Guerra no Oriente Médio muda rumo do dólar e pressiona o Brasil; cotação pode chegar a R$ 5,50
Escalada do conflito no Oriente Médio eleva a aversão ao risco, fortalece a moeda americana e pode reverter o fluxo estrangeiro para mercados emergentes como o Brasil
Escalada do conflito no Oriente Médio pode pressionar com mais força os mercados emergentes, como o Brasil, e reverter o fluxo de dólar estrangeiro direcionado ao País nos últimos meses. (Foto: Adobe Stock)
A escalada da guerra no Oriente Médio mudou completamente a trajetória do dólar, que vinha em uma sequência de perdas, e elevou o sentimento de aversão ao risco nos mercados globais. Desde segunda-feira (2), com a intensificação do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, a moeda americana voltou a ganhar força como principal ativo de proteção em meio à deterioração do cenário geopolítico.
Na sessão de terça-feira (3), a cotação do dólar chegou a disparar mais de 3%, impulsionado pelos novos ataques dos EUA e Israel contra o prédio da Assembleia de Especialistas, órgão responsável por eleger o líder supremo do Irã. Segundo o jornal The Times de Israel, a reunião teria a presença de 88 aiatolás, mas ainda não se sabe quantos deles estavam no local no momento do ataque. Veja os detalhes nesta reportagem.
A ofensiva de Israel e EUA contra o Irã começou no último sábado (28) e resultou no assassinato do líder supremo do regime iraniano, o aiatolá Ali Khamenei.
“O mercado passa a precificar um conflito mais longo, riscos fiscais crescentes e potencial instabilidade regional mais ampla, aumentando a volatilidade e reduzindo o apetite por ativos de maior risco”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Emergentes sob pressão
Esse novo pano de fundo tende a pressionar com mais força os mercados emergentes, como o Brasil, tradicionalmente vistos como mais arriscados, e pode reverter o fluxo de capital estrangeiro direcionado ao País nos últimos meses. Como mostramos nesta reportagem, a bolsa brasileira vinha sendo beneficiada com a entrada do fluxo estrangeiro. Dados da B3 mostram que, em 2025, os gringos alocaram no Brasil cerca de R$ 26,8 bilhões. Em 2026, esse volume é de R$ 41,8 bilhões.
O apreço pelo mercado brasileiro refletia um movimento de rotação dos portfólios, com os investidores reduzindo suas alocações nos Estados Unidos e redirecionando para mercados financeiros emergentes, como o Brasil. Esse fluxo ajudou na depreciação do dólar em mais de 10% nos últimos 12 meses e na alta de 49% do Ibovespa no mesmo período.
Agora, no entanto, o cenário pode mudar. Segundo Shahini, os investidores podem reduzir posições decarry trade (mecanismo utilizado para tentar obter lucros com base na diferença entre a taxa de juros de dois países), desmontar posições em bolsa de valores e diminuir exposição a ativos locais à medida que os conflitos se estendam.
“Países emergentes tendem a ser mais sensíveis, como tem sido o caso do real, do peso chileno e do peso mexicano, que, por serem mercados mais líquidos, são mais sensíveis aos movimentos de estresse”, afirma André Valério, economista sênior do Inter.
Na sessão desta terça-feira (3), os mercados refletiram bem esse movimento. O dólar fechou a 1,92%, cotado a R$ 5,2652, enquanto o Ibovespa sofreu um tombo de 3,28%. O Índice DXY – que mede a força da moeda norte-americana contra outras principais divisas do mundo – também subiu, mas uma alta de menor magnitude: 0,68%.
Até onde o dólar pode chegar?
O último Boletim Focus projeta o dólar a R$ 5,42 no fim do ano, abaixo dos R$ 5,45 estimados na semana anterior, antes dos ataques contra o Irã. A revisão das projeções, porém, vai depender da magnitude e da extensão do conflito. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a afirmar nesta semana que a ofensiva contra o Irã pode durar entre quatro e cinco semanas e que a sua “maior onda de ataques” ainda estaria por vir.
Do tarifaço às guerras: em pouco mais de um ano, Trump redefiniu o risco nos mercados globais
Apesar das falas, Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, explica que o mercado não se preocupa tanto com os eventos militares em si, mas com a generalização da guerra. “A grande dúvida é se teremos apenas um conflito mais interno entre Estados Unidos, Irã e Israel ou se teremos algo mais generalizado, atingindo outras regiões do Golfo, como Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes e como essas regiões podem reagir”, cita Sung.
O comportamento do petróleo é outra peça-chave desse contexto. Caso o fechamento do Estreito de Ormuz, responsável pelo escoamento de 20% do fluxo global da commodity, supere o tempo de tolerância do mercado, o problema deixa de ser geopolítico e alcança níveis macroeconômicos. “Isso pode gerar um aumento de inflaçãoem todas as cadeias globais e a falta de produto em diversos países que dependem daquela rota para chegar até o consumidor final”, diz Danilo Coelho, economista e especialista em investimentos.
Nesse cenário, a Nomad avalia que o câmbio pode voltar a ser cotado novamente entre R$ 5,30 e R$ 5,50. Em caso de uma estabilização, a tendência é de reversão das altas recentes.
Entre as casas consultadas pelo E-Investidor, a maior projeção do câmbio para 2026 é da Ágora Investimentos, que estima a moeda americana em R$ 5,5 no final deste ano. Itaú e Banco Inter trabalham com o dólar a R$ 5,4 em 2026, enquanto o BTG Pactual e o Banco Pine têm a menor estimativa para o período, de R$ 5,2.
O que o investidor deve fazer agora?
Diante da elevada incerteza, a orientação da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord) é que os investidores aguardem os desdobramentos do conflito geopolítico antes de realizar qualquer mudança no portfólio.
“O investidor deve evitar decisões precipitadas baseadas apenas no noticiário do dia. É fundamental contar com profissionais certificados, manter disciplina e estratégia e avaliar se a carteira está adequada aos objetivos de longo prazo”, afirma Pablo Spyer, economista e conselheiro da instituição.