A leitura geral da casa sobre o que as empresas devem reportar é mista. Por um lado, a temporada de resultados do 1T26 deve trazer “tendências levemente positivas na comparação anual”, com resiliência operacional. Por outro, esses avanços ainda não são suficientes para eliminar riscos no horizonte.
“Isso não é suficiente para compensar um pequeno risco de queda nas estimativas domésticas”, apontam os analistas, citando preocupações com custos de matérias-primas e logística, especialmente após conflitos geopolíticos recentes, que podem afetar o segundo trimestre.
O banco destaca que o 1T26 registrou contração de atividade, com o indicador proprietário Daily Activity Tracker (IDAT, criado pelo Itaú para monitorar a economia) apontando queda de 0,9% no período, puxada principalmente pelo setor de serviços (-2,5%). Esse desempenho é “consistente com o alto nível de juros“, mesmo com o início recente de um ciclo de afrouxamento monetário. Ainda assim, houve alguns contrapontos positivos: o câmbio se fortaleceu e a curva de juros apresentou leve inclinação.
As expectativas de mercado permanecem relativamente ancoradas. Segundo o boletim Focus do Banco Central (BC), a Selic deve encerrar 2026 em 13%, com recuo para 10,5% em 2027, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) esperado gira em torno de 1,85%. Já a inflação mostra uma leve piora nas expectativas para 2026, com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subindo de 4,80% para 4,86%, acima do teto da meta.
Resultados corporativos devem mostrar resistência
O Itaú BBA projeta que, ao analisar o desempenho agregado das empresas do Ibovespa, as receitas cresçam cerca de 7% na comparação anual, com lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) avançando 6,8% e lucro líquido subindo 7,4%. Quando excluídas as commodities, tradicionalmente mais voláteis, os números ficam ainda mais robustos, com receita +7,5%, Ebitda +11,1% e lucro líquido +6,3%.
Sobre empresas domésticas, com a queda do delta da Selic média, o banco vê um impacto positivo maior nesses nomes, que devem entregar crescimento de 16,3% no lucro líquido, sustentado também por uma expansão operacional relevante. Já o setor financeiro deve ficar praticamente estável no consolidado (-0,1%), embora, excluindo estatais, o crescimento estimado seja de 13,3%. Commodities, por sua vez, devem apresentar alta de 8,9% no lucro.
Além do crescimento, a difusão dos resultados também chama atenção. A expectativa é que 73,9% das empresas do Ibovespa reportem aumento de receita, enquanto 61,9% devem registrar avanço de Ebitda e 53,6% apresentar crescimento de lucro. No recorte sem commodities, cerca de 60% das companhias devem expandir o lucro por ação na comparação anual.
Entre os setores, há uma clara divisão. O Itaú BBA destaca utilidades públicas (utilities), com crescimento de 12,4% no Ebitda e 23,6% no lucro líquido, além de incorporadoras, que devem entregar alta de 24% na receita e 17,6% no resultado final. Saúde e educação também aparecem com expansão de dois dígitos, enquanto o segmento de tecnologia, mídia e telecom (TMT) deve crescer 21,3% em lucro.
Na outra ponta, agronegócio e papel e celulose devem apresentar retração tanto em Ebitda quanto em lucro, refletindo pressões específicas desses segmentos.
O relatório também chama atenção para a dispersão entre empresas e setores, reforçando que a melhora não é homogênea. A própria análise de sentimento com base em teleconferências indica que o primeiro trimestre deve ser “marginalmente melhor que o quarto trimestre de 2025”, mas com uma recuperação desigual, “não ampla”.
As 6 empresas destaques do 1T26
Por fim, o banco aponta seis nomes como destaques potenciais da temporada: B3 (B3SA3), Vibra (VBBR3), Bemobi (BMOB3), BTG Pactual (BPAC11), Bradesco (BBDC4) e Rede D’Or (RDOR3), cada um com expectativas de crescimento relevante em suas métricas-chave.
No horizonte mais longo, o Itaú BBA mantém uma visão construtiva, estimando crescimento anual composto de 16% para os lucros do Ibovespa entre 2024 e 2027. Esse avanço deve ser puxado principalmente por empresas domésticas, beneficiadas pela trajetória de juros, enquanto o setor financeiro tende a manter retornos resilientes e commodities seguem com maior volatilidade.
Ainda assim, o principal gatilho segue sendo a trajetória da Selic. Como explica o banco, “o ritmo de cortes de juros e seu impacto sobre crédito e confiança do consumidor será o principal fator a monitorar”, ao lado de preços de commodities, mudanças regulatórias e inadimplência – elementos que vão determinar se a recuperação será disseminada ou concentrada em empresas mais resilientes.