Lucas Danicek, CEO da Nexa Finance. Foto: Divulgação/Nexa Finance/Arte de Victoria Fuoco
Hoje, clientes conseguem encontrar uma prateleira de produtos em plataformas de investimentos. Apesar da diversidade de opções, a personalização dos ativos, em muitos casos, ainda segue restrita ao público de alta renda. Mas a Nexa Finance, fintech focada em tokenização, quer mudar essa realidade.
Danicek, que construiu carreira na gestão de multimercados, lembra que, ao chegar na TERA, passou a ter contato com opções de investimentos mais amplas, como ativos alternativos e internacionais. Por lá, não existia padronização de carteira para clientes moderados ou arrojados. O portfólio era personalizado para cada família.
O executivo viu, então, uma oportunidade de levar essa estratégia para além da alta renda, com ajuda da tecnologia. Em 2024, fundou a Nexa com Furuie. A casa atende family offices, gestoras, escritórios de assessoria e consultorias, com foco em produtos de renda fixa e crédito privado.
A plataforma permite que os parceiros criem produtos em tempo real para atender um ou vários clientes. Em cerca de dois anos de operação, a Nexa já trabalha com aproximadamente R$ 500 milhões sob gestão, atendendo empresas que, juntas, somam cerca de R$ 80 bilhões sob gestão. A meta da casa para 2026 é atingir R$ 1 bilhão em transações.
Danicek observa que o consumidor atualmente busca por personalização. “Ao pedir comida, ouvir música, viajar e comprar roupa: tudo está sendo personalizado. Mas produtos financeiros ainda estão longe de oferecer essa possibilidade”, diz.
Na Nexa, a lógica muda. Em vez de ter um cardápio padrão de produtos, a casa cria ativos sob demanda para o cliente. O investidor pode escolher os parâmetros, como prazo, risco, indicador – prefixado, pós-fixado ou atrelado à inflação – e a moeda associada ao ativo. Também pode definir se deseja um investimento para se aposentar ou viajar, por exemplo.
“O que oferecemos, basicamente, é a possibilidade de o cliente criar seu próprio fundo exclusivo ou um mini ETF (fundo de índice) em tempo real na plataforma”, destaca Danicek.
Por trás da personalização, a tokenização
O serviço oferecido pela Nexa ganha tração por meio de um conjunto de tecnologias. Com a blockchain, a casa consegue tokenizar os ativos – ou seja, convertê-los em representações digitais. Dentro desse processo, a empresa fraciona esses ativos em pequenas moedas.
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“Selecionamos ativos ilíquidos e não padronizados, como cotas de consórcio, duplicatas e recebíveis de cartão de crédito. Depois, fracionamos esses ativos em ‘moedinhas’ de 1 centavo”, explica Danicek.
A Nexa reagrupa esses ativos para o investidor, como um brinquedo de Lego. Com o fracionamento, a casa permite que clientes fora da alta renda consigam acessar os produtos, a partir de um investimento mínimo de R$ 100. Funciona como se esse investidor comprasse 0,01% de uma cota de consórcio ou 0,02% de um título público, por exemplo.
Danicek afirma que a empresa seleciona ativos de risco bancário ou risco soberano (garantidos pelo governo federal). A casa procura opções líquidas, complexas e não padronizadas, como as cotas de consórcio ou os recebíveis de cartão, que seriam de difícil acesso ao investidor, se não fosse a tokenização.
O processo envolve ainda uso de inteligência artificial para ganhos de digitalização e eficiência, além de machine learning (aprendizado de máquina) – tecnologia que permite que um sistema aprenda e melhore de forma autônoma – para montar um produto customizado aos interesses do cliente.
Para viabilizar essa infraestrutura, a B3 também pretende lançar uma stablecoin (criptomoeda atrelada a outro ativo) própria em reais, que deve chegar ao mercado ainda no primeiro semestre de 2026.
Nos Estados Unidos, a Securities and Exchange Commission (SEC) – a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) americana – aprovou em março uma emenda à regra da Nasdaq que permite que certas ações sejam negociadas e liquidadas em formato tokenizado.
Já a Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) anunciou no mesmo mês uma parceria com a Securitize para apoiar o desenvolvimento de mercados de títulos tokenizados.
Danieck avalia que a CVM também tem tido uma agenda pró-inovação no segmento de tokenização no Brasil. Para ele, o maior obstáculo atual consiste em escalar a distribuição de produtos da Nexa. “O desafio é fazer esse produto chegar ao maior número de clientes possível”, afirma.