa de 2026. (Foto: Adobe Stock)
Lideranças evangélicas adotam postura cautelosa diante da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e expõem divisões no campo religioso às vésperas da disputa de 2026. (Foto: Adobe Stock)

A pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro já começa a produzir efeitos relevantes no tabuleiro político de 2026 e a entrar, de forma crescente, no radar do mercado financeiro.

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Cada movimento do senador tem sido acompanhado com lupa por investidores, analistas e gestores, não apenas pelo potencial eleitoral em si, mas, sobretudo, como um termômetro de viabilidade política, capacidade de articulação e construção de alianças, fatores centrais para a precificação de cenários à frente.

Nesse monitoramento, o mercado busca decifrar se os passos dados nesta fase inicial da pré-campanha contribuem para ampliar a competitividade do candidato ou, ao contrário, reforçam sinais de fragilidade política e isolamento.

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A leitura predominante é menos ideológica e mais pragmática: interessa avaliar se Flávio Bolsonaro demonstra condições de organizar uma coalizão minimamente funcional, dialogar com diferentes campos do espectro político e, sobretudo, reduzir incertezas associadas a uma eventual candidatura presidencial.

É nesse contexto que ganharam destaque as últimas movimentações de lideranças evangélicas, historicamente influentes nas eleições presidenciais brasileiras. Declarações recentes, marcadas por cautela, divergências internas e, em alguns casos, críticas abertas à viabilidade eleitoral do senador, não passaram despercebidas pelos agentes do mercado.

Esse comportamento acende um sinal de alerta adicional, na medida em que expõe dificuldades de articulação justamente em um dos segmentos mais relevantes, organizados e eleitoralmente mobilizáveis do país.

O posicionamento dessas lideranças indica que a pré-campanha já opera, na prática, como um teste de estresse político. Dentro desse quadro, emerge um debate relevante na Ciência Política sobre o alcance e os limites da capacidade das lideranças religiosas de orientar o comportamento eleitoral dos evangélicos.

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A literatura discute em que medida a autoridade pastoral atua como um mecanismo efetivo de coordenação do voto ou se funciona, predominantemente, como um reforço de predisposições políticas já existentes. Essa distinção é central para interpretar o real peso político das manifestações recentes: se elas sinalizam uma perda concreta de apoio eleitoral ou se refletem, sobretudo, disputas internas de liderança e enquadramento narrativo dentro do próprio campo religioso.

Lideranças religiosas: influência e limites

Pesquisas acadêmicas mostram que evangélicos, especialmente protestantes históricos e pentecostais, apresentam um perfil de alta frequência de participação em cultos e forte engajamento comunitário.

Esse envolvimento aumentaria a dependência de informações políticas transmitidas por lideranças religiosas e tenderia a produzir maior homogeneidade eleitoral. Dentro desse contexto, cultos funcionariam, muitas vezes, como espaços informais de socialização política.

É válido destacar que, embora a legislação eleitoral proíba campanhas dentro das igrejas, pesquisas acadêmicas revelam que quase metade das lideranças evangélicas tradicionais e pentecostais admite ter apoiado candidaturas.

O ponto de destaque revelado por esses estudos é que, apesar de uma possível atuação das lideranças, a influência delas não é absoluta. É verdade que as pesquisas acadêmicas indicam que o impacto das mensagens das lideranças é maior entre fiéis que demonstram interesse por política. Por outro lado, observa-se que nem todo aquele que frequenta o culto teria interesse em temas políticos, o que reduziria o efeito da mensagem eleitoral da liderança religiosa.

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Um outro aspecto relevante. A identidade evangélica não é homogênea. Um exemplo que conversa com o contexto eleitoral: mulheres evangélicas, especialmente as que se autodeclaram pretas ou pardas e de baixa renda, apresentaram menor propensão a votar no candidato Jair Bolsonaro, em 2018, associado à extrema direita e a posicionamentos misóginos e racistas.

Por que isso importa?

Inicialmente, é válido destacar que o número de evangélicos quase triplicou nas últimas três décadas, passando de 9% em 1991 para 26,9% em 2022, consolidando-se como o grupo religioso que mais cresce no Brasil. Segundo o Censo Demográfico de 2022, esse percentual da população brasileira representa cerca de 47,4 milhões de pessoas.

Do ponto de vista da Ciência Política, parte do comportamento eleitoral desse segmento pode ser compreendida a partir do chamado voto sociológico, formulado pela Escola de Columbia.

Estudos clássicos, como The People’s Choice (1944), de Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, demonstram que o voto é fortemente influenciado por redes sociais e grupos de pertencimento, como classe, religião e território. Nessa lógica, o eleitor tende a votar como o seu grupo vota, e não apenas a partir de avaliações individuais sobre políticas públicas.

Pentecostalismo e antipetismo

Entender o peso desse segmento numa disputa eleitoral é relevante porque a literatura acadêmica mostra que o voto evangélico, especialmente o pentecostal, apresenta um padrão consistente de rejeição ao Partido dos Trabalhadores. Estudo do cientista político Victor Araújo (Pentecostalismo e antipetismo nas eleições presidenciais brasileiras) indica que o antipetismo entre pentecostais está associado, sobretudo, à resistência desse grupo a pautas morais e identitárias frequentemente vinculadas ao PT, como aborto, direitos LGBTQIA+, casamento entre pessoas do mesmo sexo e discussões de gênero nas escolas.

Os dados mostram que, entre 2002 e 2018, eleitores evangélicos pentecostais foram sistematicamente menos propensos a votar em candidatos petistas. Se pegarmos a última pesquisa da Quaest, de janeiro deste ano, verifica-se que 64% dos evangélicos desaprovam o governo Lula.

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Nesse aspecto, entendo que as lideranças religiosas podem ter um papel relevante de reforçar as predisposições políticas já existentes entre os membros desse grupo.

Uma história que antecede Bolsonaro

A mobilização do voto evangélico não é um fenômeno recente iniciado com Jair Bolsonaro. Ela remonta à eleição de 1989, quando o apoio a Fernando Collor foi motivado pelo temor de um projeto radical associado ao comunismo. Desde então, candidatos como Anthony Garotinho, Marina Silva e o próprio Bolsonaro souberam dialogar com as identidades e valores desse grupo.

Para 2026, o desafio de Flávio Bolsonaro será superar as divergências expostas publicamente por lideranças religiosas, conectadas com a dinâmica da política nacional. O voto evangélico, embora estrategicamente inclinado à direita, exige a construção de uma narrativa capaz de unir um campo que está longe de ser monolítico.

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