Azul (AZUL53) propõe grupamento de 150 mil para 1 para voltar acima de R$ 1; entenda novo plano e o impacto nas ações
Proposta atende pedido da B3 para elevar preço dos papéis acima de R$ 1; operação não altera valor investido, mas ocorre após forte diluição na reestruturação da companhia
Azul (AZUL53) convocou AGE para votar grupamento de ações na proporção de 150 mil para 1. Entenda por que a medida foi proposta, como funciona e o que muda para o investidor.
Na última quarta-feira (4), aAzul (AZUL53) anunciou a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para deliberar sobre o grupamento da totalidade das ações ordinárias na proporção de 150 mil papéis para formar uma única ação, sem alteração do capital social. Na prática, a reunião decidirá se os papéis da companhia passarão a ser negociados em unidades 150 mil vezes maiores que as atuais. A data da assembleia ainda não foi divulgada.
Segundo fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a proposta atende a uma solicitação da B3 e tem como objetivo elevar o valor unitário das ações acima de R$ 1, limite mínimo exigido pela bolsa para negociação regular. Atualmente, os papéis são negociados em lotes de 1 milhão de ações, uma estrutura usada pela bolsa quando o preço unitário das ações cai a níveis muito baixos.
Para ilustrar, na primeira quarta-feira de março deste ano, o lote exibido na tela terminou cotado a R$ 217. Como esse valor representa 1 milhão de ações, o preço unitário efetivo de cada papel é de aproximadamente R$ 0,000217.
Caso o grupamento seja aprovado, os acionistas que possuírem quantidades que não sejam múltiplas de 150 mil ações poderão ajustar suas posições no mercado até 14 de abril. Depois desse prazo, eventuais frações poderão ser reunidas e vendidas no mercado. A partir de 17 de abril, os papéis passariam a ser negociados apenas na forma agrupada e o lote padrão cairia de 1 milhão para uma única ação.
Nesse cenário, o preço exibido na tela também mudaria de escala. Usando o mesmo exemplo, um lote hoje cotado a R$ 217 passaria a equivaler a uma ação próxima de R$ 32,55, já que cada novo papel representaria 150 mil ações antigas.
O que é um grupamento de ações e por que ele acontece
O grupamento de ações reúne várias unidades de um papel para formar uma nova ação de valor proporcionalmente maior. A operação não altera o valor de mercado da empresa nem o patrimônio total do investidor.
Em termos práticos, quem possui ações passa a ter menos papéis na carteira, mas cada um deles com preço proporcionalmente mais alto.
Segundo Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, a medida busca resolver o nível de cotação. “Esse tipo de medida acaba acontecendo quando a empresa cai muito e a cotação começa a ficar tão pulverizada que dificulta a negociação.”
O movimento também está ligado às regras da bolsa. “As empresas que ficam abaixo de R$ 1 acabam sendo punidas pela bolsa, porque percentualmente começa a ficar uma variação muito mais alta, então prejudica os índices de volatilidade.”
Além disso, a permanência nesse patamar pode levar à saída de índices relevantes do mercado. “A bolsa pode dar um prazo para a empresa melhorar suas condições. Caso contrário, ela pode ser retirada de alguns índices, como principalmente o Ibovespa.”
A exclusão do índice tende a reduzir a demanda estrutural pelo papel, já que diversos fundos o utilizam como referência para montar suas carteiras.
Mudanças no ticker: de AZUL4 a AZUL53
Originalmente, as ações da companhia eram negociadas sob o código AZUL4. O número final indica que se tratava de ações preferenciais, classe que normalmente concede prioridade no recebimento de dividendos, entre outros benefícios.
Com a reestruturação financeira da empresa, os papéis passaram a operar temporariamente como AZUL54, código utilizado para representar uma nova classe de ações preferenciais com lote padrão de 10 mil papéis. Nesse modelo, o valor exibido na tela representava uma cesta de ações e não o preço unitário.
Mais recentemente, os papéis passaram a ser negociados sob o código AZUL53, com lote padrão ainda maior, de 1 milhão de ações.
Essas mudanças ocorreram no contexto da oferta pública de ações realizada durante o processo de reestruturação financeira, que ampliou significativamente o número de papéis em circulação no mercado.
Reestruturação e Chapter 11
A reorganização da Azul ocorreu dentro de um processo conduzido nos Estados Unidos sob o Chapter 11, um mecanismo da legislação estadunidense que permite a empresas com dificuldades financeiras renegociar dívidas sob supervisão judicial enquanto continuam operando.
O modelo é semelhante à recuperação judicial no Brasil, prevista na Lei nº 11.101. Em ambos os casos, o objetivo é preservar a atividade da empresa enquanto credores e companhia negociam novas condições para o pagamento das dívidas. Tudo para evitar a falência.
A principal diferença é que o Chapter 11 costuma oferecer maior flexibilidade para reorganizar a estrutura financeira, permitindo, por exemplo, conversões de dívida em participação acionária com mais rapidez e participação direta de credores no processo.
No caso da aérea, a reestruturação incluiu conversão de dívida em ações e a renegociação de contratos de arrendamento de aeronaves.
Esses contratos normalmente são firmados em regime de leasing, modalidade de financiamento em que a empresa utiliza um bem, como um avião, pagando parcelas periódicas ao proprietário, em vez de adquirir o ativo imediatamente.
De acordo com a S&P Global Ratings, o processo reduziu cerca de US$ 1,1 bilhão da dívida financeira do grupo e diminuiu em aproximadamente 40% os passivos de leasing, que devem ficar em torno de R$ 13,5 bilhões em 2026.
A agência projeta ainda que a empresa encerre 2026 com dívida bruta próxima de R$ 23,5 bilhões e alavancagem, indicador que compara o tamanho da dívida da empresa com sua geração de caixa, em torno de três vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), este último indicador busca mostrar quanto se gera de resultado apenas com sua atividade principal.
O que muda para o investidor
O grupamento em si não altera o valor investido nem a participação proporcional do acionista. Quem possui ações verá apenas a quantidade de papéis diminuir, enquanto o preço unitário aumenta na mesma proporção.
O efeito mais relevante para os investidores já ocorreu. Durante a reestruturação, a conversão de dívidas em ações ampliou significativamente o número de papéis em circulação.
Quando novas ações são emitidas nesse tipo de operação, os acionistas que não participam da oferta podem ver sua participação relativa na empresa diminuir, fenômeno conhecido como diluição. Para avaliar se a empresa realmente sai da reorganização em condição mais estável, Cruz afirma que o investidor deve acompanhar principalmente indicadores operacionais e financeiros.
“Os indicadores operacionais são fundamentais. Como a empresa está rodando, se a ocupação está alta ou baixa e se os novos trechos estão funcionando.”
A geração de caixa também é um fator central na análise.
“A questão da liquidez é bem relevante. Se a empresa está conseguindo gerar caixa suficiente para pagar sua dívida com conforto.”
Em geral, quanto maior a alavancagem, maior o risco financeiro.
“Se a empresa consegue manter uma alavancagem abaixo de três vezes, isso é um sinal importante para avaliar se ela vai ser sustentável ou não.”