“Estamos em um período de incerteza e instabilidade como não víamos há muito tempo”, afirmou, ao relembrar eventos recentes, da pandemia às tensões políticas e conflitos militares, que vêm redesenhando o equilíbrio global. Na sua leitura, esse acúmulo de eventos extremos não é pontual, mas parte de uma nova fase estrutural da economia mundial.
Roubini destacou que, embora múltiplos focos de risco estejam ativos, incluindo China e Europa, o principal vetor de incerteza hoje vem dos Estados Unidos, especialmente sob a liderança de Donald Trump. Ele mencionou políticas mais agressivas em comércio, imigração e geopolítica, além de questionamentos institucionais que aumentam a volatilidade. “Há uma longa lista de preocupações com a política americana”, disse, citando desde protecionismo até tensões com aliados e adversários estratégicos.
Para o economista, a grande questão é entender a duração e a intensidade da guerra, fatores que determinam seus impactos econômicos. Ele propõe uma comparação histórica com os choques do petróleo dos anos 1970, quando embargos elevaram preços, geraram inflação global e culminaram em estagflação.
Ainda assim, Roubini pondera que o mundo de hoje é estruturalmente diferente. Há maior diversificação energética, com os Estados Unidos e o Brasil entre os grandes produtores, além do avanço de fontes renováveis e maior eficiência no uso de energia. “Hoje somos menos dependentes do petróleo do que nos anos 70”, explicou, o que tende a amortecer, ainda que não eliminar, os impactos de choques de oferta.
Mesmo com essas diferenças, quanto mais longa a guerra, maior a pressão sobre preços de energia e, consequentemente, sobre a inflação global. “O efeito direto é inflação mais alta e crescimento mais baixo”, resumiu. Isso pode levar a um cenário de “estagflação leve”, combinação de inflação elevada com crescimento fraco, com desaceleração econômica sem necessariamente uma recessão profunda, mas com deterioração do poder de compra e margens empresariais.
Para os mercados, a leitura depende fortemente do horizonte temporal. No curto prazo, Roubini observa que os preços ainda refletem uma aposta em desescalada. “Os mercados parecem acreditar que haverá algum tipo de negociação”, disse, sugerindo que investidores ainda não precificaram um cenário mais extremo.
Ele, no entanto, trabalha com múltiplos cenários. O mais provável, segundo sua avaliação, é uma escalada gradual, com conflitos indiretos e prolongados. Há também o risco, menor, mas relevante, de uma escalada mais ampla envolvendo diretamente grandes potências, o que teria consequências severas para o fornecimento global de energia.
Nesse contexto, o petróleo se torna o principal canal de transmissão para a economia. Um choque prolongado elevaria custos de produção, pressionaria cadeias logísticas e alimentaria a inflação global. Para países importadores de energia, o impacto é claramente negativo. Já para exportadores, como o Brasil, há um efeito ambíguo.
“O Brasil, como exportador de energia, se beneficia em termos de troca”, afirmou Roubini. O aumento dos preços tende a melhorar receitas externas e lucros de empresas ligadas a commodities. Por outro lado, esse ganho não se distribui de forma uniforme na economia. “Há vencedores e perdedores”, disse, destacando que consumidores e setores intensivos em energia sofrem com custos mais altos, o que reduz o consumo e afeta o crescimento.
Esse descompasso cria um ambiente desafiador para a política econômica. Bancos centrais enfrentam o dilema de conter a inflação sem sufocar ainda mais a atividade. Ao mesmo tempo, governos podem recorrer a medidas fiscais, como subsídios ou uso de reservas estratégicas, o que traz custos adicionais e distorções.
Embora Roubini reconheça que uma resolução rápida do conflito seria o melhor cenário para os mercados, ele vê limitações práticas. “Depois que uma guerra começa, parar pode ser mais difícil do que parece”, afirmou, ressaltando que dinâmicas políticas internas e estratégicas podem prolongar o conflito.
Para o investidor, o cenário global segue altamente dependente de variáveis geopolíticas, com impactos diretos sobre inflação, juros, commodities e bolsas. Em um ambiente assim, choques no petróleo deixam de ser eventos isolados e passam a ser peças centrais na dinâmica dos mercados.