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Investimentos

Tesouro Direto: guerra, Copom e maior intervenção em 13 anos mexem com as taxas; o que fazer agora?

Com conflito no Irã e rumo ainda incerto da Selic, especialistas explicam como se posicionar nos títulos públicos

Por Beatriz Rocha
Editado por Geovana Pagel

20/03/2026 | 5:30 Atualização: 20/03/2026 | 15:43

Conflito no Oriente Médio, atuação do Tesouro e postura cautelosa do Copom mexem com a renda fixa. (Foto: Sergio - stock.adobe.com)
Conflito no Oriente Médio, atuação do Tesouro e postura cautelosa do Copom mexem com a renda fixa. (Foto: Sergio - stock.adobe.com)

Conflitos no Oriente Médio, decisão de juros do Comitê de Política Monetária (Copom) e intervenções do Tesouro Nacional: os últimos dias têm sido movimentados para os títulos do Tesouro Direto, o que exige cautela nas estratégias de investimento em renda fixa.

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Desde o início de março, quando a guerra no Irã explodiu, a volatilidade nas taxas do Tesouro se ampliou. Um levantamento da BGC Liquidez mostra que entre 2 de março – o primeiro pregão após o acirramento das tensões geopolíticas – e 13 de março, as NTN-Bs (Tesouro IPCA+) abriram 46,5 pontos-base. O maior impacto foi percebido nos títulos de vencimento intermediário, entre 2028 e 2035, que abriram 63,7 pontos-base.

Segundo a casa, choques de oferta de petróleo deveriam ser transitórios, mas o fato de as taxas longas manterem essa sensibilidade indica que o mercado teme efeitos secundários ou uma deterioração estrutural da inflação e do risco fiscal brasileiro diante de um cenário global mais hostil.

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O Tesouro tem procurado intervir. Nesta semana, realizou leilões de recompra e venda de títulos prefixados e atrelados à inflação por três dias consecutivos. De acordo com os cálculos da Warren Investimentos, a operação chega a R$ 47,35 bilhões, a maior do tipo em pelo menos 13 anos.

Ao mesmo tempo, o Tesouro cancelou parte dos leilões ordinários de títulos públicos previstos para esta semana. “Isso reduziu a injeção de novos títulos junto ao mercado, o que pressionaria ainda mais as taxas”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

A possibilidade de recompra, por sua vez, deu saída para os investidores que queriam ajustar suas respectivas posições. “O efeito prático dessa operação foi a redução da percepção de risco, o fechamento da curva de juros e uma maior estabilidade no mercado de títulos públicos. O desfecho foi positivo”, avalia.

Agora, segundo ele, resta saber a duração e os efeitos do conflito no Oriente Médio, especialmente no que se refere à inflação e à condução da política monetária pelo Copom no Brasil. Almeida explica que o Tesouro não pode intervir por prazo longo, porque está utilizando o seu caixa para promover as recompras. “Caso o conflito se torne um processo mais alongado, o Tesouro pode comprometer a sua posição”, destaca.

Postura cautelosa do Copom

Na quarta-feira (18), o Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual para o patamar de 14,75% ao ano. A decisão levantava dúvidas do mercado: uma ala projetava uma redução mais agressiva, de 0,5 ponto percentual, e outra estimativa que a taxa de juros seria mantida em 15% ao ano.

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Em seu comunicado, o Copom destacou a necessidade de “serenidade” e “cautela” na condução da Selic, de forma que os passos futuros possam incorporar novas informações mais claras sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio.

Para o mercado, o texto veio mais prudente. Especialistas apontam que o comitê não trouxe projeção para as decisões futuras e indicou postura mais dependente de dados. Ainda assim, novos cortes na Selic são possíveis, a depender dos rumos da guerra.

Outro ponto observado por economistas: os números do cenário de referência pioraram em relação a janeiro. A projeção da inflação para 2026 avançou de 3,4% para 3,9%, enquanto a do horizonte relevante – terceiro trimestre de 2027 – subiu de 3,2% para 3,3%.

