Com um endividamento crescente, a geradora de energia Auren (AURE3) ainda é vista como o patinho feio do setor elétrico. Sem grandes surpresas, os investidores já eram cientes que após a incorporação da AES Brasil levaria um bom tempo para a companhia reduzir a sua alavancagem — relação da dívida líquida sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) — e voltar a pagar proventos robustos. Mas será que o cenário pode melhorar diante do balanço do 4º trimestre de 2025, que vai divulgado nesta terça-feira (3), após o fechamento do mercado? O E-Investidor consultou analistas e traz as percepções.
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
No 3º trimestre do ano passado, a alavancagem da companhia chegou a 4,9 vezes dívida líquida sobre Ebitda. Embora, o setor elétrico, que precisa de alto fluxo de investimento, tolera um endividamento mais elevado, o patamar já está próximo do preocupante, segundo o mercado, o que pode pressionar rentabilidade e proventos.
De acordo com Regis Chinchila, head de research da Terra Investimentos, para empresas de geração renovável, uma alavancagem de até 3,5 vezes dívida líquida sobre Ebitda é considerada confortável. “Entre 3,5 vezes e 4,5 vezes, o nível já exige monitoramento. Acima de 4,5 vezes, a alavancagem passa a ser considerada elevada”, destaca.
Para o resultado do 4T25, que marca também o fechamento do ano fiscal, a expectativa dos analistas consultados pela reportagem ainda é de uma dívida alta, com alavancagem entre 4,5 e 5 vezes Ebitda.
Chinchila reforça que as estimativas de endividamento alto para o fim do ano passado, já consideram uma sazonalidade positiva de outubro a dezembro, com eventual redução pontual do capital de giro e uma geração operacional um pouco melhor do que o 3º trimestre de 2025.
Mesmo com melhorias no endividamento e avanços de sinergias da incorporação da AES Brasil, os analistas acreditam que em 2026 ainda não dá para esperar uma queda significativa da alavancagem da Auren.
Alguns mais otimistas começam a enxergar esse fluxo de redução de dívida em 2027. Sergio Biz, sócio e analista do GuiaInvest, destaca que a alavancagem deve começar a cair à medida que as sinergias da integração com AES Brasil se materializem e o Ebitda avance.
“Esse movimento mais intenso de redução do endividamento parece mais provável entre 2027 e 2028 e não mais em 2026”, avalia Biz.
Para o analista, uma combinação de Ebitda mais forte, redução de investimentos e gestão mais eficiente do passivo, somado a um cenário de juros mais favorável aceleraria a redução do endividamento.
Outros, como Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, são mais cautelosos. Ele lembra que os próprios executivos da Auren já sinalizaram no passado que a dívida tende a cair entre o final de 2027 e começo de 2028, mas o cenário ainda é nebuloso e depende do aumento do Ebitda ano após ano.
Publicidade
“Tem muita variável envolvida nisso, chuva, “curtailment”, eficiência operacional, disponibilidade dos seus ativos, contratos sendo fechados, valor da energia no curto e longo prazo, Selic, inflação”, enumera Oliveira, que defende que todas essas variáveis vão interferir de alguma forma na trajetória de queda do endividamento.
Contudo, Oliveira faz a ressalva de que, se as condições macroeconômicas ajudarem, a dívida da Auren deve começar a cair com mais força no primeiro semestre de 2027. “Mas se for mantida a situação atual, colocaria a expectativa de queda da alavancagem no final de 2027 ou começo de 2028”, aponta.
Victor Bueno, sócio e analista da Nord Research, tem uma visão mais pessimista e acredita que a redução do endividamento da Auren ainda vai levar um bom tempo e só vai ficar abaixo de 4 vezes Ebitda depois de 2027.
“Acho que não teremos uma grande geração de lucro e caixa, ou um incremento disso, que traga essa rápida desalavancagem para curto ou médio prazo. Vai demorar um pouco para a gente ver esse processo”, aponta Bueno.
