Ainda assim, o movimento recente não apaga a importância do ouro como uma reserva de valor. O que o mercado está digerindo agora é uma combinação específica e temporária de pressões técnica e geopolíticas. “Esse tipo de dinâmica é pontual e não altera a tese de longo prazo. O ouro responde melhor a riscos sistêmicos amplos, à erosão da confiança nas moedas fiduciárias e a ciclos de afrouxamento monetário, mas o papel do metal como reserva de valor permanece intacto”, diz Danilo Moreno, analista da Investo.
A queda do ouro em março, após um início de ano promissor, ocorre por diferentes motivos: uma correção dos preços depois de o metal bater máxima histórica, a expectativa de juros altos por mais tempo nos Estados Unidos e o movimento de fundos soberanos vendendo ativos líquidos, inclusive títulos do Tesouro e ouro, para cobrir necessidades de caixa de curto prazo.
Já o dólar retomou força. A moeda americana se beneficia de um diferencial de juros que ainda favorece os Estados Unidos em relação à maioria das economias desenvolvidas. Dados da plataforma FedWatch, do CME Group, indicam que não há, atualmente, a precificação de corte de juros nos EUA neste ano.
Segundo Moreno, o questionamento estrutural do papel do dólar como reserva global tem fundamentos válidos, ligados à desdolarização gradual das economias e ao crescimento das reservas em ouro pelos bancos centrais. “Mas no curto prazo, em momentos de incerteza como o atual, o dólar ainda funciona como o ativo de liquidez preferido do mercado”, pondera.
Para Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, o dólar e os títulos do Tesouro americano, especialmente os de curto prazo, são vistos como os ativos mais seguros. “Em momentos de estresse no mercado, é para onde o capital tende a migrar”, afirma.
No entanto, embora ainda persista a ideia de que o dólar sobe quando o restante do mercado cai, não é possível afirmar de forma categórica que esse movimento se repete em todas as situações. Segundo Cunha, a valorização da moeda americana nem sempre está associada a um cenário de aversão ao risco e depende de outros motivos, como a política monetária americana.
Bitcoin ainda é visto como ativo de risco
A adoção institucional das criptomoedas têm avançado e já há empresas que investem no bitcoin como ativo de reserva – caso de nomes como Strategy (MSTR), Méliuz (CASH3) e OranjeBTC (OBTC3), as chamadas Bitcoin Treasury Companies.
No último ano, também foi aprovada nos Estado Unidos a lei GENIUs Act. A legislação americana criou uma série de regras para a emissão de stablecoins, criptomoedas atreladas a moedas fiduciárias, e procedimentos para casos de insolvência (falência) desses ativos. A regulação foi vista como um avanço no mercado cripto.
Mesmo com os desdobramentos recentes, especialistas ainda consideram o bitcoin como um ativo de risco. Matheus Gutierrez, analista de cripto da Levante Investimentos, avalia que a criptomoeda tem sentimento semelhante ao do mercado de ações. “Em cenário de estresse extremo prolongado – como uma guerra longa ou recessão –, o bitcoin tende a cair junto com os ativos de risco, e não proteger como dólar ou ouro. Além disso, a criptomoeda carece de uma adoção global para ser considerada um ativo de proteção”, diz.
Douglas Tuíra, especialista em investimentos do grupo Nexco, concorda com essa avaliação. “A criptomoedas acompanha as bolsas de valores em momentos de estresse, não tem comportamento consistente como proteção e depende da liquidez global”, afirma.
Na visão de Tuíra, o dólar oferece proteção mais imediata, pela alta liquidez; o ouro cumpre um papel estrutural, como instrumento de diversificação de portfólio; e o bitcoin ainda carrega elevado nível de risco.