Como começar a investir em tempos de guerra e bolsas em queda; veja como montar sua primeira carteira
Esqueça a promessa de "dinheiro rápido": investir do zero passa por criar reserva de emergência, montar uma base sólida em renda fixa e só então avançar para ativos de maior risco
Em cenário de guerra, volatilidade global e juros elevados no Brasil, especialistas recomendam começar a investir pela renda fixa e pela reserva de emergência antes de avançar para ativos de maior risco. (Foto: Adobe Stock)
Em meio à guerra no Oriente Médio, volatilidade nas bolsas e juros ainda elevados no Brasil, cada vez mais pessoas se perguntam se este é mesmo um bom momento para começar a investir. Os especialistas acreditam que sim, desde que a primeira carteira seja construída com estratégia, proteção e consciência do próprio perfil de investidor.
Longe da promessa de “dinheiro rápido”, investir do zero com segurança passa por criar reserva de emergência, montar uma base sólida em renda fixa e só então avançar, aos poucos, para ativos de maior risco. Em um cenário incerto, o diferencial não está em ousar mais, mas em começar certo e conseguir permanecer dentro do plano.
“O maior erro costuma ser começar olhando para a rentabilidade e não para os riscos envolvidos nos investimentos nem para o próprio perfil de investidor“, afirma Henrique Soares, planejador financeiro CFP pela Planejar. Segundo ele, muita gente entra no mercado financeiro querendo ganhar dinheiro no curto prazo e acaba se frustrando na primeira queda.
A analista de renda variável da Rico, Bruna Sene, vai na mesma linha.
“Um dos maior erros é acreditar na ideia do ‘dinheiro rápido’. Esse atalho geralmente leva a decisões impulsivas, excesso de risco e frustração”, explica.
Para ela, quem constrói patrimônio de verdade segue duas bases simples, constância e disciplina.
Antes de pensar em ganhar, pense em proteger
O ponto de partida, quase unânime entre os especialistas, é a reserva de emergência. Ignorar essa etapa pode comprometer toda a estratégia. “Sem ela, qualquer oscilação vira motivo de pânico, porque o investidor pode precisar do dinheiro justamente no pior momento do mercado”, diz Sene.
Soares propõe estruturar a primeira carteira em três blocos:
Uma parte em liquidez e segurança (a reserva de emergência);
Uma parte em renda fixa para dar estabilidade;
Uma parcela menor em ativos de maior risco.
Essa construção, segundo ele, ajuda o investidor a ganhar confiança ao longo do tempo, sem depender de acertar o momento do mercado logo de cara.
Na prática, isso significa separar para a reserva de três a seis meses do custo de vida em produtos financeiros mais seguros e com liquidez diária – como títulos do Tesouro ou Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de banco com boa classificação de risco (rating) – antes de pensar em ações ou fundos imobiliários (FIIs).
O tripé que todo iniciante precisa entender
Ao montar a primeira carteira, o investidor iniciante precisa compreender o chamado tripé dos investimentos: segurança, rentabilidade e liquidez.
“Não existe investimento que entregue os três ao máximo ao mesmo tempo, sempre haverá um trade-off (troca)”, explica a analista da Rico. Se o investidor quer mais segurança, normalmente abre mão de parte da rentabilidade. Se busca retornos maiores, precisa aceitar menos segurança ou menor liquidez.
É justamente aí que entra a diversificação. Ao combinar diferentes tipos de ativos, o investidor consegue equilibrar esse tripé de acordo com seus objetivos e, principalmente, com sua tolerância emocional ao risco.
Juros altos jogam a favor do iniciante
O momento atual da economia brasileira, com juros elevados (Selic a 15% ao ano) e diante de incertezas no cenário global, pode ser visto como uma vantagem para quem está começando.
“Em cenários de juros elevados, a renda fixa já entrega um retorno interessante com baixo risco, o que naturalmente favorece uma carteira mais conservadora no início”, afirma o planejador financeiro.
Bruna Sene, da Rico, reforça que o iniciante tem a oportunidade rara de construir patrimônio com risco menor, já que a renda fixa oferece retornos atrativos e previsíveis. Isso ajuda a dar estabilidade emocional no começo, um fator muitas vezes mais importante do que o próprio retorno dos investimentos.
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Como ponto de partida, muitos especialistas sugerem algo entre 70% e 80% em renda fixa e 20% a 30% em renda variável e ativos alternativos (como criptomoedas, fundos e commodities, por exemplo).
Henrique Soares amplia um pouco essa faixa e lembra que alguns iniciantes começam até com 90% em renda fixa. Mas ambos os entrevistados reforçam que não se trata de uma regra “escrita em pedra” e, sim, de um referencial para quem ainda está se adaptando à volatilidade.
A migração para ativos mais voláteis deve ser gradual, quase como um “treino emocional”. Primeiro, produtos financeiros mais sólidos e defensivos ou ETFs (fundos negociados em bolsa) amplos, que diluem o risco. Só depois, posições mais táticas.
Em momentos de crise, onde buscar proteção?
Com conflitos geopolíticos e aumento da volatilidade nos mercados financeiros, a escolha dos ativos também pode dar prioridade a setores mais resilientes.
“Nesse momento, com a guerra no Irã, a volatilidade na curva de juros e bolsas caindo, o setor mais defensivo é o de utilities (serviços essenciais, como energia e saneamento básico)”, afirma Fernando Bresciani, analista do Andbank. Segundo ele, as empresas de energia elétrica e saneamento costumam ter bom dividend yield(rendimento de dividendos) e menor sensibilidade a choques de curto prazo.
“São ações de yield. Se há inflação, elas podem se beneficiar. E, se quiser menos risco ainda, vai para o Tesouro”, diz.
Ele também cita fundos imobiliários que pagam dividendos como alternativas para quem busca renda recorrente com volatilidade relativamente menor. Ainda assim, mesmo ativos considerados defensivos devem ocupar apenas a parcela de risco da carteira – nunca substituir a reserva ou a base de renda fixa.
Montar sozinho ou investir via fundos?
Outra dúvida comum diz respeito a decidir entre montar a própria carteira (combinando Tesouro, CDB, ETFs e fundos imobiliários) ou investir por meio de fundos. Para Henrique Soares, a decisão passa menos pelo produto e mais pela disponibilidade do investidor para acompanhar o mercado.
“Quem tem pouco tempo, menos familiaridade ou prefere delegar tende a se beneficiar mais de fundos, em que há uma gestão profissional e uma carteira já estruturada”, argumenta.
A analista da Rico acrescenta critérios objetivos que ajudam nessa escolha:
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No fim, não é uma decisão excludente. O investidor pode combinar diferentes veículos: Tesouro e CDBs como base, ETFs para diversificação simples e eficiente e fundos para áreas que exigem gestão especializada.
O segredo não está na ousadia, mas na consistência
Além da técnica, há um componente psicológico decisivo. Comparações constantes com amigos ou influenciadores podem gerar ansiedade e levar a escolhas desalinhadas com a própria realidade.
“Carteira boa não é a mais arrojada, mas a que você consegue manter sem sofrimento”, resume Bruna Sene.
Criar o hábito de investir todos os meses, ainda que com valores pequenos, costuma ser mais relevante do que tentar encontrar a estratégia perfeita logo no início. O rebalanceamento periódico também ajuda a organizar a carteira, controlar o risco e impedir que as emoções ditem as decisões.
Em última instância, ao começar a investir, a primeira carteira não deve ser construída para impressionar, mas para durar. Segurança, estratégia e constância tendem a fazer mais diferença no longo prazo do que qualquer aposta apressada em busca de ganhos rápidos.