Ulisses Nehmi, CEO da Sparta, gestora especialista em crédito privado com R$ 22 bi sob gestão. (Arte de Victoria Fuoco / Foto: Divulgação/Sparta)
A Sparta Investimentos está com um caixa de 20%, um nível bem acima de sua média histórica. Não é raro ver o CEO, Ulisses Nehmi, em entrevistas e comunicações da gestora, afirmar abertamente que este não é o momento de se investir na classe de ativos que fez a casa dobrar de tamanho nos últimos anos, o crédito privado.
A postura mais conservadora não é nova. Como mostramos aqui, em outubro de 2025, a gestora fechou a captação dos fundos de debêntures incentivadas mesmo com a alta demanda. Assim, sem captar recursos novos, não precisaria ir ao mercado comprar ativos em um momento que o risco-retorno não estava atrativo.
Era o que Nehmi via – e ainda vê – como uma divergência estrutural no mercado de crédito. Com os juros altos, o risco do investimento aumentou, o que deveria fazer os spreads dos títulos serem maiores. No entanto, justamente pela combinação de juros altos e benefício fiscal, a demanda por esses ativos estava muito elevada, o que faz os spreads se fecharem.
Agora, a aposta é contrária. O que tende a acontecer este ano, na visão da Sparta, é um segundo movimento “contraintuitivo”. Os juros devem cair graças ao início do ciclo de cortes da Selic, mas o spread pode voltar a subir. O que levaria a essa correção? A saída de investidores do crédito privado.
“O investidor está anestesiado. Os retornos acumulados da renda fixa estão bons e não tem muita vontade ainda de fazer as migrações. Mas ele está muito sobrealocado em renda fixa. Em algum momento, o dinheiro vai sair”, diz Nehmi.
O argumento é que, depois de anos como um verdadeiro motor de captação da indústria de fundos, o crédito privado pode começar a dar lugar para outras classes de ativos nos portfólios do investidor brasileiro. Seja pela redução gradual da taxa Selic, que começou a ser cortada pelo Banco Central na última semana, seja pela atratividade dos outros investimentos. A Bolsa, por exemplo, que antes do início da guerra no Oriente Médio estava na máxima histórica e ainda não via grandes aportes dos investidores locais.
Ou ainda por causa dos eventos de crédito, que começam a aparecer com mais frequência. Neste mês, duas grandes empresas da B3 entraram com pedidos de recuperação extrajudicial. A Raízen (RAIZ4) precisa pagar uma dívida de R$ 65 bilhões, enquanto o GPA (PCAR3) encara débitos de R$ 4,5 bilhões.
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Os episódios acenderam um alerta no mercado, uma preocupação com o nível de endividamento das empresas depois de um ciclo de juros muito restritivo; e os efeitos disso na indústria de crédito. Para a Sparta, que não tinha títulos das duas empresas na carteira, não se trata de um risco sistêmico, mas de imagem.
“Nenhum dos dois casos mexe com o mercado secundário”, explica Nehmi. “Mas contamina porque deixa o investidor mais arredio com crédito, o assessor não quer mais recomendar. Não estamos falando de uma saída grande de recursos, mas talvez tenha menos fluxo.”
Esse é o problema dos spreads estarem tão comprimidos. Se os ativos estão caros demais, como estão na avaliação da Sparta, há pouca margem para erro. Na dúvida, o melhor caminho é manter o caixa e a liquidez elevados, tendo “margem de manobra” para comprar títulos a preços mais atrativos quando essas distorções forem normalizadas.
Até lá, a Sparta prefere manter a captação dos fundos de debêntures incentivadas fechada.
Disciplina, sem medo de encolher
A Sparta dobrou de tamanho em dois anos, durante o boom de crédito privado. A estratégia virou a queridinha de muitos investidores, graças à isenção fiscal e bons retornos dentro da renda fixa. Muitas gestoras do mercado, que antes não eram focadas em crédito, usaram o segmento para continuar a crescer enquanto outras classes de fundos, como ações e multimercados, amargavam resgates bilionários.
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O ciclo foi muito positivo para a Sparta, que foi de R$ 10 bilhões aos atuais R$ 22 bi no período. Agora, a gestora está preparada para ver o patrimônio sob gestão cair – mas sem grande preocupação.
“Quem está tomando muito risco neste momento vai ganhar mais do que o gestor que está conservador. Mas pode não ser a atitude mais ponderada. No resultado de longo prazo, quem tem mais consistência costuma chegar mais longe”, diz o CEO.
Nehmi destaca que há cinco anos a Sparta intensificou o trabalho para melhorar a qualidade do passivo. Uma forma de ficar menos exposta aos ciclos de mercado.
O passivo de melhor qualidade é aquele menos sujeito a resgates nos momentos de choque: os fundos listados, os exclusivos e aqueles fundos cujo indexador não é o CDI. Na Sparta, esse grupo corresponde à metade do AuM, mas também responde pela maior parte da receita. Por isso, não tem medo de encolher se estiver correta na leitura de cenário.
“Só com os fundos listados a gestora para de pé e dá lucro”, diz Nehmi.
Os três produtos da Sparta, o CDII11, JURO11 e o mais recente DIVS11 somam hoje cerca de R$ 5,2 bilhões em patrimônio. Isso é um terço de todo o mercado de FI-Infras da B3, excluindo ativos de cota sênior ou de prazo indeterminado.
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Por estarem listados na Bolsa, os resgates nesse tipo de fundo não atrapalham diretamente a gestão das carteiras, como acontece nos fundos abertos, em que muitas vezes é preciso vender ativos da carteira para honrar saídas de cotistas. Por isso, acabam sendo uma via de crescimento mais segura para a gestora.
A Sparta é conhecida pelo diálogo próximo ao mercado, mas tem intensificado o esforço com os investidores sofisticados, como fundos de pensão, para deixá-los na mesma página. A mensagem é que a indústria de crédito deve passar por ajustes nos próximos meses, mas há uma oportunidade de longo prazo para ganhar mais com a recuperação. “Quem não estiver confortável com isso, estamos dizendo para resgatar. Queremos ter o que acreditamos ser bom.”