Lá fora são chamadas de “mercado de previsões”, mas, para o perfil do brasileiro, o risco é que isso vire muito mais aposta do que investimento.
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Lá fora são chamadas de “mercado de previsões”, mas, para o perfil do brasileiro, o risco é que isso vire muito mais aposta do que investimento.
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A lógica e as possibilidades são sedutoras. Você “opera” eventos como eleições, juros, cessar-fogo em guerras e até a temperatura que fará amanhã na cidade de São Paulo. Parece inteligência e probabilidade aplicada ao futuro, mas, na prática, não é isso que será vendido.
O que está sendo importado por algumas casas, inspirado em plataformas como Polymarket e Kalshi, é um produto que, na essência, transforma opinião em risco financeiro direto. E isso em um mercado que ainda engatinha no básico.
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Meu receio vem do perfil do investidor brasileiro, que mal entende o que é um derivativo. E não é crítica nem opinião, é fato, vejo isso todos os dias no mercado. A maioria não sabe usar opções para proteger uma carteira, não entende o impacto de uma alavancagem mal calibrada e não consegue dimensionar risco assimétrico.
Agora, ainda sem entender o que já temos, e que inclusive representa menos risco, esse mesmo investidor é convidado a apostar em eventos futuros com dinheiro real, embalado como se fosse uma evolução do mercado financeiro.
Sabe como o brasileiro vai enxergar esse movimento? Como um atalho para a tão sonhada independência financeira.
A grande maioria não gosta de investir, gosta de apostar. As bets já se tornaram um dos principais motores de endividamento das famílias no país, e a tendência é que continuem machucando cada vez mais famílias.
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Agora surge o convite para participar disso, mas dentro do mercado financeiro. É a desculpa perfeita para dizer que virou investidor em vez de apostador, um especulador financeiro de curto prazo em vez de alguém apostando contra a casa, como em um cassino.
Não me venha com justificativas de que o mercado precisa disso, de que o investidor sente necessidade desse tipo de operação ou de que bancos e corretoras estão ampliando opções de investimento. Isso não é investimento: não gera caixa, não tem fundamento, não tem margem de segurança. No fim, não há nada além de uma ilusão de convicção.
Colocar isso no Brasil hoje é como oferecer alavancagem para quem ainda não sabe nem o tamanho do próprio risco. E eu sou totalmente contra.
Não trabalho diretamente no mercado hoje e, ainda assim, mantenho um grupo de WhatsApp com mais de 6 mil investidores e interessados, compartilhando análises, conteúdos educacionais e um pouco da minha experiência. Faço isso de graça, com a intenção de ajudar. E ver esse movimento só reforça a necessidade de orientar mais e afastar quem eu puder de um novo vício que tende a crescer no nosso mercado.
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Na prática, existe um uso para esse tipo de ferramenta. Gestores e instituições podem incorporar essas informações como complemento de análise, e isso de fato faz parte do processo de formação de opinião deles. Mas isso exige repertório, contexto e disciplina.
O que está chegando agora é combustível para um perfil de população que já tem inclinação a apostar. E, mais uma vez, colocar isso no Brasil hoje é como oferecer alavancagem para quem ainda não sabe nem o tamanho do próprio risco.
Não tenho dúvida de que esse mercado vai crescer. A questão é quanto patrimônio será perdido até que o investidor perceba que não estava prevendo nada, apenas apostando. E, como toda aposta, a conta sempre chega.
Para mais conteúdos como este em tempo real, siga @vmiziara no Instagram. Principalmente se a ideia for aprender e fugir de apostas furadas e golpes no mercado financeiro.
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