Tesouro Selic, IPCA+ ou prefixado: onde investir agora?

Na visão de Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, o corte menor sinaliza que o Banco Central ainda teme o avanço da inflação e as consequências das tensões no Irã. Nesse cenário, o Tesouro Selic oferece um rendimento atrativo e representa um instrumento de proteção, por garantir liquidez diária e maior proteção contra oscilações.

Para quem deseja maior rentabilidade, o Tesouro IPCA+ se torna um aliado. “Se o Banco Central está cortando os juros devagar significa que ele ainda vê risco de a inflação continuar alta. É fundamental ter títulos que te protegem desse cenário”, diz.

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Atualmente, o Tesouro IPCA+ com vencimento para 2032 oferece um retorno real próximo de 7,78%. Os títulos para 2040 e 2050, por sua vez, pagam IPCA + 7,18% e IPCA + 6,93%, respectivamente.

Do lado mais arriscado, Patzlaff aponta os títulos prefixados, especialmente em um momento de incerteza quanto à duração do ciclo de queda da Selic. “Se precisar resgatar o dinheiro antes do vencimento, o investidor pode acabar recebendo menos do que aplicou. Já ao manter o título na carteira, corre o risco de abrir mão de taxas mais atrativas”, alerta.

O Tesouro Prefixado com vencimento em 2029 paga hoje 13,86% ao ano. O vértice mais longo, com vencimento em 2032, oferece retorno de 14,11% ao ano.

Outro ponto de atenção envolve o prazo dos títulos do Tesouro. No cenário atual, alongar muito o prazo pode não ser a decisão mais prudente, segundo Lucas Cavalcante, especialista em investimentos e fundador da Gus Consultoria Financeira. “A estratégia que costuma fazer mais sentido é priorizar vencimentos intermediários, que ainda oferecem taxas interessantes, mas com menos exposição à volatilidade da parte mais longa da curva”, ressalta.

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Ele lembra que, na renda fixa, o investidor muitas vezes erra mais pelo excesso de convicção do que pela falta dela. Alongar a carteira muito cedo, assumindo que o ciclo de queda da Selic será longo e linear, pode gerar frustração se o contexto mudar.

Como se posicionar no Tesouro em meio à guerra?

O principal impacto da guerra nos mercados, até aqui, ocorre nos preços do petróleo, diante do fechamento do Estreito de Ormuz, canal marítimo entre Irã e Omã por onde passa um quinto do óleo do mundo.

Na quinta-feira (19), o 20º dia da guerra, o petróleo voltou a rondar os US$ 120 por barril, uma nova rodada de alta que pressionou a curva de juros no Brasil e as taxas do Tesouro Direto, como mostramos aqui.

Para quem já está posicionado no Tesouro, a ideia de horizonte de investimento ganha importância agora. Se o investidor comprou títulos condizentes com seu prazo, a oscilação diária do preço não altera o fluxo de pagamento se ele levar até o vencimento. “Vender em meio ao estresse tende a cristalizar prejuízos de curto prazo”, diz Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil.

O especialista pontua que, em uma carteira bem estruturada, a gestão deve ser feita para rebalancear e não apenas reagir às oscilações por impulso. Quedas de preço dos títulos podem ser oportunidade para aumentar um pouco as posições, desde que isso não comprometa a liquidez e o perfil de risco da carteira.

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Por outro lado, para quem deseja começar agora, a dica é realizar uma entrada parcelada, que reduz o risco de comprar no pico de estresse ou logo antes de uma nova reprecificação.

Araújo relembra a regra clássica de investimentos no Tesouro Direto: focar nos objetivos pessoais e alinhar cada título a uma meta concreta, como reserva de emergência, aposentadoria ou estudos. “Essa prática reduz a tentação de reagir à volatilidade de curto prazo, que hoje está mais ligada ao noticiário geopolítico do que a mudanças estruturais no Brasil”, afirma.

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