Para o analista da Nord, com juros ainda em 15% ao ano, o custo das despesas financeiras aumenta, impactando diretamente no lucro líquido da Auren e, em consequência, nos seus proventos.
Dividendos
Mas afinal, diante desse cenário ainda nebuloso, os dividendos da Auren vão trazer surpresas agradáveis para os investidores? A resposta dos analistas é a mesma que o endividamento: ainda não, mas pode ser no longo prazo.
Entre os analistas consultados, o dividend yield (retorno em dividendos) projetado para Auren (AURE3), fica entre 1% e 3% até o fim de 2026, um patamar muito baixo considerando que a média de dividend yield da Bolsa brasileira é de 6%, critério utilizado também por grandes nomes de mercado para identificar boas pagadoras.
Publicidade
A recomendação dos analistas, no geral, é manter o papel para o longo prazo, levando em conta que mesmo com dívida alta, a geradora de energia tem bons fundamentos.
Para Chinchila, da Terra, Auren não é uma alternativa ideal para dividendos no curto prazo, por conta do dividend yield baixo, mas pode ser uma aposta interessante para o longo prazo, focada em crescimento e normalização operacional.
“Trata-se mais de um perfil de turnaround e crescimento do que de geração imediata de renda. No futuro, a Auren pode se tornar uma geradora mais consistente de caixa, dado que seus ativos são renováveis e apresentam baixo custo operacional”, defende.
Oliveira, do Vida de Acionista, acredita que a Auren via continuar decepcionando investidores no quesito dividendos ainda em 2026 e 2027. “Serão anos de vacas magras, eles vão pagar o mínimo ou algo bem pífio, porque são obrigados por lei”, comenta. Ele só acredita na retomada das proventos em 2028, com dívida mais controlada e aumento do lucro e da parcela distribuída aos acionistas (payout).
Publicidade
Para Bueno, da Nord, Auren seria escolha de longuíssimo prazo, pensando em dividendos, considerando que atualmente a ação AURE3 não está muito barata. “Não estamos falando de uma pechincha da bolsa, então não vejo um retorno satisfatório esperado para os próximos anos”, defende.
Tem outras opções?
Para quem quer dividendo rápido no curto prazo, os analistas consultados citam outras ações. Entre elas as transmissoras Isa Energia (ISAE4) e Taesa (TAEE11), que embora também enfrentam ciclos de forte investimento, têm conseguido manter um payout e dividend yield atrativo.
A geradora Engie (EGIE3) é outra que se destaca entre as recomendações. Na Terra, a preferência é pela Cemig (CMIG4) com proventos de 2 dígitos e pela Axia Energia (AXIA3), ex-Eletrobras, que, além de um perfil estável e defensivo, tem proporcionado alegrias aos investidores.
Projetos para diversificar receita
É importante lembrar que, embora a Auren seja uma geradora de energia, com boa participação na geração hídrica, a companhia também atua em fontes de energia renovável, solar e eólica.
Publicidade
Segundo os analistas consultados, há alguns projetos em andamento que podem vir a potencializar a receita, diversificando os ingressos da companhia e facilitando a redução mais acelerada do endividamento.
Biz cita o Cajuna 3, projeto de geração eólica, que deve entrar em operação no começo de 2027, com acréscimo estimado de 63 megawatts médios de garantia física.
“Em 2026, a melhora da geração de caixa tende a vir mais de ganhos de eficiência e amadurecimento de projetos já existentes do que da entrada de novos parques”, destaca o analista do GuiaInvest.
Oliveira cita a unidade eólica de Tucano, que após inspeção estrutural e substituição de algumas máquinas aumentou a sua disponibilidade. Outro ativo é Mandacaru, projeto eólico, que diante reparos, trouxa um retorno gradual significativo.
Já Chinchila, acredita que sinergias operacionais da integração com AES Brasil e dos complexos Sol de Jaíba e Sol do Piauí, fotovoltaicos, ganham destaque neste ano, com otimização de portfólios e contratos.